4.12.22

Who can bring me back to you?

Ouvindo The Calling hoje, fui pensar na letra, que não reparava muito desde a adolescência.

Mesmo carreira solo - gostando disso -, às vezes surge alguém, vez ou outra. E dessa vez, depois de um hiato de muitos, muitos anos, foi você.

É bom me saber solta pra ir até uma praia deserta a 200km da minha casa caminhar às 4h em um dia de semana, "do nada". Mas às vezes, só às vezes, eu queria ir "wherever you will go", ser sua, não só minha. E ter os seus planos também pra me preocupar. Gostar do meu caminho, mas querer, por simples opção, seguir o teu contigo.

25.11.22

Eu, um obsessivo. Então você

Chove, é claro.

Porque nos dias de atividade interna mais nebulosa sempre parece que nada mais cabe no corpo e precisa começar a se materializar em tudo em volta. E foi assim que comecei a me debater pra fugir dessas cordas.

A mulher que me aparece do nada repartindo o cabelo pro mesmo lado que você. Ou a que passou e deixou no ar o cheiro da sua pele. Alguém que esbarra em mim na rua, teu nome num panfleto, uma placa de trânsito. Um amigo que faz o mesmo tipo de piada bosta que você faria. Uma música que tem tudo a ver com teus trejeitos caricatos, mesmo quando está séria (talvez até mais caricato quando está séria).

Então tudo em volta é você, mas nada é de fato.

Você se mostra tão fácil e de bandeja pra mim. E eu, sem saber se é um padrão, um truque, um lampejo ou se sou só mais um de seus tantos personagens, me pergunto: o que você quer de mim?

20.11.22

Que importa você?

Eu vou continuar tomando o café forte amargo às 5h32, enquanto vejo da janela de andar alto a cidade mole nascer

Dedilhando escalas menores como se toda uma vida se resumisse a isso*

Tendo horário e ritual pra tudo, a ordem cotidiana: as posições de yoga cronometradas, os polichinelos em jejum, o banho frio de oito minutos, o suco verde com própolis 

E então a minha verdade destrutiva: o incenso forte, as luzes psicodélicas, o Lucky Strike matinal com Coca-Cola ouvindo Zé Ramalho

Que importa você?

Fuck it

Nunca achei injusta sua dúvida

Afinal, eis minha existência sempre escusada, absorta nos meus infindáveis compromissos

Preferi assumir o tom leviano nas minhas insinuações rasgadas

Era mais fácil


Mas sempre fui partidária da ideia - bem tóxica, aliás, tal qual nós dois - de que onde tem sentimento a educação e o bom senso não conseguem muito dar as caras

É bom sentir saudade

É bom sentir saudade.

Pular no colo no aeroporto, clima quente mesmo no inverno, beijo com o gosto do alívio das chegadas e o sal do choro de despedida.

Porque é bom sentir saudade, apertar distâncias, apartar intenções, mas me aportar em você como se nunca tivéssemos ido. (Fomos?) Saber que me são abrigo os olhos profundamente inquiridores de "por que não?".

Broken strings

A água escaldante que corre pelo corpo hoje não me lava de mim.

Me afundar em trabalho, as incontáveis horas fugindo em afazeres completamente inúteis, dando a eles grande importância. Para não pensar.

Mas a ventania assobiando na mínima fresta das janelas debocha dessa impossibilidade de se trancar. De fato. Blindagem ingênua de inconsciente. Lutar para não sentir.

Que isolamento real, mesmo pras mentes mais treinadas na indiferença, como as nossas, impede de fato qualquer coisa após o virar de chaves? Permissão um tanto inconsequente. Presunção ou inocência de quem acha que está a salvo?

Notação

Por que a gente precisa de tanta coragem pra coisas tão simples? Mandar uma mensagem. Dar um oi. Dizer que faz falta.

Foi num desses questionamentos de uma quase madrugada mas já certamente insone que te liguei. Sim, ligação, esse tão invasivo-ultrajante dos nossos tempos. 23h de uma terça-feira véspera de feriado. Cerimônia, nenhuma; noção, menos.


Mas foram inúmeras quartas injustas desde então e eu pensava na coragem. E no porquê doses tão exacerbadas dela são necessárias pra coisas tão pequenas perto do tanto que guardam. E, mais ainda, por que colocamos tantas barreiras pra essas ninharias.


Questionar se é só uma ilusão, que eu nunca vou lidar bem com suas cenas e excessos, que sequer de mulher você gosta e tudo isso é insustentável, como deve ser, e que é por isso, só por isso, que tanto queimo e sinto.

15.7.22

Marcas Mortas (Doce e Sacramente Fincadas)

"A verdade é que eu minto, que eu vivo sozinha, não sei te esquecer."

Quantas e quantas incontáveis vezes te pensei/escrevi/dediquei essa música, em particular esse trecho, pelo tanto que ele fala desse sentimento com que a gente precisa se acostumar, mas que não há mordaça no cotidiano que o cale?

Um texto é só um texto. Ainda que inspirado pelo cotidiano, é preciso separar os nossos sentimentos (e desejos, principalmente) de leitor das estruturas tão lógico-racionais que frias e calculadas ali se apresentam.

Mas se essa é justo uma das nossas conversas de alma, nunca seria só um texto. Principalmente se você sabe o poder que tem de revolver tudo que eu sou. Sim, meu muro existencial intransponível desde sempre, tão aberto-claro-dado pra você.

Então pensei em lhe falar. Dizer o quanto eu queria não saber. Não ter lido. O quanto em muitos dias eu evito te ler. Porque há muitos dias em que eu PRECISO evitar te ler. Fui tomar banho como se a água escaldante pudesse evaporar a vontade, como se a conversão no vermelho da pele pudesse materializar e então sanar a merda dos sentimentos não ditos. Falar o quanto é cretino isso tudo - sim, por sua culpa. Falar o quanto você elabora boas metáforas. Falar o quanto eu continuo, anos, milhas e vidas depois, queimando você.

Mas adianta? O que eu teria de você seria um dos dois de sempre: a não resposta ou a piada evasiva e fugidia. Sim, eu desisti de perseguir os rastros, porque já os conheço e antecipo.

20.6.22

Você é viado, Gabriel

Sua mãe na sala, sem saber que eu estava logo atrás da outra porta, gritando contigo que a nossa situação era inadmissível. O que você tem na cabeça, meu filho??? Que porra você tá fazendo com uma mulher? Você é viado, Gabriel.

Queimava, doía, mas foi impossível não rir desse sempre tragicômico de nós dois. O que te aplacou foi ela dizer que era gritante o quanto eu estava apaixonada por você. Você teve aquela quebra de quarta parede: "Você acha mesmo?".

Quantos sentimentos misturados. Péssimo, mas fofo.

Então você voltou ao tópico após aquela digressão, puto da vida, mas não durou muito, saiu rebocando tudo à frente. Veio falar comigo naquele pico de fúria.

Eu comecei séria, claro, por todas as nossas questões, mas não demorou muito pra que os gritos da sua mãe me viessem à cabeça. Você, puto ao me ver prendendo o riso, perguntando o que era agora, qual era a graça, se eu só tinha parado de prestar atenção e estava divagando, olhei no fundo dos seus olhos - olhos atrevidos - e só consegui reproduzir: você é viado, Gabriel.

Você, quatro letras

Eu não devia ter vindo. Penso, repenso, o pensamento dança Ragatanga na minha cabeça.

Te vi ali, gestos espalhafatosos tão seus e ao mesmo tempo tão irreveláveis do verdadeiro você. Paralisei. De novo. Como em vezes tantas em que te vi do outro lado de um desses incontáveis muros entre nós. Na porta do bar. Na saída do trem. Na catraca do show. Agora, na recepção da festa, reteso. Não, eu não consigo. Como de todas as outras vezes, me viro. Vou embora, decido. Que grande erro achar boa ideia vir a um evento em que eu sabia que te encontraria.

Mas dessa vez é diferente.

Porque você me vê e me chama. Ainda de costas, respiro fundo, visto o sorriso mais simpático-indiferente que consigo - mesmo ruindo tudo por dentro pelo imutável impacto de você - e me viro, te encaro nos olhos. Como é difícil ostentar olhos de colegagem na conexão com aquele por quem tanto se sentiu (passado?). Faço o social mais rápido da história, jogo no ar a piada mais superficial-chocante que consigo pra me desvencilhar o quanto antes nos segundos entre risos duvidosos e olhares nervosos. Consigo me refugiar um pouco nos fundos, na vista pro Corcovado, tentando me recompor só o suficiente pra conseguir te falar palavras vazias de sábado à noite e poder ir embora. Meu amigo cutuca que continuo não conseguindo disfarçar quando se trata de você, que era um milagre eu estar em pé no nada módico salto de 18cm com a cara de completamente derretida que eu estava. É, eu também não sabia como eu tava sustentando.

Um segundo, um único segundo em que ele sai pra encher uma "tapaué" pro café da manhã de domingo, você me aparece, sorriso torto e as muitas sardas, tão típicas. Muito mais na pálpebra esquerda do que na direita. Me ocorre aquele primeiro pensamento que tive quando nos conhecemos, no primeiro bom-dia (hífen, claro). Você me diz que estava me caçando desde que desapareci à la Carmen Sandiego, disseram que "a moça bonita de preto foi por ali". Bonita, você só fica mais bonita.

Abro a boca caçando no ar qualquer coisa pra te responder, mas nada me vem. É você, afinal, bem na minha frente, a aura mista inocente-sacana que sempre me fodeu o juízo, o exato cheiro dos cabelos me enchendo até as veias. Foi inevitável pensar, você me diz, se fôssemos nossos os braços dados na entrada, chegando assim no evento, nos fazendo um ao outro, como casal que s/fomos (foi impossível distinguir o fonema na sua dicção de carioquês carregadíssimo, e talvez não fosse mesmo pra ser distinguível). Você diz que não devia, mas está bêbado demais pra segurar qualquer coisa depois de tanto tempo. Te conhecendo, sei que esse bêbado demais decorre de uns' meio copo de cerveja.

Você ri.

Eu não quero pensar em como seria, te respondo, mas é um pedido que lhe chego a implorar. Você prende os lábios daquele jeito que me desmonta - puta merda -, como se eu tivesse te dado um corte.  Respiro fundo como se isso fosse me trazer força, coragem, qualquer coisa, qualquer coisa, meu deus, e te digo. Entenda, foi difícil demais PARAR de pensar em como seria, é só por isso que não quero nem posso fantasiar de novo. Esse terreno - você - pra mim nunca foi nada seguro. As sardas da sobrancelha esquerda são meu fatídico algoz de sempre.

Então você coloca a mão na minha cintura, e eu sou tua.

É impossível segurar qualquer coisa depois disso, pose, personagem, questionamentos sobre os depois, estarmos em público, sequer sermos solteiros. Sou tua, apenas. Não sou tua de novo, porque nesse hiato fato é que tua nunca deixei de ser. Sou tua porque desde o início assim percebi inerente. E tuas mãos em mim são mera constatação. Tua boca, todas as minhas confissões, todas elas. Afinal, não foram assim que elas começaram? Sardas de entrega, lábios de marcação desse território que é teu, nosso reconhecimento de sempre. Não dá pra pensar em contexto e consequências, é impossível, só existe Você.

O beijo preferido e a paz inigualável de me desaguar de novo, e de novo, e de novo em nós dois.

15.5.22

Quando ele me disse que era triste

Tristeza faz dormir, todos os estudos em suas estatísticas dizem. Mas como tudo em seu excesso, o fogo que em frio arrepia, o gelo que queima e lacera a pele, aquilo o mantinha acordado.

5h35, sabia, era o mesmo horário de todos os dias, como um despertar obrigatório natural. Tateou qualquer coisa que lhe desse sentido. Os óculos. Uma partitura inacabada. Uma história a ser construída.

Não era tristeza exatamente, era pior. Era infelicidade. Não era pois um sentimento por si, uma presença. Mas a ausência total de qualquer gota de motivo. Então ela.

Ela era aquele ponto de luz em tudo o que tocava. Era o amanhecer quente, o café forte, perceber que conseguiu pegar o vagão mais vazio, ver os compromissos cumpridos, realizar-descansar-estar em paz. Toda sua fonte de magia.

E ela sabia, era notório. Mas antes de tão abertamente ele lhe falar, ela podia fingir que eram só ideias de anulação tentando atrapalhar os dois. Podia fingir o que quisesse. Até que ele lhe contou. Falou-lhe da profunda infelicidade existencial que sentia. Falou do quanto os sentimentos escuros sequer podiam ser chamados de patológicos, pois patologia é o que se acomete, mas o que lhe dá forma, e o faz o que é, é essência. Aquilo era ele, mas ela.

13.5.22

O dia que ele me disse não

Aquela primeira vez que te fiz um pedido.


Um pedido de fato, por necessidade, daqueles que são quase súplica.


A gente se odiava, lembra? Então o total deboche do destino. Era o único lugar vago no metrô lotado, o sorriso sem graça do clima merda. Eu só queria chegar rápido e me livrar de ter que estar ali do seu lado. Só seis estações, só cinco estações, só quatro estações, eu me dizia. A pane que nos prendeu numa socialização obrigatória de mais de uma hora.

22.4.22

Quando ele me pediu um texto feliz

Aquela primeira vez que te mostrei meus textos.

Estes textos, quando te fiz personagem. Eu estava deitada no seu colo, enviesada no seu carro, a gente tava tão sugado de tudo, que só estava ali parado meio bobos, criando forças pra catar algum lugar aberto pra comer.

Eu puxei meu caderno, era ali que te escrevia, muita coisa saía durante e logo depois das suas aulas, poetizações misturadas com escalas jônicas, sustenidos fazendo as vezes de coraçõezinhos apaixonados. E então era uma piada sem a mínima graça, uma sobrancelha sisuda do nada, um trejeito mais exagerado do que o momento pedia, e toda a poesia que é você virava texto como que se precipitando sozinha do ar naquelas linhas.

Quando eu soube que você viraria personagem?!, te respondi, ainda no seu colo. Seu nome escrito no quadro, até ele acidente, mesmo em enarmonia. E aquilo era tão você, que quase me implorava a narrativa. Eram muitos, muitos textos, mesmo ainda àquela época, em que indômitos nos desbravávamos, mas todos pedaços jogados sem um destino. Eu estava seca demais pra amarrar "o pianista" - o personagem -, e você ria dizendo que isso já tinha percebido, como se eu falasse do nós dois reais, ali embevecidos um no outro.

14.4.22

Esconderijos

Acontecia às vezes de descobrirem a gente. O olhar de cumplicidade ou demorado demais ou babado além da conta. Alguma piada-referência que nos entregava. O tanto que a gente se falava só de olhar, tocar, só de estar perto, aliás, sem nem precisar cruzar olhares pra ter aquela telepatia.

Roupa igual sem combinar, bordões que você roubou de mim, trejeitos seus que assimilei (a maldita risada esquisita de nervoso... eu ainda detesto você por isso). Reações gêmeas por simples sintonia.

A gente só tentou negar uma vez, e a crise de riso que tivemos foi pior do que se tivéssemos escrachado qualquer coisa. "Ainda dá pra negar?", falei do alto de toda minha dissimulação, depois de você ter até saído de perto, vermelho. Foi aí que vimos que era impossível. Se soubessem, que assim fosse. Se falassem, que assim fosse.

Não havia grandes atentados que pudessem cometer contra nós além de fofoca, pensávamos. Acontece que amar nos deixou inocentes. Maldade alheia é invasiva, mais ainda quando se baixa a guarda por se achar indestrutível.

E era assim que aquele amor nos parecia.

É claro que eu queria não ter te amado. Amar é sempre a escolha mais difícil. Mas dava?

Insígnia de Ar

Lembro bem, claro que lembro. Foi esta a primeira imagem que tive de você: você ignorando a partitura que te entreguei, transpondo de ouvido na hora a música pro tom em que eu estava de fato cantando.

Meses depois, você fazendo arranjo no piano a partir de qualquer som, começando a tocar junto com uma música, qualquer música, que você nunca tinha ouvido antes, sugado da realidade, ali imerso.

Ouvido absoluto e problemas varridos pra baixo do tapete no excesso de trabalho.

Sim, eu lembro bem.

Você dizendo o quanto é difícil ser geminiano com lua em Virgem, louco e metódico, bicho solto e cheio de paranoias. E foi ali, nas tuas gesticulações exageradas, que eu soube que tava fodida. Que o encantamento, a admiração, a graça além da conta que eu achava nas tuas piadas, gostar demais de estudar história da bossa-nova e fórmula de compasso às 8h eram só os efeitos colaterais de você.

13.4.22

Gemido em Fá sustenido

Foram vários momentos de quase, em que se a gente tivesse ignorado a razão por um segundo, só por um segundo, teríamos nos feito um ao outro muito antes de quando aconteceu.

O dia na coxia, que você fugiu do fosso do teatro e me achou, figurino pela metade, meio Valentina meio personagem, pulei no seu colo porque era como se nem houvesse outra opção, e demos aquele beijo que deveria figurar em proscênio sobre a ribalta, mas só nós dois sabíamos o quanto isso não nos era permitido.

O que deveria ser um "rápido antes que alguém chegue" me jogou em um estiramento de tempo tão grande, que seria difícil até perceber se nos conclamasse o terceiro sinal.

12.4.22

G de Sol

G de garbo, com todo o contraste da polissemia. A elegância ostentada em café, echarpe, óculos escuros e piano, e a total falta de mesuras me jogando nua no chão da sala.

E G do gemido, claro. Aquela coisa tão tua de ter em um mesmo a delicadeza e a barbárie, o som da entrega a que faltam uns comas pra atingir um Fá sustenido - isso você que me diz -, sensível pedindo resolução de tônica.

Sobre ódio

Foram muitas histórias que vivemos naquele curto espaço de tempo. Não digo curto pelos meses em si, mas pelos nossos excessos um com o outro. E, dessas histórias, só nós dois as sabemos de fato. Só nós dois sabemos o quanto muitas delas se tornaram decoração compulsória do nosso cotidiano.

Mas teve um momento em particular que nunca parou de me ser uma tormenta. Aquele dia pós-término, a incredulidade na voz, agudizada demais pro teu padrão de barítono, dizendo o quanto era inaceitável, depois de tudo, eu escolher acreditar nas minhas inverdades, cunhadas simplesmente para nos negar. Você estava certo e eu, errada.

Vivi umas doze vidas naquela esquina enquanto esperava o Uber. Cogitava ir ou não lhe falar. O bom senso me paralisava, enquanto a batalha de sentimentos me forçava a me enlaçar de novo em você. O cabo de guerra foi rompido quando senti o choro me descer invertido, salgando a garganta.

Fui e voltei incontáveis literais vezes. Então subi as escadas, tropeçando nos degraus (e queria que isso não tivesse sido também literal), e te vi, o Uber esperando irritado, te olhei e te disse que apesar de tudo o que nos tinha acontecido - nós dois, apenas por o sermos, tínhamos despertado toda sorte de sentimento merda ao redor, raiva inveja mágoas frustrações transferências preconceitos principalmente -, mas o pior de tudo, eu te disse, era nós dois não sermos mais um nós dois, todo o resto parecia piada perto disso.

Você nada disse, virou-me as costas, saiu rebocando o que estivesse na frente. E é claro que entendi que o ódio que te incinerava era o ódio que só sente quem já amou em igual medida.

11.4.22

Camisa preta

Atravesso a rua, buscando o bar em que combinamos. Bar de blues, dou um sorrisinho. Você não tinha especificado, só tinha dito que seria a minha cara. Sim, você acertou, tive logo aquela identificação quando bati o olho, e já sabia que era ali antes de buscar o número na avenida imensa.

Não precisaria, também, te vejo sentado empunhando Hobsbawn. A cena deslocada do padrão dessa realidade de sextas à noite me causa aquela satisfação a nível de alma. Ainda bem que eu vim, penso, algo bem diferente de tudo o que vinha pensando nas minhas últimas saídas.

Sabe que eu tenho essa coleção lá em casa, mas nunca terminei?, é o boa-noite que te dou, você elogia minha roupa. Omito que pensei por três dias nela, precisava chegar à altura da sua marca registrada de nunca repetir a echarpe. E sempre a combinar com as meias. Mesmo que elas sequer apareçam.

Elogio tua escolha clássica e a camisa preta. No dia que nos conhecemos, você estava com ela. Sim, eu lembro. Glenfiddich, claro, posso endossar mais o estereótipo do que sou? Você me acompanha e não me dá brecha para o início fático da conversa, já coloca as cartas na mesa.

Enarmonia de acidente

No início, a inevitabilidade e a improbabilidade se deram as mãos. Minha inevitabilidade de te amar, tuas manias esquisitas, a hipocondria espalhafatosa, as piadas feitas de cara fechada, a mordida salafrária de lábio, os temas dramáticos no piano.

A improbabilidade total de você sequer me olhar desse jeito, universo oposto àquelas lutas que só você sabe como foi travar pra ser quem é. E, no entanto, tudo partiu de você.

A cantada infame no metrô, o convite - mais infame ainda - dissimulado pra uma saída como se fosse natural.

Nós dois, aparente antinaturalidade.

Te amar foi isso, acidente, desvio do esperado.

Do cumprimento grosseiro sem querer quando nos conhecemos até a forma como eu disse pela primeira vez que te amava.

2.4.22

Com tato

Sabe deus quantas vezes digitei e apaguei quantas mensagens. O cumprimento neutro, a preocupação, os assuntos frívolos, os compromissos cotidianos: tudo é sempre uma versão do mesmo. A tentativa urgente e necessária de, da forma possível-acessível no momento, de novo te tocar. 

Do tão discreto "Você tá bem?" ao rasgado irrepresável "Eu sou louca por você", todos são sempre um novo tipo de atalho que não paro de criar pra te ter comigo.

A música que alguma frequência captou aqui em casa esgarça ainda mais essa linha do sentimento que me costura o peito: "Te quero na cama, sem roupa, sem drama".

Eu te quero assim, mas se fosse só assim seria fácil. Porque eu também quero fora da cama, com roupa de casal combinando, com a tua roupa em que cabem três eus, você com a minha.

Rotina... acidental

10h, meu despertador toca me avisando de algum compromisso fixo, você acordaria pra fazer o café pra nós dois. Então percebo que até agora não o tomei, como se hoje, mais uma vez, você fosse se materializar mole de sono do quarto, óculos embaçados e roupas amassadas.

O que foi mais estranho não foi você estar aqui, mas justamente a naturalidade disso. Te ver encher a garrafa de água, reorganizar os frascos de shampoo e remexer suas coisas como se fosse normal. Pegando qualquer coisa na geladeira falando sobre o quanto vive puto, cabelos presos e ares de rotina. Banalidades que sempre fizeram parte dos meus desejos e que pareciam tão distantes que mal se davam forma. Deveriam ser estranhas por si, mas de repente só pareceu estranho qualquer coisa que fosse diferente disso. Um segundo, e você do meu lado como se ali sempre tivesse estado. Talvez pelo tanto que te refiz com estes pensamentos, te ensaboar o corpo, te trançar os cabelos, te olhar sonolento.

Meses atrás, um amigo em comum me disse que queria me ver apaixonada. "Mais de cinco anos pelo Fulano não conta?" Ele me disse que não, porque queria me ver na fase aguda da paixão, e neste caso já tinha virado crônico.

Concordei, era assim que eu me sentia. Acostumada. Como um pavimento tão bem fundido que mesmo presente se para de sentir. Apenas está ali, não se pensa, não se percebe. É integrante do cenário.

Era óbvio que eu não ficaria ilesa, mas achava que seria uma sujeirinha de dois/três dias ouvindo a mesma música em looping, uma cosquinha que eu resolveria comigo mesma em bons parágrafos ou, no máximo, quebrando o compromisso pessoal na garrafa de cîroc.

Achava que o primeiro trabalho mais interessante espantaria de mim você para longe, guardado aí em todos esses km em que você de fato está. O primeiro livro de temática que me prendesse, a primeira aula que me desafiasse, o primeiro amigo que me chamasse pra dançar, o primeiro show de um dos artistas que falam com a minha alma.

Claro que não.

27.3.22

Estada

Olho a caixinha de música agora vazia, sons intermitentes. Assim, sem Elizabeth em seus gracejos, nada mais me toca.

Há muitos sons sequenciados, não há mais música. Há muitas informações ao redor, nenhuma mensagem. Não há mais conforto na temperatura da água, não há mais graça em ser pego em flagrante nos meus percalços.

De repente os móveis, as paredes, aquele sótão mal visitado, a gaita então inanimada no canto. Tudo eram só objetos, esvaziados de suas intenções.

Partida?

Então Elizabeth se aproximou, e seu toque me tirou ou colocou em qualquer transe. Nunca é possível saber se inebriar-se é alteração ou revelação.

Me fez engoli-la, me fez sorvê-la. Se apossou de mim em todos os seus efeitos. Não os recusei, pelo contrário.

Mas, como em todas as vezes - nossa única constância -, ela precisava ir. Apartar-nos novamente, o vidro mais grosso e capaz de distorcer a cada adeus.

Consolidação

Eu a observava ali, a bailarina errante da caixinha de música, variando movimentos a cada nova melodia. Não podia ter pra si definição, embora bem se soubesse e se dominasse mesmo nos sótãos sempre mal visitados.

Sabia se fundir ao que quer que fosse. Às melodias, principalmente. Era assim que tudo a seu redor lhe parecia. E, em seu constante processo de recolhimento-expansão, descobria o quanto de si a si permitia abandonar.

Rasgava-se frívola, como se seus derramamentos de repente revelados fossem banais. Testes à recepção alheia. Então se calava, como se precisasse aguardar repercussão.

Reconhecimento

Então arrumou os cabelos - deixando mais bagunçado do que antes -, sentou-se no sofá de antiquário, pegou a gaita como se naquele ambiente tudo se integrasse: ela, ali pertencente. E me tocou suas composições.

Melodias que, em suas pausas cadenciadas de figuras rítmicas complexas, a cada vez tocadas eram uma versão diferente delas mesmas. Cada uma, nesse etéreo subjetivo dos sons poucos delimitados, contava uma história particular.

Nenhuma nunca tinha sido terminada. Eram devaneios materializados em seus sopros na gaita.

Chegada

Foi como a conheci. Por trás daquele muro de vidro. Tocava a gaita cromática e tudo o que eu fazia era a sentir. O som não me chegava assim, da forma original, mas como a sensação reverberada por aquele escudo vítreo que nos apartava.

Ondas físicas, impressões de um som. Nunca ele mesmo.

Então um dia, como que presenteado pelo acaso, ela estava aqui, desse lado, do meu lado. Recostada no muro de vidro. Me inquirindo aqueles seus olhos de vírgula.

18.3.22

Cassino

Foi assim.

Num bar de fim de tarde sentada sozinha com seu gin e alguma mistura exótica na mão, vendo aquele Tinder presencial se desenrolar na sua frente.

O homem de terno e coque que ponderava se galanteava alguém pagando uma bebida o mais barata possível que ainda impressionasse. O homem não tinha nada a ver com ele, não fossem a gravata verde e o coque.

Elementos objetivos, assim como tudo a respeito dele, o que ela chamava por "combo do apelo". Motivos tão óbvios, que seria fácil demais se escusar ali em qualquer um deles, em todos eles: ele fazia o tipo, ele era mais um dentro do padrão, ele representava universos importantes pra ela. E, no entanto, claro que não, não foi por nenhum desses objetivos que ele ficou.

All about us

All about us tocou presciente no seu carro nessa hora.

Eu olhava pra frente, as árvores enfileiradas no cenário de maquete. A simetria da beleza estática parecia um deboche às impossibilidades que pesavam o ar dentro de nós.

Você não tem medo?, você me insistia.

Só podia ser piada. Depois de todo esse tempo? De tudo??

Nunca houve essas tais questões objetivas que você insiste em alegar. Pra si mesma. A troco de quê? Sabe o que é pior nisso tudo? Não é pensar em quanto, no tanto, tudo podia ser diferente, composições compartilhadas com você no meu colo me cantando melodias desafinadas.

22.2.22

Volições de Colombina

Era ela quem trazia o mar na boca 
de vontades confessas, mas ocultas
encantos em contos que não assina 
pois ter único papel é raso e pouco 
quando se é meio Pierrete
e também meio Arlequina 

20.2.22

Domingo

Eu duvidei até o último momento, mesmo com os vídeos que me mandou no meio do caminho e com a localização em tempo real a 12km de altitude.

Depois de tantos meses, e, pela primeira vez, um ano inteiro sem nenhuma reincidência, Elizabeth tinha se tornado uma miragem.

Minhas mãos suavam no volante quando cheguei a Congonhas.

Elizabeth tinha passado uma temporada fazendo não sei o quê em não sei onde e agora voltava, mas o cheiro de casa quem sentia era eu.

19.2.22

Sábado

Desde quando conheci Elizabeth, eu já sabia que o fim se prenunciava. Havia pessoas, havia rotinas, mas principalmente havia uma propensão bilateral à esquiva.

Ir embora era questão de tempo.

Eu só não esperava que sequer fosse ter tempo de lidar com o fato antes de consumado. E foi assim que tive que assimilar a partida dela. Sozinho. Em um quarto de hotel.

Era sábado, e talvez o caminhar literal pelas ruas lotadas do bater ponto da felicidade me tirasse daquele remoer em círculos.

Beijos escandalosos, sorrisos bêbados e olhares vidrados. Gargalos necessários do cotidiano. O brinde à analgesia da vida real. Não sua celebração, pelo contrário, sua total recusa.

Procuro um lugar, qualquer lugar, que me tire dela, de mim. No qual também eu consiga uma dose eficaz de fantasia.

18.2.22

Sexta-feira

Sexta-feira, e eu ficando no escritório mais do que deveria não é novidade. A minha sala é o único ponto de luz na escuridão das pessoas que já correram para seus finais de semana.

No mar do breu, alguém bate à minha porta.

Elizabeth. Elizabeth?!

Trazia um fardo de Dunkel, uma referência a todos aqueles nossos momentos regados à cerveja preferida dela.

Vinha diferente. O humor como uma roupa que escolhia de forma leviana do armário. Eu, um mero espectador de seus artifícios.

17.2.22

Quinta-feira

Acordo antes do despertador, o senso de responsabilidade me chama. Só lembro que é feriado depois do banho, as rugas recém-surgidas que me encaram diante do espelho me forçam goela abaixo reflexões bélicas.

Me pergunto, eu, mais um de tantos, o quanto compactuo com a ânsia pelo tal propósito. E rio sozinho vendo o quanto, na tentativa vã de individualidade, sou só mais uma esponja da massa. Desejos iguais e olheiras mais fundas.

A realização é dada, não fossem as costas que viramos para ela, e ainda é preciso sorver o lirismo do cotidiano - todo o lirismo possível, aliás.

E, hoje, para mim era fácil. O Vivaldi que algum vizinho resolveu colocar em vez do sertacorno costumeiro. O pássaro que cruza as nuvens na vista indevassável do apartamento de andar alto. Virar a omelete inteira. O cheiro do café forte preenchendo a casa.

16.2.22

Quarta-feira

Eu nunca imaginei uma versão dos fatos de nós dois em que Elizabeth se despiria para mim. Displicentemente, como quem entra no chuveiro de casa.

Que tirasse as piadas, os vieses, os tangenciamentos e apenas se mostrasse, ali, em sua natureza.

Mas eis que houve um dia, um dia muito particular. Era quarta-feira, dia em que a urgência da semana se estabiliza, e os afazeres se encaminham quase que sozinhos.

Quarta é um dia traiçoeiro, a amostra de calmaria nos coloca em contato com nós mesmos, e não é sempre que estamos disponíveis para esse tipo de escrutínio.

15.2.22

Terça-feira

Elizabeth e eu nunca trocamos contato.

Pode ser estranho pensar em como a gente se achou depois em uma cidade grande, morando cada um de lado, nada em comum na rotina.

Mas, como a própria diz, se não fosse estranho não seríamos nós, então todas as estranhezas eram nossa única realidade possível.

Fui jogar boliche com um cliente, sorriso social e técnica nenhuma, eu detestava. 

Na saída, puto pelo contrato não fechado e o cheiro de cigarro na roupa em vão, a amassada na lateral do meu carro que algum descompensado deu, ela.

Elizabeth, o patchwork de conflitos que passou a apaziguar minhas guerras e que facilmente realinharia os chakras do mundo.

14.2.22

Segunda-feira

Era segunda-feira, com toda a urgência de começo de semana. Um corretor de imóveis insistente no telefone, um ambulante que tenta me vender a novidade do século, um assovio do outro lado da rua.

Afazeres se empurrando como se minha mente fosse um metrô lotado.

Ignoro os ruídos divergentes para não enlouquecer, só por agora, tentando conquistar pelo menos dez minutos de sanidade.

O café ao virar da esquina, luzes baixas e decoração cafona, parece conseguir abrigar meu escoamento mental desses excessos.

Então a vejo.

2.2.22

Still loving you?

A banda tocava uma versão um tanto revoltada da balada romântica famosa, provável inspiração na releitura de Sonata Arctica. E esse tom falava muito mais com ela hoje do que a original. 

É claro que ela não "estaria lá", nunca fora dada a isso, não seria agora que o cenário seria diferente. Mas nem por isso deixava de haver uma peculiaridade ali.

Contra todas as probabilidades, ela sentia. Houve mais de um desses momentos de constatação, um tom um tanto adolescente com que falara consigo mesma: "É, eu gosto dele".

Mas era uma sujeirinha, e, naquele mar de aberrações que era sua vida, isso nunca seria nada. Só mais um ponto. Um pequeno ponto em meio a tantas coisas, tão maiores e mais invasivas, que logo se tornaria mais uma das suas tantas indiferenças.

Então como uma profecia autorrealizável, o único bar do tema na cidade pequena, em um manifesto sábado à noite pós-semana de feriado, foi brindada com mais do óbvio. A imagem dele surgindo na sua frente.

21.1.22

Olhos de vírgula

Toca I don't wanna give somebody else the better part of me, e você me abraça. A meia-luz recorta os traços do seu rosto e mistura o reflexo da minha sombra me desenhando em você.

A gente se embala quase sem perceber em um ritmo outro, desses mundos paralelos recriados na nossa presença.

Você encosta sua testa na minha, seu cheiro já está tão dentro de mim que te sinto o gosto. Os lábios, a língua, os dentes.

Você para e me olha.

Teus olhos me derramam todas as palavras um dia lexicalizadas. Línguas catalogadas, universos inexplorados.

E então eu sei. Olhos de vírgula.

13.1.22

Malditas Memórias

Hoje, uma dessas tardes em que vagar se torna um comigo, parei no primeiro bar que achei nos arredores, para pegar uma água e lavar as mãos, o novo habitual dos nossos tempos.

Só me dei conta quando me encarei no espelho.

Vila Madalena.

Com a infinidade de bares, por qual truque mental vim parar logo nesse?

Um ano e meio atrás, naquela última mesa, bem na minha reta agora, uma versão mais antiga de nós dois remendava nossas feridas emocionais na base da cerveja.

Eu, um tanto ausente por remoer a dualidade "quero/devo" e os resquícios do resfriado que me arriara os dois dias anteriores na cama. Nem os óculos eu tinha lavado, e sabia que você reclamaria disso.

Você agradecendo minha presença. Dizendo que precisava me ver, porque eu estar ali te curava.