25.9.17

Amores e domingos

O tédio é o azeite que lubrifica o poder da criatividade, disse ele.
E sob seu efeito eu me encontrava naquele 1/5. Era domingo e ninguém é feliz no domingo. Muito menos ouvindo trilha sonora de filme baseado em um arremedo de literatura erótica. Mas “touch me like you do / love me like you do / what are you waiting for?” nunca faria tanto sentido. O bloco de notas aberto na minha frente para atualizar o blog.
A quem eu estava tentando enganar?
Nenhum tipo de inspiração para contos me vinha desde aquela fatídica quarta-feira, 13. 13. Que ironia. Quarta-feira. Nada significativo deveria acontecer em uma quarta-feira. Muito menos advindo de sexo, o que me esforcei tanto para banalizar. O improvável deixava a sensação de rasteira do destino ainda maior. E eu remoía os fatos, tentando buscar em que trôpego instante exatamente eu permiti que aquilo acontecesse. Ou inevitavelmente teria acontecido? E se eu? E se. Respiro.

Se encontrasse o momento, o motivo, o fio da lógica, talvez soubesse como extirpar.
Talvez.
Mas o amor tem a sua própria lógica, é o que dizem. Bonito, mas bastante cruel – o paradoxo perfeito. Não fosse a paixão avassaladora que me sufocava dentro do peito, eu jamais estaria naquela situação. Esperando. F5 no e-mail de hora em hora. A boca seca. Angustiada. A cabeça em tantos lugares diferentes. E, no entanto, em todos ele estava presente. Absolutamente.
Como eu precisava vê-lo. Completamente entregue às raias da dopamina, essa ingrata. Precisava vê-lo. Seu cheiro. Não saiu de mim um só segundo, me lembrando de cada relance daqueles esparsos momentos. O cheiro de alguém tem um poder meio tétrico de provocar sensações inesperadas, especialmente as que não queremos assumir. Sempre achei injusto cheiro ser algo tão invasivo desse jeito. Inquiridor.
Me vem Augusto dos Anjos, “acostuma-te à lama que te espera”. E a minha última quimera fora enterrada há muitos anos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário