27.12.21

Como Deus planejou

Decoro texto, e o fundo é o álbum da tua banda preferida, como se nossas singularidades pudessem de alguma forma misturar de novo nós dois. 

E me vem teu cheiro, mais por necessidade conjurado do que por acaso acontecido.

Nos corredores do aeroporto. No detector de traços. Na poltrona que não reclina. Nas muitas pessoas que, indiferentes, passam.

O funcionário impaciente que me tira do transe só expõe o fato do quanto você esvazia minha mente de qualquer coisa.

Isso se tornou fácil.

Difícil é qualquer outra coisa conseguir esvaziar minha mente de você.

8.12.21

Superego

Eu te imagino, eu te conserto, eu faço a cena que eu quiser.

A música que irrompe pungente nos arredores me aponta o dedo.

E me traz tudo o que há muito pulsa sob o tapete.

A hesitação do desejo. Não do desejo em si, pois ele é sempre faceiro, íntegro, escorreito. Mas hesitação dada pelos seus diversos figurinos. Os julgamentos. A antecipação de impossibilidades. A guarda engatilhada da recusa.

Fica a ambivalência.

A espera da concretude dada por qualquer força esotérica que de súbito me resgate.

Mas a verdade é que nada pode ser real até você permitir que seja.

3.12.21

Ego

Dia de semana, espera em cafeterias refinadas e a sensação tranquilizadora de controle por afastar os resquícios de você.

Movediça.

Toda essa estrutura que se diz racional e censora é nada mais que isto: mecanismo de defesa.

Racionalização do que não pode ter razão, pois lhe é desconhecida.

E sempre é preciso impedir-se de descobrir o quanto se apassiva por vontade.