29.10.18

O despropósito e a necessidade de heroicizar a existência

Não, é claro que eu não culpo vocês. O próprio arranjo social nos leva a boiar nesse monte de nadas. Nossa evolução nos preparou para a estabilidade e para o perpétuo, e, com isso, nos fez alheios à nossa óbvia condição humana. Alguém disse que nós só sabemos que morremos porque vivemos em sociedade - esse mal necessário -, mas vou além.

Nem a vida societal, essa usurpadora de eus, conseguiu nos esbofetear com essa cruel e inevitável (posso adjetivar só mais uma vez? Preciso de um "única" aqui) verdade: a morte. Mas os tempos fragmentados em que vivemos, da megaconexão e de todas as possibilidades, olha a ironia, parecem ter-nos tornado, pela primeira vez, plenamente conscientes dela (sim, pronome, porque a morte não-deve-ser-nomeada. Quem sabe assim ela vai embora). Não só a revolução tecnológica, não sejamos tão algozes, mas ela no mínimo propiciou e trouxe todo o resto: conhecimento disseminado, morte de deuses, espaço para todos os egos crescerem e se equipararem.

Somos todos formadores de opinião. Somos todos deuses. Parece que aquele Renascimento, que colocou o homem no centro, só nos caiu de vez, como esse baque surdo, agora. Ou só agora nós o retomamos e o levamos a todos os limites. Somos antropocêntricos (egocêntricos mesmo, na verdade), somos românticos. O herói romântico, individual, nunca nos serviria tão bem. Somos mimados, somos fanáticos, somos histéricos. (Nossa, mas essa palavra é tão... Sim, eu sei. Só usei aqui pra você poder gritar mais um pouco. Quem sabe, assim, você entende.)

Somos perdidos. Ao mesmo tempo em que nosso eu cresceu demais, e se sobrepôs a tudo, inclusive soube muito bem se travestir de ativismo e busca por direitos coletivos (que só refletem mais o quanto somos centrados no eu), ao mesmo tempo tomamos a total consciência do que somos: porra nenhuma.

E essa sociedade que corre não nos deixa nos adaptar na mesma velocidade. Não estamos acostumados com a velocidade - ainda. Ainda estamos em fase de adaptação do que já acabou. Atrasados em relação a uma realidade que nunca mais vai se permitir alcançar, dado o aumento de sua velocidade ser assim tão exponencial.

A sociedade, enquanto estrutura, agora, após a era digital, corre em PG. Nós ainda escalamos lentos esses muros em progressões aritméticas.

Mas a métrica nos falta. Do radical ficou-nos só a mimética.

Somos hiperinertes e hiperapegados ao mesmo tempo. Defendemos grandes causas, que sequer existem muito além das esquinas da sala de nossa casa. Mas precisamos nos agarrar a elas. Precisamos teologizar a política, foi o único deus que nos restou, seja do lado que for, são sempre anjos e demônios saltitando pelo planalto, e nunca pessoas comuns, como nós, e discursos planos e sem vida, meras palavras ao vento. São deuses, todos eles, do bem e do mal. Do Bem e do Mal, aliás. São lutas que forjamos, são necessários inimigos que criamos, são nossos protetores em que agora acreditamos e elevamos nossas preces sob a forma de hashtags.

Precisamos expurgar o ódio, ainda que ele se vista daquele famoso ódio do bem, que grita pela liberdade, democracia e representatividade, mas ataca fácil com insultos e até agressões físicas o mínimo desvio de opinião daquilo que consideramos certos.

A sociedade está doente. A sociedade talvez tenha consciência disso, lá no fundo, mas gosta. Essa doença é simbiose, porque é boa, é confortável. Dá propósito, acalenta, heroiciza. A sociedade abraça feliz e satisfeita o próprio monstro, porque ele é sua única companhia para dormir a noite.

Descontamos fácil o ódio, essa energia estagnada e o excesso de eu em ideologia e bem maior. "Uma coisa é defender opinião diferente, outra coisa é defender a dessx cretinx." Não, não é diferente, não, só foge do leque do que você acha que é aceitável, e supõe ser diferente. Você não quer defender o diferente. Só acha a ideia bonita. Na verdade, você só quer se proteger, porque você ACHA que é diferente. E, no entanto, isso tudo só te faz tão plano, óbvio e igual em suas cores de luta pintadas no rosto tão revolucionárias e de vanguarda.

O que não é pecado algum, aliás. Não deveríamos nos incomodar tanto com as semelhanças que temos, ainda que díspares. Não deveríamos nos incomodar tanto com as diferenças que temos, ainda que iguais.

Mas o que nos incomoda, de verdade, não é nada disso. Isso são máscaras, confetes e serpentinas que dia após dia nos distraem da única realidade possível por sermos humanos. Sim, a morte. É só por isso que fanatizamos ídolos e lutas. É só por isso que heroicizamos nossa existência de merda em cartazes e bares que varam a madrugada resistindo.

Viva a subjetivação. Vivam todos os nossos subterfúgios e tão irreais compromissos, valores, laços e todo o resto. Resto. Nem ele sobreviverá.

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