4.1.18

Que desperdício você, que desperdício nós dois

Sabe aquela pessoa que tira seus pés do chão e essas coisas todas que a gente acha que só existem na ficção? Que te tira o ar e que te faz respirar em paz, também? Que te faz pegar fogo de tesão, que te nina bem uma noite de sono, que é companhia boa pra conversa filosófica e pras besteiras das madrugadas regadas a bocas anônimas e toda sorte de entorpecentes?

Eu sei muito bem que sou eu.

Você sabe muito bem que é você. Sabemos muito, muito bem mesmo, o quanto somos nós dois. Não é pretensão minha justificada por arrimos astrológicos. Não consultei um cartomante, psicólogo, cigano. Tem coisas que a gente simplesmente sabe. Mas é aquilo, quando um não quer dois não brigam. Muito menos amam.

Se não queimássemos um pelo outro, eu entenderia. Se fosse uma ilusão só minha, também. E eu tenho que aceitar e a vida segue, é assim que funciona. Mas não consigo me conformar.

Não quero seus motivos. Dizem respeito a você. Mas nunca vou aceitar você jogando fora algo tão raro de acontecer e que temos tão fácil e à nossa disposição. A maldita sensação de “É você”, de completude, de engolir o coração socando o peito e todo o resto.

Às vezes tenho vontade de te sacudir, sabia? Dar uns bons tapas na sua cara. (Entre mil beijos nesse seu rosto esculpido, dizendo que te amo, é claro.) Logo você, tão fiel no destino, mistério e incontingências, quer negá-los logo agora? O destino agiu; eu, também. E você? O que falta?

O acaso pode trabalhar, pode tramar, pode nos colocar em xeque. Eu posso estar disposta, posso me entregar, posso pagar pra ver. Mas te obrigar, felizmente, não posso nem quero. Então ficamos assim mesmo, isolados por seus “deixa”, “esquece” e “só-expectativas-provocadas-por-álcool-e-madrugadas”. Vivendo falsos amores pela metade. Tudo porque você me ama, eu sei, mas o seu “não quero nem fodendo” ainda supera tudo.

Pena. Que desperdício você. Que desperdício nós dois.

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Originalmente publicado em Poligrafias.

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