13.5.18

Eu quero criar, eu não quero ser feliz

Faz dias, semanas, meses. Eu sequei.

Claro que eu, até então escritora compulsiva, estranhei. Escritora compulsiva e, o principal, workaholic. Comecei a atrasar trabalhos. A me "esquecer" de escrever, a protelar textos. E os que saíam, porque a obrigação vinha a cavalo, eram piores do que se não tivessem saído: não eram inspirados. Eram falsos.

Eu prometia textos aos amigos, como sempre, mas agora já não saíam. Eu nunca mais tive a inspiração urgente de textos inteiros serem vomitados no celular, enquanto estivesse no metrô, no bloco de notas, no meio de uma reunião de trabalho via Skype, no caderno, na aula da pós. Parei de deixar pessoas falando sozinhas porque uma nuance me inspirou e precisei escrever.

Quando comecei a reparar isso em mim, a primeira coisa que senti foi agonia. Eu tinha tão boas frases à espera, tantas conversas, tantas coisas que tinha visto. Como sempre. Mas, dessa vez...

A mensagem súbita daquela paixão que me fez chorar durante a noite ouvindo sertanejo. O corte reiterado de algum ex-amor que deixa seu cheiro nas minhas esquinas. Nada surtia efeito.

Foi quando ouvi uma reclamação de um fã de alguma cantora pop que veio o baque. "A Fulana não faz mais música boa porque agora é feliz."

Então a resposta me veio óbvia. Parei de escrever porque estava feliz. Ser feliz tirou a alma dos meus textos.


Não eram os textos em si que eram felizes ou tristes, porque sempre escrevi as duas coisas. A temática do texto não faz tanta diferença; nem faz diferença pra quem, de modo aparente, o texto é. Mas o estado de espírito de quem cria. Por isso que os textos produzidos pela felicidade, ainda que se pretendam tristes, profundos, o que for, são falsos.

A felicidade é superficial, ela não te faz descer nas profundezas, se conhecer, refletir sobre a existência. A felicidade te tira da realidade, você só quer sorver aquele estado de espírito.

A dor esfrega sua cara na existência, no real. E isso é insuportável. Você quer sair, mas não consegue. A arte produzida nesse estado de espírito é a arte do desespero, da tentativa, sempre em vão, de achar uma porta, janela. E fica nítido que o artista não consegue achar.

Mesmo os textos "solares" produzidos no estado de espírito da dor são extremamente verdadeiros. Porque saíram de um confronto legítimo.

Por melhor que seja a arte produzida pela felicidade, nunca vai ter o mesmo peso existencial, o mesmo fundo, o mesmo impacto. Não tem como comparar. E não dá para imitar esses estados mentais nos textos.

A gente precisa de Vivaldi. Mas é Tchaikovsky que faz a gente crescer e experimentar o mundo.

Bilac, como o próprio sempre quis, fez a arte da arte, o que pra mim, por mais fã de Bilac que seja - e sou -, é um arremedo. Pura estese de quem jorra talento e horas vagas. Mas Augusto dos Anjos, Bukowski, Pessoa, veja bem, fizeram a arte da alma. Arte por necessidade, das profundezas.

Eu nunca pensei que ser feliz ia custar meus textos, torná-los cacofonia de palavras reunidas. RIP.

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