20.4.18

Resenha do livro 12 Regras para a Vida

Quando o Oráculo de Delfos incumbiu os 12 trabalhos a Hércules, de alguma forma também o recompensou; afinal, a conclusão das tarefas lhe daria a imortalidade. As dimensões individual e coletiva já se imbricavam aí: Hércules não estava meramente sofrendo em prol do bem maior, seu sofrimento tinha um objetivo pessoal bem óbvio, ou seja, um significado.

Contra as pretensões do herói da epopeia, a maçã de Adão de todos os males, o indivíduo é importante, não adianta pensar o coletivo sem antes pensar no sujeito. Esse é o mesmo mote do livro de Peterson, 12 Regras para a Vida, significar a vida sob uma perspectiva particular, primeiramente.

De forma similar, Peterson também teve seus 12 trabalhos, e não foram mais fáceis do que lutar com leões ou hidras. (Pelo menos Hércules poderia ter o eventual auxílio de algum deus ex machina.) Peterson, como pesquisador, psicólogo clínico e escritor, incumbe a si mesmo a missão de orientar um indivíduo fragmentado em uma sociedade que, embora preze a dimensão individual, ainda idolatra a ascese e o automartírio como prova de grande caráter. E surgem ansiedade e seus derivados, as psicopatologias com que esbarramos em todas as esquinas, inclusive, sem surpresa, em nós mesmos.
Para equilibrar o eterno embate entre estas supostas adversárias, a subjetividade e a objetividade, Peterson propõe suas 12 regras, que, apresentadas de forma alegórica, resumem-se em confiança, cuidado, preservação, autoestima, responsabilização, organização, realização, transparência, humildade, clareza, desprendimento e valorização das pequenas coisas.

12 regras que arrumam a casa do paradoxo tão constitutivo do ser humano: a gangorra em que displicentemente brincam a ordem e o caos, esse yin-yang da existência. Baseado nos estudos do imaginário, Peterson mostra que o que julgamos como velhos oponentes na arena da vida são nada mais do que parceiros intrínsecos: cultura e natureza, lógica e arte, antropologia e história. É como Maffesoli afirma em "A Parte do Diabo", para citar seu colega de área de estudo: "Deus precisa sempre de seu paredro: Satã."

Peterson, diferente de Hércules, não busca a imortalidade; mas, ainda que não intencional, ela é consequência. O conhecimento faz perdurar nossa curta jornada na Terra. E em cima dele novos Peloponesos são construídos. Novos templos são erguidos. Novos deuses, sob os mais diversos disfarces, do caos da arte à ordem da política, são cultuados. E, nesse coliseu, gladiam-se nossos desejos e crenças, nossas leis tácitas tão óbvias e nosso lugar no mundo.

Em um sentido prático, o antídoto para o caos das 12 regras de Peterson é saber se blindar para as casualidades inevitáveis do mar de acasos da vida. Comece agora mesmo. Levante o queixo. Ajeite sua postura. Mantenha as costas eretas e os ombros para trás.

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