28.4.18

Madrugadas se conjugam no imperativo

Aquele dia na sua casa, quando te pedi pra me ajudar a escrever, eu te disse que madrugadas se conjugam no imperativo.

Hoje, aqui, vendo a cidade que passa em câmera lenta da minha janela, penso no quanto tantas coisas que falamos e vivemos só fazem sentido depois.

Aquelas coisas que só sentimos de fato depois que passam: a falta, a convicção, o peso da responsabilidade do tempo, o pensamento no outro.

Essas madrugadas, conjugadas no imperativo, em que você está aí, perdida nas linhas julgando se particípio ou gerúndio vão fazer seu leitor ir procurar seu nome na página de créditos, enquanto eu deixo as próximas músicas já engatadas pra ter um segundo olhando o mar. O mar que não é meu, é seu. Ou era?

Assim como essa sua janela se esconde atrás de um lago que é meu, não seu. Irônico pensar nos nossos desencontros provocados por um acaso que escolhemos. Irônico pensar nas nossas imposições. Todas elas tão imperativas e necessárias e, no entanto, pra quê?

Por quê?

Qual escolha nos faria pousar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos em consonância com nossas tão sábias, certas e pensadas decisões?

Quais linhas nos dariam razão e confortariam, ignorando que nem o concreto dessa cidade milimetricamente projetada e certa faz sentido nenhum? Ignorando que Cristo Redentor não é beleza natural pra poder tornar uma cidade maravilhosa. Também ele está nadando no caos completo. Reiteradamente. Reiterando-se, vestindo-se da tão falsa sobriedade da razão. Fingindo. Ah, merda de gerúndio.

Quando mesmo o imperativo dessas madrugadas que por anos foram nossas passou a ser conjugado fora das nossas bocas? Tão alheio aos nossos corpos quanto um dia foram nossos sotaques se diluindo em nossas línguas, se misturando. Perdendo o sentido de propriedade.

É, preciso trocar a lâmpada do banheiro.

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