21.1.22

Olhos de vírgula

Toca I don't wanna give somebody else the better part of me, e você me abraça. A meia-luz recorta os traços do seu rosto e mistura o reflexo da minha sombra me desenhando em você.

A gente se embala quase sem perceber em um ritmo outro, desses mundos paralelos recriados na nossa presença.

Você encosta sua testa na minha, seu cheiro já está tão dentro de mim que te sinto o gosto. Os lábios, a língua, os dentes.

Você para e me olha.

Teus olhos me derramam todas as palavras um dia lexicalizadas. Línguas catalogadas, universos inexplorados.

E então eu sei. Olhos de vírgula.

13.1.22

Malditas Memórias

Hoje, uma dessas tardes em que vagar se torna um comigo, parei no primeiro bar que achei nos arredores, para pegar uma água e lavar as mãos, o novo habitual dos nossos tempos.

Só me dei conta quando me encarei no espelho.

Vila Madalena.

Com a infinidade de bares, por qual truque mental vim parar logo nesse?

Um ano e meio atrás, naquela última mesa, bem na minha reta agora, uma versão mais antiga de nós dois remendava nossas feridas emocionais na base da cerveja.

Eu, um tanto ausente por remoer a dualidade "quero/devo" e os resquícios do resfriado que me arriara os dois dias anteriores na cama. Nem os óculos eu tinha lavado, e sabia que você reclamaria disso.

Você agradecendo minha presença. Dizendo que precisava me ver, porque eu estar ali te curava.