18.3.22

All about us

All about us tocou presciente no seu carro nessa hora.

Eu olhava pra frente, as árvores enfileiradas no cenário de maquete. A simetria da beleza estática parecia um deboche às impossibilidades que pesavam o ar dentro de nós.

Você não tem medo?, você me insistia.

Só podia ser piada. Depois de todo esse tempo? De tudo??

Nunca houve essas tais questões objetivas que você insiste em alegar. Pra si mesma. A troco de quê? Sabe o que é pior nisso tudo? Não é pensar em quanto, no tanto, tudo podia ser diferente, composições compartilhadas com você no meu colo me cantando melodias desafinadas.

É pensar que nunca haverá fio de Ariadne que nos resgate nesse labirinto. Porque mesmo quando o contexto nos arremessa frente a frente, nós nos viramos as costas e culpamos a tudo:

O dia útil. A demora deliberada em avisar sobre planos - ou fingir que não havia, principalmente. Uma palavra mal interpretada. Um erro no mapa astral. Aquele dia que você atrasou vinte e dois minutos. As necessidades nunca respondidas de propósito. As necessidades nunca ditas. E as piores, as negadas até pra você mesma.

Eu continuo mudo.

Não adianta o óbvio-escrachado ser dito - redito, reescrito a ferro e fogo nesses tomos de livros com tantas páginas vazias de nós dois. Não adianta didática quando o que se procura não é solução, mas justo seu oposto.

Você freia brusca, como se tão desesperada buscasse uma forma de me sacudir que isso se faz literal.

Você não tem medo?

Dos supostos impedimentos materiais, subjugados a todos os seus categóricos impedimentos simbólicos? Nunca nem sobrou espaço pra isso.

Mas ainda não falo, respiro fundo como se o ar capaz fosse de dissipar o tanto de você que me queima.

Nunca foi nenhum alheio, contexto, motivo sobrenatural-solapador. Te beijo, esse é desde o início nosso único entendimento possível: a dissolução dos conflitos, o cala a boca às impossibilidades. A brecha do não selamento labial que selou todos os nossos implícitos.

É, realmente, minha querida. It's all about us.

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