22.4.22

Quando ele me pediu um texto feliz

Aquela primeira vez que te mostrei meus textos.

Estes textos, quando te fiz personagem. Eu estava deitada no seu colo, enviesada no seu carro, a gente tava tão sugado de tudo, que só estava ali parado meio bobos, criando forças pra catar algum lugar aberto pra comer.

Eu puxei meu caderno, era ali que te escrevia, muita coisa saía durante e logo depois das suas aulas, poetizações misturadas com escalas jônicas, sustenidos fazendo as vezes de coraçõezinhos apaixonados. E então era uma piada sem a mínima graça, uma sobrancelha sisuda do nada, um trejeito mais exagerado do que o momento pedia, e toda a poesia que é você virava texto como que se precipitando sozinha do ar naquelas linhas.

Quando eu soube que você viraria personagem?!, te respondi, ainda no seu colo. Seu nome escrito no quadro, até ele acidente, mesmo em enarmonia. E aquilo era tão você, que quase me implorava a narrativa. Eram muitos, muitos textos, mesmo ainda àquela época, em que indômitos nos desbravávamos, mas todos pedaços jogados sem um destino. Eu estava seca demais pra amarrar "o pianista" - o personagem -, e você ria dizendo que isso já tinha percebido, como se eu falasse do nós dois reais, ali embevecidos um no outro.

14.4.22

Esconderijos

Acontecia às vezes de descobrirem a gente. O olhar de cumplicidade ou demorado demais ou babado além da conta. Alguma piada-referência que nos entregava. O tanto que a gente se falava só de olhar, tocar, só de estar perto, aliás, sem nem precisar cruzar olhares pra ter aquela telepatia.

Roupa igual sem combinar, bordões que você roubou de mim, trejeitos seus que assimilei (a maldita risada esquisita de nervoso... eu ainda detesto você por isso). Reações gêmeas por simples sintonia.

A gente só tentou negar uma vez, e a crise de riso que tivemos foi pior do que se tivéssemos escrachado qualquer coisa. "Ainda dá pra negar?", falei do alto de toda minha dissimulação, depois de você ter até saído de perto, vermelho. Foi aí que vimos que era impossível. Se soubessem, que assim fosse. Se falassem, que assim fosse.

Não havia grandes atentados que pudessem cometer contra nós além de fofoca, pensávamos. Acontece que amar nos deixou inocentes. Maldade alheia é invasiva, mais ainda quando se baixa a guarda por se achar indestrutível.

E era assim que aquele amor nos parecia.

É claro que eu queria não ter te amado. Amar é sempre a escolha mais difícil. Mas dava?

Insígnia de Ar

Lembro bem, claro que lembro. Foi esta a primeira imagem que tive de você: você ignorando a partitura que te entreguei, transpondo de ouvido na hora a música pro tom em que eu estava de fato cantando.

Meses depois, você fazendo arranjo no piano a partir de qualquer som, começando a tocar junto com uma música, qualquer música, que você nunca tinha ouvido antes, sugado da realidade, ali imerso.

Ouvido absoluto e problemas varridos pra baixo do tapete no excesso de trabalho.

Sim, eu lembro bem.

Você dizendo o quanto é difícil ser geminiano com lua em Virgem, louco e metódico, bicho solto e cheio de paranoias. E foi ali, nas tuas gesticulações exageradas, que eu soube que tava fodida. Que o encantamento, a admiração, a graça além da conta que eu achava nas tuas piadas, gostar demais de estudar história da bossa-nova e fórmula de compasso às 8h eram só os efeitos colaterais de você.

13.4.22

Gemido em Fá sustenido

Foram vários momentos de quase, em que se a gente tivesse ignorado a razão por um segundo, só por um segundo, teríamos nos feito um ao outro muito antes de quando aconteceu.

O dia na coxia, que você fugiu do fosso do teatro e me achou, figurino pela metade, meio Valentina meio personagem, pulei no seu colo porque era como se nem houvesse outra opção, e demos aquele beijo que deveria figurar em proscênio sobre a ribalta, mas só nós dois sabíamos o quanto isso não nos era permitido.

O que deveria ser um "rápido antes que alguém chegue" me jogou em um estiramento de tempo tão grande, que seria difícil até perceber se nos conclamasse o terceiro sinal.

12.4.22

G de Sol

G de garbo, com todo o contraste da polissemia. A elegância ostentada em café, echarpe, óculos escuros e piano, e a total falta de mesuras me jogando nua no chão da sala.

E G do gemido, claro. Aquela coisa tão tua de ter em um mesmo a delicadeza e a barbárie, o som da entrega a que faltam uns comas pra atingir um Fá sustenido - isso você que me diz -, sensível pedindo resolução de tônica.

Sobre ódio

Foram muitas histórias que vivemos naquele curto espaço de tempo. Não digo curto pelos meses em si, mas pelos nossos excessos um com o outro. E, dessas histórias, só nós dois as sabemos de fato. Só nós dois sabemos o quanto muitas delas se tornaram decoração compulsória do nosso cotidiano.

Mas teve um momento em particular que nunca parou de me ser uma tormenta. Aquele dia pós-término, a incredulidade na voz, agudizada demais pro teu padrão de barítono, dizendo o quanto era inaceitável, depois de tudo, eu escolher acreditar nas minhas inverdades, cunhadas simplesmente para nos negar. Você estava certo e eu, errada.

Vivi umas doze vidas naquela esquina enquanto esperava o Uber. Cogitava ir ou não lhe falar. O bom senso me paralisava, enquanto a batalha de sentimentos me forçava a me enlaçar de novo em você. O cabo de guerra foi rompido quando senti o choro me descer invertido, salgando a garganta.

Fui e voltei incontáveis literais vezes. Então subi as escadas, tropeçando nos degraus (e queria que isso não tivesse sido também literal), e te vi, o Uber esperando irritado, te olhei e te disse que apesar de tudo o que nos tinha acontecido - nós dois, apenas por o sermos, tínhamos despertado toda sorte de sentimento merda ao redor, raiva inveja mágoas frustrações transferências preconceitos principalmente -, mas o pior de tudo, eu te disse, era nós dois não sermos mais um nós dois, todo o resto parecia piada perto disso.

Você nada disse, virou-me as costas, saiu rebocando o que estivesse na frente. E é claro que entendi que o ódio que te incinerava era o ódio que só sente quem já amou em igual medida.

11.4.22

Camisa preta

Atravesso a rua, buscando o bar em que combinamos. Bar de blues, dou um sorrisinho. Você não tinha especificado, só tinha dito que seria a minha cara. Sim, você acertou, tive logo aquela identificação quando bati o olho, e já sabia que era ali antes de buscar o número na avenida imensa.

Não precisaria, também, te vejo sentado empunhando Hobsbawn. A cena deslocada do padrão dessa realidade de sextas à noite me causa aquela satisfação a nível de alma. Ainda bem que eu vim, penso, algo bem diferente de tudo o que vinha pensando nas minhas últimas saídas.

Sabe que eu tenho essa coleção lá em casa, mas nunca terminei?, é o boa-noite que te dou, você elogia minha roupa. Omito que pensei por três dias nela, precisava chegar à altura da sua marca registrada de nunca repetir a echarpe. E sempre a combinar com as meias. Mesmo que elas sequer apareçam.

Elogio tua escolha clássica e a camisa preta. No dia que nos conhecemos, você estava com ela. Sim, eu lembro. Glenfiddich, claro, posso endossar mais o estereótipo do que sou? Você me acompanha e não me dá brecha para o início fático da conversa, já coloca as cartas na mesa.

Enarmonia de acidente

No início, a inevitabilidade e a improbabilidade se deram as mãos. Minha inevitabilidade de te amar, tuas manias esquisitas, a hipocondria espalhafatosa, as piadas feitas de cara fechada, a mordida salafrária de lábio, os temas dramáticos no piano.

A improbabilidade total de você sequer me olhar desse jeito, universo oposto àquelas lutas que só você sabe como foi travar pra ser quem é. E, no entanto, tudo partiu de você.

A cantada infame no metrô, o convite - mais infame ainda - dissimulado pra uma saída como se fosse natural.

Nós dois, aparente antinaturalidade.

Te amar foi isso, acidente, desvio do esperado.

Do cumprimento grosseiro sem querer quando nos conhecemos até a forma como eu disse pela primeira vez que te amava.

2.4.22

Com tato

Sabe deus quantas vezes digitei e apaguei quantas mensagens. O cumprimento neutro, a preocupação, os assuntos frívolos, os compromissos cotidianos: tudo é sempre uma versão do mesmo. A tentativa urgente e necessária de, da forma possível-acessível no momento, de novo te tocar. 

Do tão discreto "Você tá bem?" ao rasgado irrepresável "Eu sou louca por você", todos são sempre um novo tipo de atalho que não paro de criar pra te ter comigo.

A música que alguma frequência captou aqui em casa esgarça ainda mais essa linha do sentimento que me costura o peito: "Te quero na cama, sem roupa, sem drama".

Eu te quero assim, mas se fosse só assim seria fácil. Porque eu também quero fora da cama, com roupa de casal combinando, com a tua roupa em que cabem três eus, você com a minha.

Rotina... acidental

10h, meu despertador toca me avisando de algum compromisso fixo, você acordaria pra fazer o café pra nós dois. Então percebo que até agora não o tomei, como se hoje, mais uma vez, você fosse se materializar mole de sono do quarto, óculos embaçados e roupas amassadas.

O que foi mais estranho não foi você estar aqui, mas justamente a naturalidade disso. Te ver encher a garrafa de água, reorganizar os frascos de shampoo e remexer suas coisas como se fosse normal. Pegando qualquer coisa na geladeira falando sobre o quanto vive puto, cabelos presos e ares de rotina. Banalidades que sempre fizeram parte dos meus desejos e que pareciam tão distantes que mal se davam forma. Deveriam ser estranhas por si, mas de repente só pareceu estranho qualquer coisa que fosse diferente disso. Um segundo, e você do meu lado como se ali sempre tivesse estado. Talvez pelo tanto que te refiz com estes pensamentos, te ensaboar o corpo, te trançar os cabelos, te olhar sonolento.

Meses atrás, um amigo em comum me disse que queria me ver apaixonada. "Mais de cinco anos pelo Fulano não conta?" Ele me disse que não, porque queria me ver na fase aguda da paixão, e neste caso já tinha virado crônico.

Concordei, era assim que eu me sentia. Acostumada. Como um pavimento tão bem fundido que mesmo presente se para de sentir. Apenas está ali, não se pensa, não se percebe. É integrante do cenário.

Era óbvio que eu não ficaria ilesa, mas achava que seria uma sujeirinha de dois/três dias ouvindo a mesma música em looping, uma cosquinha que eu resolveria comigo mesma em bons parágrafos ou, no máximo, quebrando o compromisso pessoal na garrafa de cîroc.

Achava que o primeiro trabalho mais interessante espantaria de mim você para longe, guardado aí em todos esses km em que você de fato está. O primeiro livro de temática que me prendesse, a primeira aula que me desafiasse, o primeiro amigo que me chamasse pra dançar, o primeiro show de um dos artistas que falam com a minha alma.

Claro que não.