27.3.22

Estada

Olho a caixinha de música agora vazia, sons intermitentes. Assim, sem Elizabeth em seus gracejos, nada mais me toca.

Há muitos sons sequenciados, não há mais música. Há muitas informações ao redor, nenhuma mensagem. Não há mais conforto na temperatura da água, não há mais graça em ser pego em flagrante nos meus percalços.

De repente os móveis, as paredes, aquele sótão mal visitado, a gaita então inanimada no canto. Tudo eram só objetos, esvaziados de suas intenções.

Partida?

Então Elizabeth se aproximou, e seu toque me tirou ou colocou em qualquer transe. Nunca é possível saber se inebriar-se é alteração ou revelação.

Me fez engoli-la, me fez sorvê-la. Se apossou de mim em todos os seus efeitos. Não os recusei, pelo contrário.

Mas, como em todas as vezes - nossa única constância -, ela precisava ir. Apartar-nos novamente, o vidro mais grosso e capaz de distorcer a cada adeus.

Consolidação

Eu a observava ali, a bailarina errante da caixinha de música, variando movimentos a cada nova melodia. Não podia ter pra si definição, embora bem se soubesse e se dominasse mesmo nos sótãos sempre mal visitados.

Sabia se fundir ao que quer que fosse. Às melodias, principalmente. Era assim que tudo a seu redor lhe parecia. E, em seu constante processo de recolhimento-expansão, descobria o quanto de si a si permitia abandonar.

Rasgava-se frívola, como se seus derramamentos de repente revelados fossem banais. Testes à recepção alheia. Então se calava, como se precisasse aguardar repercussão.

Reconhecimento

Então arrumou os cabelos - deixando mais bagunçado do que antes -, sentou-se no sofá de antiquário, pegou a gaita como se naquele ambiente tudo se integrasse: ela, ali pertencente. E me tocou suas composições.

Melodias que, em suas pausas cadenciadas de figuras rítmicas complexas, a cada vez tocadas eram uma versão diferente delas mesmas. Cada uma, nesse etéreo subjetivo dos sons poucos delimitados, contava uma história particular.

Nenhuma nunca tinha sido terminada. Eram devaneios materializados em seus sopros na gaita.

Chegada

Foi como a conheci. Por trás daquele muro de vidro. Tocava a gaita cromática e tudo o que eu fazia era a sentir. O som não me chegava assim, da forma original, mas como a sensação reverberada por aquele escudo vítreo que nos apartava.

Ondas físicas, impressões de um som. Nunca ele mesmo.

Então um dia, como que presenteado pelo acaso, ela estava aqui, desse lado, do meu lado. Recostada no muro de vidro. Me inquirindo aqueles seus olhos de vírgula.

18.3.22

Cassino

Foi assim.

Num bar de fim de tarde sentada sozinha com seu gin e alguma mistura exótica na mão, vendo aquele Tinder presencial se desenrolar na sua frente.

O homem de terno e coque que ponderava se galanteava alguém pagando uma bebida o mais barata possível que ainda impressionasse. O homem não tinha nada a ver com ele, não fossem a gravata verde e o coque.

Elementos objetivos, assim como tudo a respeito dele, o que ela chamava por "combo do apelo". Motivos tão óbvios, que seria fácil demais se escusar ali em qualquer um deles, em todos eles: ele fazia o tipo, ele era mais um dentro do padrão, ele representava universos importantes pra ela. E, no entanto, claro que não, não foi por nenhum desses objetivos que ele ficou.

All about us

All about us tocou presciente no seu carro nessa hora.

Eu olhava pra frente, as árvores enfileiradas no cenário de maquete. A simetria da beleza estática parecia um deboche às impossibilidades que pesavam o ar dentro de nós.

Você não tem medo?, você me insistia.

Só podia ser piada. Depois de todo esse tempo? De tudo??

Nunca houve essas tais questões objetivas que você insiste em alegar. Pra si mesma. A troco de quê? Sabe o que é pior nisso tudo? Não é pensar em quanto, no tanto, tudo podia ser diferente, composições compartilhadas com você no meu colo me cantando melodias desafinadas.