3.12.21

Ego

Dia de semana, espera em cafeterias refinadas e a sensação tranquilizadora de controle por afastar os resquícios de você.

Movediça.

Toda essa estrutura que se diz racional e censora é nada mais que isto: mecanismo de defesa.

Racionalização do que não pode ter razão, pois lhe é desconhecida.

E sempre é preciso impedir-se de descobrir o quanto se apassiva por vontade.

Com os gurus que prometem o controle do mundo... pelo controle da mente. Esse sempre - e necessário - inescrutável.

Brincando de marionete consigo mesmo. Com o que força chamar de realidade. Dentro e fora.

Mediada no corpo - o palimpsesto de todas as paixões que contra ele atentaram.

E se fosse o inconsciente só mais uma forma de expurgarmos a responsabilidade?*

De todas essas instituições que criamos para nos enganar, seria mais fácil encontrar abrigo na mais incômoda de todas, porque assim podemos julgá-la: desconforto, nunca desejado.

Ora, não é isso o que buscamos?

A dita realidade, até ela, é estrutura de engano. Falácia. Defesa. O pathos em que o prazer e a doença, livres, dão-se as mãos. Se permitem ser o mesmo.

Mexo o café, está mais amargo do que de costume. É claro, me evita assim sentir o amargor das ausências tuas.


*O trauma por antonomásia, pecado original da própria existência.

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