15.5.22

Quando ele me disse que era triste

Tristeza faz dormir, todos os estudos em suas estatísticas dizem. Mas como tudo em seu excesso, o fogo que em frio arrepia, o gelo que queima e lacera a pele, aquilo o mantinha acordado.

5h35, sabia, era o mesmo horário de todos os dias, como um despertar obrigatório natural. Tateou qualquer coisa que lhe desse sentido. Os óculos. Uma partitura inacabada. Uma história a ser construída.

Não era tristeza exatamente, era pior. Era infelicidade. Não era pois um sentimento por si, uma presença. Mas a ausência total de qualquer gota de motivo. Então ela.

Ela era aquele ponto de luz em tudo o que tocava. Era o amanhecer quente, o café forte, perceber que conseguiu pegar o vagão mais vazio, ver os compromissos cumpridos, realizar-descansar-estar em paz. Toda sua fonte de magia.

E ela sabia, era notório. Mas antes de tão abertamente ele lhe falar, ela podia fingir que eram só ideias de anulação tentando atrapalhar os dois. Podia fingir o que quisesse. Até que ele lhe contou. Falou-lhe da profunda infelicidade existencial que sentia. Falou do quanto os sentimentos escuros sequer podiam ser chamados de patológicos, pois patologia é o que se acomete, mas o que lhe dá forma, e o faz o que é, é essência. Aquilo era ele, mas ela.

13.5.22

O dia que ele me disse não

Aquela primeira vez que te fiz um pedido.


Um pedido de fato, por necessidade, daqueles que são quase súplica.


A gente se odiava, lembra? Então o total deboche do destino. Era o único lugar vago no metrô lotado, o sorriso sem graça do clima merda. Eu só queria chegar rápido e me livrar de ter que estar ali do seu lado. Só seis estações, só cinco estações, só quatro estações, eu me dizia. A pane que nos prendeu numa socialização obrigatória de mais de uma hora.