31.8.20

Tutto è buono quando è eccessivo: Análise preliminar de Salò

As ditaduras promovem o crescimento. As ditaduras acarretam desenvolvimento. As ditaduras, ainda que de modo indireto, fazem pipocar a arte. As ditaduras são planas, refletidas e gélidas. E, no entanto, de toda sorte de sentimento noturno, são labaredas do caos.

No plano das aparências, Salò traduz os 120 dias do pai do sadismo para uma crítica ao fascismo, de Mussolini. Na adaptação de Pasolini, os 4 responsáveis pela "empreitada" deixam bem claro que nada se pode fazer contra as forças que nos dominam: a lei, a religião, o poder verticalizado, a estratificação. E, no entanto, os 4 são faces diversas de uma mesma moralização que brinca, no playground da vida, com o mal.
Somos pouco mais que criaturas agêneras recém-jogadas nesse experimento existencial, peças de um xadrez humano um tanto cruel para quem se sabe imerso no total acaso, aos desmandos dessas reguladoras forças superiores.

Pasolini soube muito bem jogar com essa dualidade, que as ditaduras encarnam sem pudor, entre lógica e desespero: enquanto as "vítimas" se entreolham aterrorizadas, o plano cênico forma um quadro.

Os poucos cortes de cena favorecem tanto a pretensa naturalização típica do neorrealismo italiano quanto a estaticidade de uma foto. Cada postura, gesto, olhar compõe quase um quadro renascentista, toda a ode à frieza pensada da simetria neoclássica está lá. Um brinde à ironia da perfeição.

E se ali, na superfície desse jogo de batalha naval, ainda somos humanos, o mal, tratado como imanência, perverte essas linhas tão milimetricamente bem projetadas em agonia romântica.

E os atores novatos, ou até não atores, que encenaram o filme só casam forma e conteúdo. Cabe certo despreparo para enfatizar o incômodo com comportamentos inesperados.

E esses comportamentos, perversos, que são relegados tristes à bizarrice, recebem o adjetivo de grotesco, dado seu caráter repulsivo. Nada mais alegórico, considerando o mau uso do termo, com a reincidente catadura pejorativa que recebeu.

A obra é, de fato, grotesca, mas não como a classificam, como a entendem, como a pretendem. Se grotesca, na acepção do bizarro, de sua superfície porcamente analisada e compreendida, grotesca é no desenrolar de suas camadas, enquanto estética que, de estese, rompe com sua condição e transcende as aparências. O que é estese vira também fundo.

Salò, assim, não para na óbvia tensão de um experimento humano em uma quasi prisão que simula um macro social. É o eterno retorno das estruturas sociais, em que o passado se atualiza. Na estaticidade de uma propriedade, controlada, fechada, com a pouca alteração na luz do filme marcando muito bem as ausências, grita toda ordem de caos.

Não há dia, não há a noite. Mas a suspensão do tempo, que descreve e paralisa, exacerba os excessos. Os excessos são a ordem. Os desejos, anárquicos, marcam a linearidade da lei.

Assim, Salò se desenvolve em camadas, sendo, em última instância uma crítica à ditadura dessa nossa paradoxal necessidade: a falsa ideia do homem civilizado, que percorre bons selvagens e leviatãs, dançando de mãos dadas com supostos pressupostos de que a cultura salva, com um grau zero serelepe dando uma piscadinha de espreita.

É que o estrabismo do poder serpenteia e acaba cimentando até a revolta em atos.

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