16.9.21

Clown

Era uma terça-feira quando ele me apareceu, a forma de ajeitar o cabelo atrás das orelhas, entre os óculos, e os truques de malabarismos.

A agonia dos finais de festa transformada em fervor, que sempre se recria na primeira saudação.

Então eu vi. Mas não aquilo que se mostra, como os punhos bonitos e a sequência de tatuagens. Vi a escuridão, mascarada na aura leve, expurgada nas materializações do inconsciente. E o gosto por jogar nessa dualidade.

2.9.21

Fá dobrado bemol

A perspicácia ferina, de preferência usada para endossar algum sarcasmo. As referências, também, e a pronúncia gestual do italiano com as aulas grátis de etimologia. 

E não por sabê-la, porque isso é irrelevante, mas por seu gosto por sabê-la; eis o encanto. Sempre fui disso, de gostar dos gostos alheios, e de alheio você tem tanto, irrevelável, o que só concorre para uma superfície ainda mais interessante.

De bandeja, a tua entrega sempre vazia da tua real substância, aquela mesma que se arreganha na tua arte, talvez por tua necessidade de sangrar por vias tortuosas o que tanto sufoca nas tuas paredes.

E depois vem a concentração. Não digo o talento, porque isso é vulgar e superficial demais. Mas como você fica tão imerso na tua arte a ponto de vocês dois tornarem-se um só, indiscerníveis.

12.8.21

Cinzas

Eu queimei a primeira vez quando perguntei seu nome, você contra a parede.

E logo depois, entorpecida pelo misto de rebarba de dia anterior e prévia de dia seguinte, quando vi que havia mais em comum do que o entalhe dos lábios.

E só ali, na mesma noite, foram várias. As referências bobas e as profundas (talvez, por isso, mais bobas ainda). Discrepâncias de se recolher e se arremessar em coisas opostas. O meu comentário vulgar sobre o nude "nunca mostrado desse jeito". O seu "tá perigando" (lembra?), que você me disse enquanto se afastava e que até hoje me faz pensar no quanto isso representa, no que tange a mim, você.

Sua crise de ciúme, que você, ainda, tem a cara de pau de negar, esperando o Uber. E eu com duas Valentinas em mim. A que se sentiu maravilhada por aquilo e a que me cutucou forte e disse: "Por que você tá gostando disso?! Você tá maluca?!"

Eu queimei.

Naquele dia em que, saindo do trabalho, vi a notificação e me veio tua voz em "Forever". E senti a efusão se espalhar por todo o corpo, ao mesmo tempo em que me veio a mesma Valentina castradora, pretensa ode à racionalidade: "Para de se sentir assim. Não é nada disso."

Eu queimei nos meus planos ingênuos de virada de ano e Carnaval, e queimei procurando alugar meu apartamento por temporada por um feriado contigo.

Então queimei de frustração por um corte e por todas as referências que me soterravam de você.

Seis segundos

Se eu conseguisse voltar no tempo, seis segundos, só isso que eu pediria. Seus dedos no meu rosto, mordida de lábio. O sorriso mais bonito, desenhado sobre a curva dos dentes.

Seis segundos.

Era só disso que eu precisava. Se eu só tivesse seis segundos pra te dizer tudo o que sinto, eu voltaria àquele sábado de novembro, primeira vez.

Eu poderia te escrever uma carta, textos compulsivos, músicas sentidas em tom menor - o que já faço - com a minha versão dos fatos, rasgando o peito. Mas eu gastaria latim em vão. Nada do que eu possa te dizer chega perto daquele dia. Nada mais seria tão preciso do que seu toque falando comigo.

22.7.21

(Im?)Possibilidade

Revirando as cobertas, o pensamento rasgando mais que os quatro graus da cidade.

Digito e apago repetidas vezes a mesma mensagem: não consigo dormir pensando em você.

Penso na conversa que me queima o peito mas da qual já não me permito mais extrair expectativa - caminho que aprendi a seguir, automático.

Mas pensar na possibilidade de nós dois é inevitável nessas situações. Não se fecha de uma hora pra outra uma fonte que até então represada se escancarou.

Busco, nesse momento de pico, todos os métodos do dia a dia de te tirar de mim.

15.6.21

Detesto

Primeiro, eu detestei o convite. Você me estendendo a mão me chamando pra uma dança. Fim de noite, músicas improváveis, salão já vazio.

Recusei. A recusa não foi a ti, mas a começos óbvios. Nós não sabíamos, porque saber demanda olhar o passado, e não premonições ancoradas em intuição feminina ou ter crescido com parentes ditos médiuns.

Saber demanda analisar o que já foi, com seus efeitos no corpo e no ego, e éramos prenúncio de primavera, o florescer.

Então, recusei, e fiz, eu mesma, a ti o meu convite.

Tua boca, afluente do universo.

Porque é na boca onde se dá o conhecer.

Bebês poem tudo na boca porque é assim que se experimenta o mundo. E o peixe morre pela boca porque começo só pode ser começo se, ao mínimo tropeço, puder se tornar fim.

Nada se desenrola se não partir dessa tênue - e embrenhada - dicotomia.

9.5.21

Xeque

Xeque
A F#m​ D E

Há mundos que eu não sei dizer
Se existiam antes de te conhecer
Sabe, tropecei num portal
De realidade acidental

Não me venha de aviso
Sobre o seu jeito arisco
Flanco sorriso
Corro o seu risco

Não nos negue a centelha, chega e me incendeia
Ergue pra mim só uma só sobrancelha