15.7.22

Marcas Mortas (Doce e Sacramente Fincadas)

"A verdade é que eu minto, que eu vivo sozinha, não sei te esquecer."

Quantas e quantas incontáveis vezes te pensei/escrevi/dediquei essa música, em particular esse trecho, pelo tanto que ele fala desse sentimento com que a gente precisa se acostumar, mas que não há mordaça no cotidiano que o cale?

Um texto é só um texto. Ainda que inspirado pelo cotidiano, é preciso separar os nossos sentimentos (e desejos, principalmente) de leitor das estruturas tão lógico-racionais que frias e calculadas ali se apresentam.

Mas se essa é justo uma das nossas conversas de alma, nunca seria só um texto. Principalmente se você sabe o poder que tem de revolver tudo que eu sou. Sim, meu muro existencial intransponível desde sempre, tão aberto-claro-dado pra você.

Então pensei em lhe falar. Dizer o quanto eu queria não saber. Não ter lido. O quanto em muitos dias eu evito te ler. Porque há muitos dias em que eu PRECISO evitar te ler. Fui tomar banho como se a água escaldante pudesse evaporar a vontade, como se a conversão no vermelho da pele pudesse materializar e então sanar a merda dos sentimentos não ditos. Falar o quanto é cretino isso tudo - sim, por sua culpa. Falar o quanto você elabora boas metáforas. Falar o quanto eu continuo, anos, milhas e vidas depois, queimando você.

Mas adianta? O que eu teria de você seria um dos dois de sempre: a não resposta ou a piada evasiva e fugidia. Sim, eu desisti de perseguir os rastros, porque já os conheço e antecipo.

As nossas vidas vão continuar, é claro. Rindo em bares, usando um entorpecente vez ou outra, fingindo pra gente mesmo que é tudo uma ilusão por conta de uma ferida mal resolvida, que a gente assim escolheu, dar forma e alimentar, obviamente. Todo o ultraje de você olhar na minha cara, dentro do meu mundo, e usar toda a sua típica cretinice teórica pra justificar que nós dois nunca existimos. Deturpando freuds e lacans pra nos negar - sempre, e sempre, e sempre.

Você vai continuar, é claro. Rindo em bares pra outros olhos, sendo entorpecido vez ou outra entre outras pernas. Me queimando a alma saber dos suores alheios que te lavam a pele. E eu? O que posso fazer quanto a tudo isso? Extirpar o pensamento a cada vez que ele surge como se fosse nada? Marcar compulsivamente encontros no Tinder? Beber, fumar, escrever, gritar em desespero na janela do 17 andar, ouvir Alexandre Pires e Alcione até os vizinhos quererem me expulsar do prédio? Até eu acreditar que vou chegar a ser expulsa de mim? 

Você pra mim já atingiu níveis que eu, tão acostumada a me silenciar e a não sentir, vazo. E, de tanto vazar, eu cheguei a um ponto que nem tenho mais o que converter, então simplesmente fiquei inerte, por mais que você continue deixando seus farelos tingidos de frívolos à minha volta.

Sabe o que é pior nisso tudo? Eu me acostumei a fingir não sentir, a afastar, a ignorar, a afundar tanto os sentimentos, a ponto de eles perderem identificação e conexão comigo. Mas então você, impossível silenciamento.

As coisas não precisam ser feitas para a destruição, por mais que destruição faça parte de quem nós somos e, em certa medida, seja até aquilo para o que nosso brinde se ergue. Mas eu não tenho como construir nada sozinha contigo contra nós dois - embora, imprudente e pueril, muito já tenha tentado. Já fatiguei músculos e mente além do plausível. Eu também cresci com a cisão da incompreensão, então essa é só mais uma das coisas que "I don't think that they'd understand". Mas você?!

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