25.9.17

Qualquer coincidência é mera semelhança

Conheci Valentina quando a rapariga adentrou meu castelo, trajava uma blusa preta com uma coroa estampada, mas nem assim enganava ser membro da realeza ou disfarçava suas legítimas raízes gonçalenses, que se entreviam na calça jeans já rasgada por excessivo uso e desleixo, e nos parcos níveis de higiene que apresentava, por meio da sudorese que escorria de suas pizzas suvacais e cutis extremamente oleosa.

Adentrou meu castelo em busca dos feijões mágicos de que um caixeiro-viajante lhe falara nas travessas do centro histórico do Hell de Janeiro, e que, aparentemente, estavam em minha posse.
Tivemos um rápido embate, mas eu precisava assinar alguns decretos reais, e solicitei que ela retornasse no dia seguinte para prosseguirmos. Qual não foi meu assombro? Valentina apareceu com a exata mesma indumentária. Muito mais malcheirosa, naturalmente. Fiquei em estado de choque, mas ela apresentava uma habilidade homérica em tratar com os comerciantes locais, e permiti que se tornasse uma de minhas súditas.
Promovi um baile para apresentar a princesa à corte, e emprazei Valentina para que desfrutasse de alguns momentos no salão da aristocracia. Aquela dama não parava de me aturdir. Desta vez, abandonara o estereótipo tão peculiar de pessoa de humanas, pois parecia ter se lavado cuidadosamente, e trajava um longo vestido verde de mangas bufantes por cima de grossas camadas de anágua.
Com aquela visão, me escorei na mesa, confesso que eu quase caí da cadeira, e esse garçom não me ajuda, já trouxe a vigésima saideira. Ofereci a ela a bebida por excelência da corte, meu sêmen com Hidromel, sem Hidromel. Após uma valsa, ela demonstrou estima pela minha moção, inclusive pedindo indulgência por sua desmedida audácia; não era de seu feitio banhar-se e assear-se, e tal atitude, tão escassa em seus hábitos, deixava nítido que ela desejava possuir o meu corpo desnudo.
Combinei de buscá-la com minha carruagem, mas estávamos nos tornando tão próximos, que optei por uma abordagem mais informal, e rumei da Praça da Cruz Vermelha em meu cavalo branco, fazendo baliza entre os pedintes locais, para a hospitaleira área de sua residência, o nobre ao contrário bairro de St Christ.
Levei-a a uma cantina da corte, em que um mecenas apresentava seus novos pupilos, músicos de Bremen e de idade já avançada – avançava para o além-túmulo -, que só tocavam músicas auspiciosas, tais como Atrás da Porta, Bilhete e Samba em Prelúdio. Enquanto fazia a corte, percebi seus olhos marejarem; a priori, pensei que fosse somente o efeito das grossas camadas de remela que Valentina ostentava, mas notei que havia algo a mais ali.
Ela me confessou ter rompido com Rapunzel, a princesa mais cobiçada da aldeia em que residia, após seu romance cola-velcro ter sido descoberto e repudiado pelo povoado, e que, desde então, ela não se envolvera com outro ser humano, somente com as cabritas e galinhas que criava, afundando-se em trabalho excessivo ao som de Metallica e Adryana e a rapaziada, exatamente nesta mesma ordem.
Respeitei seu momento, mas não sou um mancebo de se deixar abalar por pouco e desistir facilmente, e agora preparo um banquete em meu palácio para seduzi-la; esfarrapada e faminta, tenho certeza de que Valentina um dia ainda será minha. E hétero.

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