3.2.18

175

Estava na barca, indo pra Niterói. Depois dessa, todas as histórias de terror são cantilenas de ninar. Pelo menos tinha tomada e eu podia ir dando match nos contatinhos pra garantir a noite do outro lado da baía. Sentei pra comer o pastelzinho de carne-seca já roxa frito em banha de três dias - #pás - quando reparei o DEUS GREGO do meu lado. Que homem! Cabeça raspada só de topete, regata colorida decotada até o umbigo, piercing no nariz... Uma tatuagem na careca "171".

Eu ri, claro, mas adorei o desprendimento. Não ia abordar o cara ali, né? Olho pro celular e quem me aparece no Tinder? O próprio! Notei que ele deu maior olhadão pra tela na hora, fiquei tão sem graça que o celular caiu no chão. Bem clichezão, ele pegou pra mim, com um sorrisinho de maldade. Começamos a conversar e daí em diante é história. Combinamos de sair pra beber dali a dois dias, quando ele podia.

Eu não vim nesse mundo a passeio, né, gente? No dia seguinte, continuei no Tinder dando ideia pra inúmeros contatinhos das mais variadas tribos. Tava gamadinha em um bem nerd, usava nome e sobrenome no endereço do Instagram e já fui logo revirando (pena que não ele...) Face, lattes que eu tô passando e por aí vai. O stalk foi tão profundo que achei o fotolog do cidadão! Tinha uma foto dele de cabeça raspada, época do exército pelo que parecia. Assim de cabeça raspada ele lembrava pra cacete o cara da barca.

Não, claro que não era o mesmo. Sou ruim de memória fotográfica, mas era outro. Mesmo tendo um 172 tatuado na cabeça. Parei naquela foto. Que porra de moda escrota é essa, gente? Olha que já usei tererê e crocs, mas ficar tatuando número assim na careca é seita? Tipo a seita que dói menos... Ou não, falam que tatuagem na cabeça dói.
Marquei pro outro dia com um cara nada a ver com esses dois. Tinha cabelo gigante até a bunda, barba que dava pra fazer dread e essas outras peculiaridades de lenhador urbano, até fui de xadrez porque gosto de gerar mal-estar vestida igual aos caras. Não lembrava quando nos conhecemos ou trocamos contato na verdade, mas ele já chegou no WhatsApp mostrando que me conhecia... e bem! Merda de memória. Ia ter que ficar chamando o cara de "mozão" a noite toda pra disfarçar que eu jamais me lembraria do nome. É muito contatinho pra dar conta!

Ele tava lindo de casaco de couro, segurando o capacete da moto e aquele cabelo num rabo de cavalo alto. Delícia! Veio cheio das gentilezas, puxando cadeira pra eu sentar e tal. Gosto muito disso. Ele me entregou uma rosa que tinha trazido, era roxa, dessas clarinhas, sabe? Claro que pensei na piada da flor no coração dos trouxas, não perco uma! Mas fiquei quieta, não ia estragar o momento e aquilo foi lindo demais. Quando peguei a rosa reparei que ele também tinha tatuagem na cabeça. Essa porra tá me perseguindo, né? Só faltava ser 173... Sim, era.

Perguntei a ele o que significava aquilo, porque ultimamente eu tava vendo toda hora e ele me deu um sorriso que me lembrou aquele cara da barca, que tava no Tinder. Eta, coisa estranha. Ainda tirou o casaco de couro e tava vestindo uma regata colorida igualzinha, ainda tinha um piercing no mesmo lugar. Quem já morou em São Gonçalo não se assusta fácil, mas que fiquei bolada, fiquei! Dei uma desculpa e bloqueei ele. Mais um, menos um... Não faz tanta diferença, no dia seguinte eu ia encontrar o original... o 171 da barca, meu modelo estiloso top!

Antes de encontrar o cara dei uma passadinha no McDonald's porque sou esfomeada mermo, levei um choque quando vi o atendente. Era o próprio! Tava explicado porque ele tava me enrolando dois dias. Na certa não queria que eu descobrisse que era mentira que ele era advogado. Como se eu fosse me importar... Só me interessa o que tá dentro das calças.

O boné deixava ver a tal tatuagem que estava me perseguindo. Ele tinha feito uma cobertura muito bem-feita, porque agora estava 174. Desisto de entender.

O lanche veio bem errado, mas acho que seu eu reclamasse ia quebrar o clima, joguei fora e pensei em ir comer outra coisa, mas a porta estava fechada. Era cedo, nunca vi fecharem McDonald's com cliente dentro. Fui reclamar com ele e ele já não estava mais lá. Troca de turno, óbvio, tava chegando a hora do nosso encontro. Tinha um lanche igual ao que eu tinha jogado fora na mesa do lado. Não era igual, na verdade, era o meu. O mesmo que eu tinha jogado fora. Reconheci porque eu fico brincando com o guardanapo, fazendo coração.

Quando penso que não pode ter mais esquisitice na minha vida, né... Resolvo perguntar sobre ele no balcão. A menina faz uma cara esquisitinha e diz que não sabe quem é. Mulher é tudo invejosa, na certa também crushava ele e não quis falar. Perguntei pro gerente. Ele ia me dar uma resposta decente, né? Além de abrir a porta da lanchonete pra mim, esperava.

Ele me falou que o tal cara que eu tava procurando era um ex-funcionário, que tinha morrido recentemente. E eu vi o cara como? Tá, não questionei. Tô acostumada com gente babaca. Pelo menos o tal gerente abriu a porta pra mim. Levei um bolo do cara da barca no encontro. Maneiro ele combinar com o gerente pra tirar uma com a minha cara só pra me dar bolo. Desnecessário, né? Tem gente muito idiota nesse mundo.

Tô eu no parada no sinal esperando fechar, irritada de ter levado uma picada de abelha doendo pra cacete bem na cabeça, surge o cara da barca do meu lado. É insano demais tirar satisfação com estranhos? É, mas eu fiz. Até porque tava muito bizarro isso tudo. Fomos conversando e nem percebi que acabamos parando bem em frente a um engavetamento sinistro. Que bizarro, comentei, mas ele tinha sumido.

No chão, mesmo todo destroçado, reconheci ele ali. Morto. O cara da barca. Ele não. Eles. Todos eles. A dor latejante me fez colocar a mão na cabeça. Estava inchado e eu sem vontade nenhuma de encarar hospital depois disso, mesmo sentindo a dor dali se espalhando pelo corpo. Peguei um espelho pra conferir o estrago. Tatuado ali estava 175. Foi então que reparei no asfalto, perto do parapeito. Todo dilacerado, também estava meu corpo. Na minha mão, bem presa, a rosa roxa.

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Texto escrito para o Desafio do Poligrafias - um texto por dia durante trinta dias com temas específicos e determinados. Meus trinta textos do desafio estão na categoria PoliDesafio.
Dia 6. Uma história de terror.

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