25.9.17

Você pinta como eu pinto?

Eu tinha mudado de emprego recentemente, e ainda não estava habituada às performances conceituais que aconteciam na galeria. Minha ideia de arte, por assim dizer, era mais clássica.
Soube que na semana seguinte receberíamos Macaquinho Performance, e comesçei a preparar o terreno para os artistas, muita vaselina, lenços umedecidos, teste de HIV, purpurina, quadros do Romero Britto, League of Legends e Gloria Gaynor para todo mundo se sentir em casa.
No dia da apresentação, pouco antes de começar, o responsável veio falar comigo para ajeitarmos os detalhes. Apesar de hétero, era lindo. Um espécime de origem folclórica apinhado de pintas e sardas, meu fraco. Se chamava Goiabinha.

– Sou Valentina, vou acompanhar vocês para que tudo corra da melhor forma possível.  Mas como sou muito desenvolta ao contrário, tropecei na sua benga, que era enorme, e caí de joelhos no chão, bem em frente a ele.
– Me acompanha sem roupa, sua linda. Ajoelhou tem que rezar, já fui seminarista e sou muito religioso, não faço a santa genuflexão em vão.
Me assustei um pouco com a alegria e a ousadia do cidadão, mas somos crias de Belas-artes, e desse campo sai de um tudo. Fui bem sincera e falei que estava interessada em acompanhar mermo a geografia daquele jogo de ligue os pontos que o corpo dele era, e nos dirigimos para a sala do estoque da Galeria.
Mal chegamos, Goiabinha veio ávido, me segurou e proferiu sensual as seguintes palavras:
– Tem tomada?
– Oi? – Não compreendi qual era a referência que ele estava tentando fazer.
– Moro em Queimados, e preciso mesmo carregar meu celular.
Ok, era literal, então. Indiquei a tomada e aproveitei para restaurar um Cristo de Elías García Martínez que encontrei. Mal comecei e ele já veio me carcando atrás, cismando que ia comer meu cu de todo jeito.
– Goiabinha, eu quero a chave da porta da frente.
Ele compreendeu que eu era pessoa de só ceder o convencional, e foi dando as investidas, mas eu só ria e comentava como o lustre estava sujo, então decidimos por bem parar e marcar algo mais informal após sua apresentação, já que o reconhecimento de território não ia rolar mermo.
Foi uma performance muito linda, o brioco hétero de Goiaibinha era o mais alargado de todos, praticava muito sua arte; já sem pregas, se alargava cada vez mais, e ele sugou o pingente da minha pulseira quando me aproximei, mas vida que segue.
Fomos comemorar a linda intervenção em uma boate bem hétero de nome Briga de espadas. A fila estava tão enorme, que não atravessava só o espaço, mas também o tempo, e encontrei toda sorte de seres humanos nela, de Chico Xavier e Luz Del Fuego a Credislaine. Muito emocionada, os apresentei, e ficamos os três brincando de mijo a distância.
Um ano e 4 meses depois, chegamos à entrada, Credis negociou nossas entradas, mas o máximo que conseguiu foi um abraço. Lá dentro estava tão lotado quanto Nova Deli e nos refugiamos na fila do caraoquê para elevar a qualidade musical do ambiente com sertanejo corta-pulso.
A derrota veio se pronunciando no coração, e como o tempo passou e eu NÃO sofri calada, tretei com Credis propositalmente, porque não perdoo ninguém para os meus planos sórdidos, e disse a Goiabinha que iria acompanhá-la em casa para conversarmos.
Ele queria ir de todo jeito, mas sou mulhxr empoderadx demais e consegui convencê-lo a ficar. Mal sabe que eu só queria desviar do trajeto e, após desová-la, fiz um pit-stop na boate mais baixo nível de um dos bairros mais suaves ao contrário do Hell de Janeiro para agarrar o DJ.
Voltay te como se nada tivesse acontecido, alegando para Goiabinha que jamais poderia sair com ele denovamente, tampouco começar o que (não) começamos, pois estava de obrigação no centro que me impedia de me envolver com coisas vermelhas.

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