26.8.19

Codinome Elizabeth

Hoje me veio o dia em que você conheceu minha casa.

Você sem jeito tocando Codinome beija-flor, sentado na beirada da cama; aquele nosso afã de primeira vez, seu cheiro doce impregnado nos lençóis, minha respiração aconchegada na sua nuca.

E então me veio em seguida nosso último encontro, cheio de tentativas desinteressadas de amizade, emoções cinza, músicas nossas de que tive que me desfazer.

Um tanto chocante constatar o tom premonitório no quanto a música faria sentido depois.

Delicatessens deslocadas tocando rock no meio de uma rua feia. Becos que se pretendem coloridos, artísticos, líricos. Tão insossos, óbvios, sujos. Avisos sugestivos no metrô lotado de indiferenças. E todo o desencontro entre sensações e palavras, e minha apropriação um tanto anacrônica de suas ideias e sentimentos. Pores do sol no lugar errado, na hora errada, impressões erradas. Tudo, tudo errado.


A espera é traiçoeira. Às vezes, você só percebe que se rendeu a ela quando ela acaba.

Você chegando de óculos, suado, cabelo mal lavado de dia seguinte. Seus olhos de vírgula me sorrindo ainda indecifráveis e distantes. E ainda impossíveis. E ainda me apunhalando. Não da mesma forma, claro que não. Mas me apunhalando com o gosto do que poderia ter sido.

Desses tempos verbais tão ingratos de possibilidades que foram negligenciadas.

Poderíamos ter feito tudo ter sentido juntos, não poderíamos?

Todos esses estados em que já nos esbarramos, de forma um tanto proposital. Contingências no caos, premeditações na ordem. Erros, acertos, desvios. Precisando botar a culpa em entorpecentes, psicopatologias, necessidades. Não, nada disso.

Nós é que estamos fora do lugar.

Agora, aqui, justo aqui, neste pardieiro de todas e de nenhuma intenção, somos inapropriados um do outro, mais do que nunca. A única coisa que nos pertence é a estranheza.

Talvez o amor não seja uma coincidência. Mas pra isso a gente tem que parar de evitar sentir dor.

Quando?

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