25.9.17

Capítulo 1 - Janeiro

[…]
Leo rompeu o silêncio, fugindo mais uma vez. Claudio e Inácio sinalizaram com a cabeça que estava tudo bem e seguiram uma conversa sobre qualquer coisa a que Leo já não prestava atenção; já havia saído dali, levando o copo de cerveja. Era uma sexta-feira e o bar estava lotado, do jeito que tem que ser. Ficava difícil andar se esgueirando pela multidão que se enfileirava para entrar.

Caminhou até a esquina, que ainda estava um pouco conturbada, havia uma leveza estranha no ar, coisa de mudança de estação, talvez, embora ele soubesse que isso não podia acontecer, era outubro. Acendeu o cigarro pensando sobre o valor não ter nenhum valor, e em como Saussure foi um bom de um filho da puta; sobre a razão das guerras – e o conflito de Simmel dando sentido à vida a gosto de qualquer religião; ou sobre uma revista masculina que folheara na tarde do dia anterior, por que a cultura da revista tinha morrido junto com a era digital? Ele era um saudosista, era isso. E pensava sobre. E pensava quê. Ou tudo isso junto. Ou nada disso.
Na calçada da frente, perto da entrada de seu prédio, um casal discutia com veemência. A mulher estava sentada no meio-fio, segurando os sapatos e rindo de uma maneira insana, o homem tentava convencê-la de qualquer coisa sem obter resultados. Uma mulher que passava falando ao telefone prendeu o salto do sapato no chão. Era engraçado ver o jeito desengonçado com que ela não conseguia se livrar da situação enquanto tentava disfarçar para as pessoas que passavam. Seu cabelo era totalmente desgrenhado. Alguém esbarrou em Leo, fazendo-o derrubar o copo no chão.
– Desculpa. – Leo ouviu uma voz feminina aguda dizer, por um lapso, achou que fosse familiar, mas vociferou qualquer coisa de volta sem olhar quem era e preferiu se ater a seus pensamentos.
A mulher, do outro lado da rua, não conseguia desprender o salto por nada. Por que não desligava o telefone? Talvez isso ajudasse. O casal estava na mesma situação de discussão, mas o homem conseguiu convencer a mulher a calçar os sapatos. Um mendigo passou e falou alguma coisa para o casal. O casal. Que singular maldito! O homem não gostou e gesticulou algo que não deve ser reproduzido, enquanto a mulher continha o riso, mas seu olhar estava perdido. Algo estava em desacordo ali. A mulher que estava com o salto preso, finalmente se soltou, e guardou o telefone depois de deixá-lo cair numa poça bem lamacenta e, com uma naturalidade forçada, atravessou a rua na direção do bar, como se nada tivesse acontecido.
Leo a segurou.
– Melissa?! Você.
– Leo?! Não te reconheci de longe.
– Nem eu. Estava observando seu drama com o salto preso na calçada. – Leonardo tentou manter o riso discreto.
– Que vergonha!
– Não precisa, você se saiu muito bem. – Os dois riram.
– Então, tudo bem agora? – Leo fez menção de abraçá-la, ela retribuiu. O cheiro do cabelo era bom, embora isso não amenizasse o desconforto da situação toda. E Melissa era bem mais baixa do que ele esperava.
– Caramba, não te vejo desde que você usava fralda, Leo!
– Nossa! – Que saco!, era a tradução. Melissa não precisava endossar o discurso do pai, Leonardo pensava, mas isso fazia parte daquela tortura. O que o consolava era pensar nas boas gargalhadas que aquela situação renderia para Júlio.
– É, mas você agia como se usasse!
– E você continua do mesmo tamanho ou é minha miopia me enganando? – Leonardo achou que entrar na onda talvez aliviasse aquela tortura. Melissa sorria mordendo o lábio inferior, e balançava a cabeça como quem fala consigo mesmo. Aquilo parecia ser algum tipo de resposta. Leonardo não queria se dar o trabalho de decifrá-la, era tão indiferente em tantos níveis.
– O que tem feito, Leo?
– Passeado com o cachorro, jogado na praia, limpado piscina por aí pra conseguir uns trocados. O de sempre. – Melissa sorria encarando Leonardo.
– Eu estou falando sério.
– Eu mais ainda. Mas já soube que você tem novidades. Sobre o que é o livro?
– Sobre pornografia. Foco em pornografia incestuosa. – Leo sentiu suas palavras fugirem. Ficou assustado com a naturalidade com que Melissa falara aquilo. – Ei! É brincadeira, não precisa ficar sem graça – Melissa falou às gargalhadas.
– Não fiquei sem graça, só não esperava.
– Todo mundo reage assim. Acho que sobre isso é que eu deveria fazer uma pesquisa.
– Não aceito ser objeto de estudo. – Leo sorria sem graça. Melissa o fez se sentir vulnerável, e ele detestava isso.
– Não é nada disso. Estava brincando contigo. Não é nada socialmente agressivo.
– Não ser socialmente agressivo é ruim?
– Não é?
– Não sei, só achei engraçado. Tenho certeza de que o tema é interessantíssimo.
– Mentindo para uma psicóloga?
– Menti!
– Sem problemas. Mentiras sinceras me interessam!
– Eu… – Ele tinha pensado a mesma coisa há uns minutos.
– Você o quê?
– Deixa pra lá. É que eu não sabia que clarividência fazia parte da grade curricular do seu curso! Podemos fazer uma consulta qualquer dia, tipo leitura de mão ou borra de café.
– Sempre engraçadinho. – Melissa encarava Leo – Sei que não acha que eu posso fazer nada de relevante. Você quer mudar o mundo escrevendo uma tese na sua poltrona e viajando para a Europa. Eu não fiz isso. Desperdicei um livro é o que acha, não é?
– Conclusões indiscutíveis! Parece que você conhece todos os mistérios do universo, Melissa. – Leonardo teve a impressão de que bufou involuntariamente. Apesar de o tempo em que estiveram afastados tê-los tornado dois estranhos, os dois se encaravam com o olhar da rotina. E isso era um tédio.
– Bem. À parte conclusões indiscutíveis, acho que ninguém pretende passar a noite numa esquina, não é?
– Nem quem trabalha em uma. Vamos voltar para o bar?
Melissa ajeitou os cabelos olhando em um vidro de carro, o que não ajudava, o cabelo era ainda mais esquisito de perto. Leo se deu conta de que estava com o zíper aberto, provavelmente há algumas horas, começou a articular em sua mente o que tinha feito, de trás pra frente, para descobrir desde quando estava assim; depois da última vez que fora ao banheiro tinha certeza de que encontrou alguns clientes. Agora fazia sentido o olhar enviesado que recebera de uma mulher no ônibus, não era de bom-tom andar dessa maneira por aí. Talvez devesse comprar uma calça com velcro ou de elástico. Ficaria muito cafona uma calça de elástico? Ele sempre foi fã de pochete e poderia militar a favor do seu retorno, é tão prática. Não pegaria bem chegar na agência de pochete e calça de elástico. Prestar mais atenção ao zíper parecia a única solução sensata, apesar de não resolver o problema da pochete.
[…]
O (não) lugar do amor.
Sinopse: Leonardo acabou de ser convidado para o Falo de Príapo, o anônimo e seleto grupo de discussão de alunos da pós. Com Júlio, mais comparsa que amigo, vai tentar descobrir quem são os integrantes, administrando labuta e produção acadêmica. Mas como a vida, tampouco na era digital do “tudo-aqui-agora”, não é linear, o inesperado surge em seu caminho, e ele vai lidar com essas arestas da forma que pode: com humor, cerveja e, eventualmente, alguma música do Raça Negra. Uma morte misteriosa na família de sua noiva e uma suspeita de plágio parecerão pouco perto daquele inevitável e vertiginoso incômodo com que ele vai se deparar: o paradoxo bênção e maldição a que chamamos de amor. O ambiente acadêmico e suas peripécias se mesclam à cena praia-sol-cerveja carioca, propondo a paisagem urbana como integradora das formas de vida. Em seus personagens, a trama tipifica a configuração do amor contemporâneo, perdido entre uma sociedade imediatista e à necessidade tão humana de estabilidade.

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