27.1.19

Aquilo que não se explica

Não adianta eu explicar o que você nunca vai entender. Não existe didática que esmiúçe as coisas que só se sabem ou se sentem, por saber ou sentir.

Estamos em lados opostos.

Não é só isso. São lados apartados, aliás. E esse muro, tão impiedosamente sólido, não permite tradução. Ele é categórico. Ou você está de um lado ou de outro. E aqui, desse lado, planilhas e cálculos são completamente inúteis. A bússola precisa ser abstrata, e você trouxe agulhas.

O resto dos dias são lágrimas do que nunca foi, do que poderia ter sido. Porque se aconteceu ou não é irrelevante, a forma real como as coisas acontecem é sempre mais dolorosa do que a ilusão do que não se concretiza.

E se eu sinto dor, saudade ou o que quer que seja dessa isotopia, é só das coisas que naufragaram dentro de mim, e nada daquelas que de fato tivemos (verbo ter, malícias da língua). Essas são terríveis, como tudo o que concerne ao mundo real, como eles disseram.

Você fica arrepiada quando sabe a história por trás de uma obra. E quando sabe principalmente que tanta dor frutificou, "fez o nome de alguém".

Você é superficial.

Você me olha com desafio agora. Que puta desaforo! Que puta audácia! Mas superficialidade não tem a ver com você detestar séries de humor, coreografias de boates e livros de ficção. Nem com você ser contra idas a micareta e coisas do tipo, tão fã de filme francês, monogamia e teorias heideggerianas.

A superficialidade de que falo, veja a ironia, é mais profunda. É a completa incapacidade de sentir simplesmente. De conceber o que não foi dado por Descartes. De saber que é na entrelinha que se faz a vida, e nada disso foi quantificado em gramáticas.

Arte é necessidade pra quem é, só isso. Se frutificou ou não pouco importa. Você não entende que não é nosso nome, nossa extensão vocal, nossos dedos virtuosos, nossa bunda de 1m o que está em jogo. São as nossas feridas.

São nossas fraturas expostas, são nossos fragmentos do que você ainda pode chamar de alma, que, pra nós, já foi tão pisoteado que não pode mais ser entendido como unidade.

E é só por isso, por essa perda total de unidade, que justamente vira arte. Essa daí na qual você jorra gozos inúmeros em solos de guitarra, pinceladas rápidas, foco ajustado, quedas precisas de barras de pole dance, linhas metrificadas - tão identificadas - e drives malfeitos.

Você está inteira. E talvez fique assim pra sempre. O que não sei se te desejo. Estar inteiro protege, acalenta e gera gargalhadas ébrias de fim de madrugada. Mas não é bom. Porque estando inteira você nunca vai saber de verdade. Você vai continuar assim, círculos feitos com compasso, tradução automática, desconto de imposto de renda.

Não, não adianta mesmo. Você nunca entenderia.

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