26.1.18

Quando eu digo que deixei de te mamar

Estava no ensaio quando vi sua mensagem: "Alô, tô ligando pra saber como você está! Cansei de sentar bem nas benga' carioca, tô indo dar uma sentada daquela nervosa na sua." Neguei que sou louco por ela, tava maluco pra ver, mas meu pau me denunciou. Chegou a dar um soluço na hora, até deixei a sanfona cair no pote de gel do vocal, que ele deixava sempre à mão pra ficar retocando o topete.

Como a gente vive entre tapas e beijos, não botei muita fé de que ela aparataria. Na semana anterior disse que vinha e não vinha mais vezes do que as idas e vindas que eu lustrava meu mastro pensando nela, chorando por ela, ligando pra ela.

Na hora do voo, eu já todo embecado de suspensório, lencinho vermelho no pescoço e só isso, porque gosto de chegar causando, ela me manda um áudio entre uma nuvem de lágrimas dizendo que perdeu o voo porque se atrasou acariciando o pôster com minha foto no seu quarto.

Escrevi um verso triste de paixão no meu diário, pensando que eu devia era ter deixado uma cicatriz na fuça daquela ingrata, e fui dormir na praça pra esquecer a mágoa de boiadeiro. Mal caí em sono profundo, minha especialidade, recebo novo áudio: "Consegui embarcar, tô no avião, tô indo!"

"Caralho, libriana é foda!", pensei comigo, "até o avião que pega é indeciso". Dava nem pra tirar o soninho de beleza.


Como a área em que moro é tão afastada que muda até o DDD, peguei a primeira roupa que estava à disposição, só no caminho percebi que era um vestido rodado de mamãe, combinando nada com meus olhos de luar. Pra dar uma melhorada no visual, parei em uma perfumaria e fiz uma maquiagem e botei um saltinho agulha XV pra ficar mais harmônico.

Comecei a procurar Valentina no aeroporto, mas quem conhece nossa saga sabe que temos um pequeno problema com encontros, estão mais para des, e eu ainda fui sem óculos, pra ninguém descobrir que sou mestre de RPG. Não tava fácil.

O que me fez achar a vai, malandra foi um burburinho que se formou perto da exxxteira de malas. Aparentemente, ela tava derrubando tudo com a raba, o que gerou mal-estar geral e espigas de milho nos bolsos.

Como nosso propósito de vida é marcar território em todos os aeroportos do país, já agarrei Valentina no estacionamento mermo, eu não tava de vestido à toa, né?

Ela me revelou que tinha sido chamada pra integrar a cia de dançarinas de Amigos e que ia se mudar, logo me esquivei, falei que se ela viesse só nos encontraríamos nos anos bissextos. Pra que viver mentindo?

Valentina chorava tão copiosamente que pensei na única coisa que podia acalentar seu coração: jung food. Só não foi uma sábia decisão fazer mais uma vez com ela logo em seguida.

Eu não sabia que a performance de baixa qualidade a motivaria a fazer escatologia pra tentar salvar o date, vomitou nos arredores e veio querendo me beijar depois, dizendo que se você ama, qualquer segredo some!

- Valentina, você acabou de vomitar! Qual é a intenção de me dar selinho?

Ainda bem que ela se tocou, porque eu não tocaria mais mermo, e não se ofendeu de ir embora. Recolhi meu D20 e fui tocar uma moda com uns migos pra tentar apagar aqueles maus momentos. Comecei logo a fazer textão no inxta com réxitégue #dateruim.

No dia seguinte, bateu a Lua em Gêmeos dando o arrependimento de ter deixado aquele rabetão por tão pouco e mandei uma mensagem como se nada tivesse acontecido, culpando o excesso de Peixes no mapa, mas o único vestígio que ela deixara tinha sido um fio de cabelo no meu paletó.

Mas nem me abalo. Afinal, borboletas sempre voltam e o seu jardim sou eu.

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