9.11.20

Pular no precipício é mais fácil do que aguardar o toque

O golpe de sorte e a vista pra rua principal, e essa arma apontada pra mim.

Desestabilizada como você me deixou, eu mesma puxei rápido o gatilho, com medo de que você acabasse fazendo.

Como meu pensamento, tão insistente, não te sacode, não te estapeia, não te suga direto pro meio das minhas pernas?

Vejo a fumaça se desfazendo e entendo. Também meu pensamento se dissolve um segundo antes de te tocar e no meu peito jaz pesado, como os resíduos pegajosos do alcatrão.

Canto você a plenos pulmões. A sua língua, que deveria estar se embolando na minha. Os seus sons, que deveriam estar me arrepiando ao pé do ouvido.

Canto errado, é claro, tentando estruturar em forma e conteúdo as peças dessa substância sonora da qual ainda não me apropriei, veja só a alegoria.

Respondo a esse refrão circular, como se ele falasse comigo. É claro que não é felicidade, só seria se você estivesse aqui.

E sorvo esse momento, vendo de cima, tão distante, seu bairro, a música se repetindo indefinidamente, a tragada preenchendo o corpo, essa construção forçada de perenidade, como um instante eterno. Do qual fica só o escape, os rastros. Então condenso ele na minha arte, na minha expressão. É um tanto tirar de mim e um tanto, muito mais, o jeito de te manter perto, perene, cristalizado, comigo, única forma possível de, longe do teu toque, não enlouquecer.

A nicotina que me entorpece nessa morte lenta martela aqui:

Será mesmo que eu matei nós dois?

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