27.12.21

Como Deus planejou

Decoro texto, e o fundo é o álbum da tua banda preferida, como se nossas singularidades pudessem de alguma forma misturar de novo nós dois. 

E me vem teu cheiro, mais por necessidade conjurado do que por acaso acontecido.

Nos corredores do aeroporto. No detector de traços. Na poltrona que não reclina. Nas muitas pessoas que, indiferentes, passam.

O funcionário impaciente que me tira do transe só expõe o fato do quanto você esvazia minha mente de qualquer coisa.

Isso se tornou fácil.

Difícil é qualquer outra coisa conseguir esvaziar minha mente de você.

8.12.21

Superego

Eu te imagino, eu te conserto, eu faço a cena que eu quiser.

A música que irrompe pungente nos arredores me aponta o dedo.

E me traz tudo o que há muito pulsa sob o tapete.

A hesitação do desejo. Não do desejo em si, pois ele é sempre faceiro, íntegro, escorreito. Mas hesitação dada pelos seus diversos figurinos. Os julgamentos. A antecipação de impossibilidades. A guarda engatilhada da recusa.

Fica a ambivalência.

A espera da concretude dada por qualquer força esotérica que de súbito me resgate.

Mas a verdade é que nada pode ser real até você permitir que seja.

3.12.21

Ego

Dia de semana, espera em cafeterias refinadas e a sensação tranquilizadora de controle por afastar os resquícios de você.

Movediça.

Toda essa estrutura que se diz racional e censora é nada mais que isto: mecanismo de defesa.

Racionalização do que não pode ter razão, pois lhe é desconhecida.

E sempre é preciso impedir-se de descobrir o quanto se apassiva por vontade.

4.11.21

Segunda pessoa semântica, terceira pessoa gramatical

Procuro-te 

Nos seios e nas coxas*

E, em todas elas, o cheiro é sempre teu

Em todas tantas, em suas diferenças que as tornam desinteressantes, inamáveis, você se esconde irrequieta

Prevejo-te

Em todas quaisquer "ela", tão distantes, que se deitam invasivas sobre minhas pernas, difamando a morada tua

No botão da blusa que fecho para mais um encontro do que é impossível de encontrar, pois há botões mais do que ela, qualquer ela, é capaz de serzir

10.10.21

Id

Manifesto, claro. Sem que me tomem hipnose, método catártico, livre associação. 

Manifesto não por pulsão ou qualquer coisa necessária e alheia a mim. Por descaminhos bem-sucedidos de atos falhos.

Manifesto por vontade. Opção, pura e simplesmente.

Recalquei você em sintoma, porque é assim que se aprende a fazer; é assim que se diluem fatos, categóricos, eles me disseram.

Mas você não ficou me surgindo somente nos subterfúgios pouco percebidos, quem me dera.

Toda essa história de conversão é falsa, pois insuficiente.

9.10.21

Presença

Sábado, na rua famosa da cidade grande, permito-me ser absorvida por uma galeria.

Galeria dessas que tudo o que ostentam apenas choca momentaneamente olhos indiferentes àquilo que se rasga de real.

Bobagens de finais de semana requintados.

Paro.

4.10.21

Prefácio ao livro Confissões de Valentina

Dizem que a arte imita a vida, e a vida imita a arte, e repetimos faceiros essa ideia por aí, certos de que a correlação se esgota nela mesma, nos satisfazendo ao pensar que ela diz respeito ao que tem de real e árido na arte e ao que tem de ficcional e mágico na vida.

Como se, nessa relação solidária, tanto vida quanto arte aparassem suas respectivas arestas e se apresentassem sob uma forma perfeita, com uma superfície tão polida e lisa que tudo o que faz, muda e com um cândido e tranquilizador sorriso estático, é refletir.

Mas, como superfície que é, essa impressão não vai além dos muros e das vitrines que, acostumados, olhamos de relance sem reparar as alterações que ali se fizeram. Pior, sem minimamente vislumbrar os universos que muros e vitrines ocultam.

1.10.21

Olhos de inquisição

Não
Não me coloca desse jeito no teu tribunal
Sem direito a escusa e sem defesa
Ré confessa por dolo

Nem dia útil era, não vale esquiva
Mas quando não se tem mais escolha
A não ser acatar?

As imposições do desejo
Das mãos
Da respiração ofegante
Do gemido involuntário e a quentura das pernas
As rezas

16.9.21

Clown

Era uma terça-feira quando ele me apareceu, a forma de ajeitar o cabelo atrás das orelhas, entre os óculos, e os truques de malabarismos.

A agonia dos finais de festa transformada em fervor, que sempre se recria na primeira saudação.

Então eu vi. Mas não aquilo que se mostra, como os punhos bonitos e a sequência de tatuagens. Vi a escuridão, mascarada na aura leve, expurgada nas materializações do inconsciente. E o gosto por jogar nessa dualidade.

2.9.21

Fá dobrado bemol

A perspicácia ferina, de preferência usada para endossar algum sarcasmo. As referências, também, e a pronúncia gestual do italiano com as aulas grátis de etimologia. 

E não por sabê-la, porque isso é irrelevante, mas por seu gosto por sabê-la; eis o encanto. Sempre fui disso, de gostar dos gostos alheios, e de alheio você tem tanto, irrevelável, o que só concorre para uma superfície ainda mais interessante.

De bandeja, a tua entrega sempre vazia da tua real substância, aquela mesma que se arreganha na tua arte, talvez por tua necessidade de sangrar por vias tortuosas o que tanto sufoca nas tuas paredes.

E depois vem a concentração. Não digo o talento, porque isso é vulgar e superficial demais. Mas como você fica tão imerso na tua arte a ponto de vocês dois tornarem-se um só, indiscerníveis.

12.8.21

Cinzas

Eu queimei a primeira vez quando perguntei seu nome, você contra a parede.

E logo depois, entorpecida pelo misto de rebarba de dia anterior e prévia de dia seguinte, quando vi que havia mais em comum do que o entalhe dos lábios.

E só ali, na mesma noite, foram várias. As referências bobas e as profundas (talvez, por isso, mais bobas ainda). Discrepâncias de se recolher e se arremessar em coisas opostas. O meu comentário vulgar sobre o nude "nunca mostrado desse jeito". O seu "tá perigando" (lembra?), que você me disse enquanto se afastava e que até hoje me faz pensar no quanto isso representa, no que tange a mim, você.

Sua crise de ciúme, que você, ainda, tem a cara de pau de negar, esperando o Uber. E eu com duas Valentinas em mim. A que se sentiu maravilhada por aquilo e a que me cutucou forte e disse: "Por que você tá gostando disso?! Você tá maluca?!"

Eu queimei.

Naquele dia em que, saindo do trabalho, vi a notificação e me veio tua voz em "Forever". E senti a efusão se espalhar por todo o corpo, ao mesmo tempo em que me veio a mesma Valentina castradora, pretensa ode à racionalidade: "Para de se sentir assim. Não é nada disso."

Eu queimei nos meus planos ingênuos de virada de ano e Carnaval, e queimei procurando alugar meu apartamento por temporada por um feriado contigo.

Então queimei de frustração por um corte e por todas as referências que me soterravam de você.

Seis segundos

Se eu conseguisse voltar no tempo, seis segundos, só isso que eu pediria. Seus dedos no meu rosto, mordida de lábio. O sorriso mais bonito, desenhado sobre a curva dos dentes.

Seis segundos.

Era só disso que eu precisava. Se eu só tivesse seis segundos pra te dizer tudo o que sinto, eu voltaria àquele sábado de novembro, primeira vez.

Eu poderia te escrever uma carta, textos compulsivos, músicas sentidas em tom menor - o que já faço - com a minha versão dos fatos, rasgando o peito. Mas eu gastaria latim em vão. Nada do que eu possa te dizer chega perto daquele dia. Nada mais seria tão preciso do que seu toque falando comigo.

22.7.21

(Im?)Possibilidade

Revirando as cobertas, o pensamento rasgando mais que os quatro graus da cidade.

Digito e apago repetidas vezes a mesma mensagem: não consigo dormir pensando em você.

Penso na conversa que me queima o peito mas da qual já não me permito mais extrair expectativa - caminho que aprendi a seguir, automático.

Mas pensar na possibilidade de nós dois é inevitável nessas situações. Não se fecha de uma hora pra outra uma fonte que até então represada se escancarou.

Busco, nesse momento de pico, todos os métodos do dia a dia de te tirar de mim.

15.6.21

Detesto

Primeiro, eu detestei o convite. Você me estendendo a mão me chamando pra uma dança. Fim de noite, músicas improváveis, salão já vazio.

Recusei. A recusa não foi a ti, mas a começos óbvios. Nós não sabíamos, porque saber demanda olhar o passado, e não premonições ancoradas em intuição feminina ou ter crescido com parentes ditos médiuns.

Saber demanda analisar o que já foi, com seus efeitos no corpo e no ego, e éramos prenúncio de primavera, o florescer.

Então, recusei, e fiz, eu mesma, a ti o meu convite.

Tua boca, afluente do universo.

Porque é na boca onde se dá o conhecer.

Bebês poem tudo na boca porque é assim que se experimenta o mundo. E o peixe morre pela boca porque começo só pode ser começo se, ao mínimo tropeço, puder se tornar fim.

Nada se desenrola se não partir dessa tênue - e embrenhada - dicotomia.

9.5.21

Xeque

Xeque
A F#m​ D E

Há mundos que eu não sei dizer
Se existiam antes de te conhecer
Sabe, tropecei num portal
De realidade acidental

Não me venha de aviso
Sobre o seu jeito arisco
Flanco sorriso
Corro o seu risco

Não nos negue a centelha, chega e me incendeia
Ergue pra mim só uma só sobrancelha

3.5.21

Bigodinho salafrário de personagem rodriguiano

Depois de tantos depois, em uma dessas noites de dias úteis esfriando antes do que deveria a cidade cinza, o porteiro me solicita autorização no teu nome.

Me pergunto se ele confundiu a visita ou o apartamento, e, a ele, pergunto a descrição.

De alguma forma, eu já espero as imprevistas recidivas tão certeiras. Mas sem nem avisar?

Te autorizo quando me atinge o ceticismo de ser mesmo você somado à minha impossibilidade de te negar. Somam-se também a expectativa riscando o estômago e o desejo que todo o corpo domina de lavar meu apartamento de você.

Depois da subida de elevador mais demorada dos últimos seis meses, você me sorri o contraste do sorriso juvenil na cara sempre tão séria e um tanto soberba.

E me sorri com os olhos de quem finalmente cede, na curvatura que me fez cativa do bigodinho salafrário de personagem rodriguiano. E olha que carioca sou eu, mas quem trouxe as armadilhas do malandro pra me enredar foi você.

18.4.21

Você

Você
C#m - B - A - G#

Nenhuma madrugada se faz na igreja
E eu nunca levei jeito pra ser a cereja
No bolo de alguém a caminho do altar, meu caro

Se eu pudesse, devolvia as tuas noites
Não quero meu nome em gritos de açoite
Espalhando os cacos atrás de reparo

Pré-refrão
Essa cópia da chave nem nunca foi tua
Recolhe teus pratos, segura tuas roupas
No chão do meu quarto elas não cabem mais
'Cê não me conhece, rapaz

Não tema feridas que você nunca abriu
Você não valeu sequer meu ardil
Ainda pergunta o que vai fazer... sei lá
Eu nunca amei

17.4.21

Medo de altura

Medo de altura
C G Am F

Onde foi que eu errei?
Será que foi falar de outro alguém?
Tantas noites vazias, tão rasas
Sem me prender a ninguém

No meu corpo, 'cê viu aventura
Eu te disse, era só armadura
Que coisa...
Eu seria tão fácil só tua, só tua, só tua

Erro de pele

Erro de pele
G D Em C

Tudo 'tava indo tão bem
Eu já me sentia até o seu neném
É que quando a paixão pega de jeito
A gente foge da gente mesmo

Amor, 'cê me entendeu tão mal
A gente é mais que um lance casual
Vai matar meus exércitos teu gelo
E eu louca por ti até o fio do cabelo

Já não consigo nem pensar direito
'bora voltar do começo?

6.4.21

Tua

Você me fez tua.

No riso. No gozo. No abraço que cria vontade própria e sozinho se demora.

A sua barba te assinando nas minhas costas. A cara fechada que a retina transforma em retrato. A enarmonia dos nossos gemidos. E o poder nada sutil de gozar com o teu arrepio.

Você me fez tua.

29.3.21

Cinco letras

Cai a água gelada nas costas, e a zanga espúria que sinto tem seu cheiro. Sentimento de cinco letras, como a folia que me brota no peito com o lembrete de que você usou o chuveiro antes de mim e mexeu na temperatura que deixo como padrão, sendo um pouco dono comigo do meu cotidiano.

E me preenche a alma ver tão palpável a nossa intimidade.

De poder deitar nu em pelo um do lado do outro sem compromisso de sexo, porque a gente pode desnudar nossa alma, e isso é que tem urgência.

De antecipar as piadas ruins um do outro, e ainda assim continuar achando graça delas.

De ter se tornado natural sem a gente se dar conta que não importa o que aconteça, o desfecho da noite e os dias seguintes são sempre compartilhados.

Também tem cinco letras mania, como todas as suas que me aquecem a rotina. A mania de reclamar que não desligo meu computador e que não tenho backup. A mania de pedir para ouvir os áudios alheios que ignoro - e de se incomodar por se ver tanto em tanto de mim. A mania de comer de colher e nem sequer usar como desculpa sua ascendência de outra cultura, porque você fica confortável com a sua esquisitice peculiar, que já se tornou meu porto também.

14.3.21

Dez a um

O interfone toca. São 2h43 da manhã. Mais uma madrugada que me reviro nos lençóis com a invasão dos seus trejeitos forçando todas as funções do meu corpo no limite, me mantendo desperta.

O interfone toca, reincide, insistente.

Algum engraçadinho, trote, uma desculpa. Eu não ia atender nem fodendo. Me reviro nos lençóis, sigo a leitura de algum livro sobre arte contemporânea, como se minha cabeça estivesse de fato em happenings e instalações - eu detesto arte contemporânea.

Mas a campainha me faz saltar da cama. Interfone, ok. Mas campainha? A essa hora?

Penso em ignorar, mas o "Valentina" grave me suga em um segundo até a porta, a mão automática na chave. A tessitura, o timbre e a cadência particulares. O sotaque que na tua boca se torna só teu.

Falo seu nome, é uma pergunta, não pode ser. Você mora do outro lado da cidade, e, caralho, é madrugada. Mas o teu "Ufa, caralho" me confirma.

Eu tinha me esquecido do seu poder de persuasão frente a uma equipe inteira de porteiros que, mesmo com o pouco tempo, já decorou seu nome e rosto.

Pulo no seu colo, a urgência sôfrega dos desejos que se tornam necessidade. Sua boca na minha é mais do que encontro. Te sorvo. Absorvo você dentro de mim. Sedimentando as treliças que a saudade deixa.

Centelha... do caos

Sentir. Muito sentir. E, a isso, equiparada a ciência do quanto não se pode. Por que é tão bom pular no abismo, se a queda certeira e todas as sequelas são tão sabidas?

A gente se ilude de que doem os quase amores - com seu bônus reforçador das brechas do que não foi e dos espaços sedutores da fantasia -, mas como seriam estes piores do que os refreados pela própria consciência?

Nós dois e a certeza há muito internalizada, por teoria - por profissão, inclusive, no teu caso - e por vivência, da ativação do abismo.

E darmos as mãos conforta, arranca o peso do peito que até então nós, anestesiados, não nos dávamos conta de que existia. Mas dilacera o dobro do que as soltarmos.

19.2.21

33

Olhos, olhos de renúncia antes da largada
A visão literal, comprometida e borrada
Contando a percepção particular dos teus pousos e paradas

Sobrancelha; sim, singular, porque mais a direita
A sensação constante de espreita
E de escolhas que não se permitem refeitas

Lábios, as pazes e as rinhas
A pressão, o ritmo, as bainhas
Que, relutantes, se entregam nas covinhas

Sorriso, que me mastiga a mente
Que se insinua entre sacana e inocente
Desenhado sobre a perfeição dos dentes

Mãos, principalmente as mãos
Suas histórias que foram deixadas em outros chãos
E as que você reescreveu nos meus vãos

Ômega e Alfa

Sim, eu saberia dizer.

Teus desvios da verdade, primeiro, mesmo eu não sabendo deles - do jeito que se aceita dizer como saber - de cara. Mas fáceis de supor pra quem também os tem.

E, neles, os atalhos. Mas fechados, claro, pra não permitir expedição outra além daquelas que você mesmo pode chefiar - e ordenar o tráfego.

4.2.21

A Chama da Paixão... e do Caixão

Quando vi aquele homão, forte, cabelos ao vento à la "Anunciação", pele moreno-jambo, olhar de comedor da Baixada Fluminense, logo senti que tinha que ter algo de errado.

Estava sem camisa capinando um lote, suado nas temperaturas amenas do janeiro carioca, calça branca de terreiro toda colada, marcando uma jeba de proporções descomunais.

Cara, havia algo de muito, muito errado.

Essas sortes não aparecem na minha vida, eu, acostumada que soy com piroquinha -10 que só resvala pela entrada, deixando intocada a caverninha.

Meu colo do útero, clamante, logo se contraiu. "É hoje que vou ser apresentado diretamente a uma estocada de rola", eu podia ouvi-lo. Mas algo me dizia que aquele homem robusto e madeirador estava envolto em um grande e sombrio mistério.

Depois de perceber que meu dedo indicador da mão direita afinou consideravelmente, pensando naquele espécime forjado no mais puro néctar da testosterona, vi que precisava agir. Logo fui a uma cigana saber do meu destino.

Na hora que a mulher virou o jogo, revirou os olhos num transe mais profundo do que minha buceta sabia que seria explorada, e caiu pra trás. Dos seus lábios, ouviam-se sussurradas estas palavras: "Sai, sua vagabunda, esse homem é meu, eu quero, que delícia, caralho".

Olhei aquela cena patética indignada. A cigana queria me passar a perna? Até ela? Só porque meço metro e quarenta e tenho essa carinha de trouxa?! Ah, tudo tem limite. Saí de lá sem pagar e olhando para trás, porque sou destemidah.

Mal sabia eu o que me aguardava. A cigana, sedenta pelo alfa da matilha, e puta que não paguei e ela não conseguiu comer o BK que planejava, me lançou uma maldição: a chama da paixão seria acesa nas minhas entranhas, mas meu estacionamento nunca veria a tal tuneladora.

3.2.21

Copo que vai enchendo

Yasmin Santos canta como se me visse aqui em casa. A voz que me adentra o peito "Gastar saudade, economizar vontade" revirou tudo em mim. E me derrama pelos poros você.

Será que você me aparece, óculos e o típico contraste de você, cara séria e sorriso juvenil, mordida no lábio e máscara do Mickey?

Se eu prometer...

Só te levar pela porta dos fundos. Sendo o plano B. À meia-luz, no canto escondido. Como reserva, segunda opção. A desimportância para quando a conveniência abrir suas brechas, dado que somos contingência, nunca premeditação.

Se eu prometer...

Sentar à mesa ao lado. Com outra. Tendo sempre algum compromisso, até esquecendo que você está no mesmo ambiente que eu, sem te olhar um segundo sequer, sem meu olhar procurando conexão e você absorta nas tuas preocupações.

Se eu prometer...

Nunca te ligar quando estiver na fila do Starbucks da Paulista, porque é claro que não senti teu cheiro do nada e me chamuscaram até o espírito as marcas de você. Não dizer que te amo, que você me queima. Porque você não reincinde. Na cama. Na parede. No chão.

2.2.21

Iris

Por ti, eu seria o barro e a expansão, moldando nossos corpos, ascendência e descendência, essência... no toque.

E seria a maçã e o meteoro, a suposta destruição que é também origem de toda nova realidade. A negação da Escritura, a reescritura.

E eu seria a sinuosidade da sedução, o pretexto do convencimento, o vir a conhecer. O olhar do escrutínio refletido do mundo, a mordida da experimentação, a metáfora do saber e o desacordo com a sacra ordem. O desvio.

E, assim, eu seria então os trilhos. Os teus trilhos. Pra ser meio, pra ser caminho, pra ser continuidade. Pra ser direção, mas, principalmente, o que permite ir em frente, irrefreável pelo que quer que seja.

E haveria, então, as paradas, mas eu seguiria. Para você, repousada, seguir também. Comigo.

21.1.21

Coisa de pele

Se quer mesmo saber, teu cheiro ainda está aqui, canta Theodoro Nagô revolvendo lembranças que ainda exalam da pele.

Exalam do ar do apartamento de fundos, exalam do colchão já nostálgico, exalam dos meus poros irreplegíveis. E não falo do cheiro do teu perfume, embora igualmente penetrante, mas da tua pele. Teu cheiro fazendo precipitar no meu palato também o teu gosto.

Me desce queimando a garganta e me preenche, como se de alheio e intruso tivesse então se mesclado, correndo sinapses e riscando a pele por dentro, constitutivo.

Acendo o incenso forte, medito buscando direcionar a mente, o caminho natural e óbvio.

Não hoje.

Hoje me distrai fácil a atmosfera de você.

Consolação - eu, inconsolável

A luz da Lua se apossa do meu quarto como se me convocasse para qualquer coisa longe daqui, das obrigações da realidade.

Olho seu charme minguante, fio de quem se esvai, pairando na direção da Consolação. Olho o relógio da Paulista da minha janela, essa linha reta que leva ao teu bairro e ao mesmo tempo me mostra o quanto conexão é relativo. Olho a Consolação, a mira óbvia, como se isso fosse um tipo de sinal que te materializaria agora, nos meus braços, mãos cravando minha pele, respiração pesada, gemido vacilante, prensando a bunda contra o meu pau dizendo que é minha.

As nuvens desenham finas um chão de deserto no céu. E penso nesses desertos de alma que ficamos nós dois desde que você decidiu que eu te dei um corte, que eu fui embora, que eu não te levei a sério.

As nuvens ralas que não conseguem esconder a Lua são a alegoria da minha paciência. Talvez fosse mais relevante se sequer existisse. Vontade de te sacudir, de te sequestrar, de te botar uma aliança no dedo e te dar meu sobrenome. Filhos com nomes em outras línguas, vidas de origens gritantes se alinhando com a cola do nosso sentimento.

16.1.21

Olhos de tempestade

C - G - Am - F (dedilhado)

Respingos na janela do meu quarto
Chovem seu cheiro, seus ares
E as nuvens carregadas com seus rastros
Mudam meus mares

Danço entre seus raios na cidade
Solista das suas pupilas
Me acham os olhos de tempestade
Devastam minhas vilas

10.1.21

Esquiza

Divisa. Cindida por escolha. Nunca conseguiu ser diagnosticada, nem para isso ela serviu. Era consciente demais para ser capaz de qualquer coisa, e ser feliz e bem recebido no mundo demanda certa dose de ignorância. Mesmo como pária. Até com essa linha ela já nascera cruzada. 

Era insuportável ver o mundo por qualquer lente outra que não a da diplopia. Tamanha conversão tornara sua visão física também assim. Estrábica.

Precisava fantasiar.

Precisava em sua mente trajar os caixas de supermercados de Oompa Loompas e, assim, como aprendeu a criar, aprendeu, do mesmo jeito, a se deleitar com o cotidiano. Com as cenas com que travestia a realidade.

Às vezes se permitia ser envolvida pelo afeto dessas criações. Um afeto que para ela nunca existiu fora de seus devaneios. De nada. De ninguém. De lugar nenhum. De nada adiantavam suas incessantes andanças pelo mundo, nenhum lugar para ela estava lá. Eram todos bolhas de sabão. Por mais que fossem bonitos de admirar por alguns momentos, eram frágeis, fugazes, irreais. Reflexos e refrações. Ilusões.

8.1.21

Amores vêm e vão, você fica

Dez anos atrás, uma versão minha ouvia no talo dia e noite aquele sofrido "Não aprendi dizer adeus", de Leandro e Leonardo.

Eu tinha muitas coisas pra dizer, que viraram livro, que viraram música, e ainda assim foi tudo insuficiente. Até porque, frente a frente, calei. Como calei frente ao teu "E a gente?". Como calei no meu falso - tentativa de superioridade aplacando a vulnerabilidade das coisas que a gente não suporta, sentimento que você bem conhece - "Não somos um casal". 

E teu olhar, me encarando (os olhos profundamente inquiridores de "por que não?", de que tanto falo), me encharcou de perplexidade, batendo a pontada de esperança dos "E se". Eu me odiei por, naquele segundo, desejar.

Eu chorei. Mas não agora. Foi minha outra eu. Chorei sozinha quando podia, em toda oportunidade. Chorei no meio da rua quando era impossível conter. Chorei depois de dar chance a outras pessoas (é possível dar chance real a alguém nessas situações?) e só se avolumar o vazio de você.

1.1.21

Nada

0h18 param fogos e gritos, e aquele Feliz Ano-novo solitário pisca na tela do meu celular. Dias antes, você se oferecera pra me encontrar onde quer que fosse.

Desespero, pensei.

Em parte, por conhecer teus padrões, em parte, por conhecer os meus.

Dizem que a gente reproduz traumas afastando as pessoas como pode e se colocando como inamável.

Mas como pode se sempre busquei o oposto? Fiz caridade. Suportei procedimentos estéticos. Estudei as minúcias de todas as fórmulas do amor com que Leoni e Leo Jaime nunca se depararam.

Sabe Deus o quão fundo tive que enterrar sentimento a sentimento, pessoa a pessoa, a ponto de sequer putrefar, mas se dissolver no calor do centro da Terra. No calor inóspito do centro de mim. A eles sequer foi dada chance de recalque.

Fiz o impossível.