18.4.21

Você

Você
C#m - B - A - G#

Nenhuma madrugada se faz na igreja
E eu nunca levei jeito pra ser a cereja
No bolo de alguém a caminho do altar, meu caro

Se eu pudesse, devolvia as tuas noites
Não quero meu nome em gritos de açoite
Espalhando os cacos atrás de reparo

Pré-refrão
Essa cópia da chave nem nunca foi tua
Recolhe teus pratos, segura tuas roupas
No chão do meu quarto elas não cabem mais
'Cê não me conhece, rapaz

Não tema feridas que você nunca abriu
Você não valeu sequer meu ardil
Ainda pergunta o que vai fazer... sei lá
Eu nunca amei

17.4.21

Medo de altura

Medo de altura
C G Am F

Onde foi que eu errei?
Será que foi falar de outro alguém?
Tantas noites vazias, tão rasas
Sem me prender a ninguém

No meu corpo, 'cê viu aventura
Eu te disse, era só armadura
Que coisa...
Eu seria tão fácil só tua, só tua, só tua

Erro de pele

Erro de pele
G D Em C

Tudo 'tava indo tão bem
Eu já me sentia até o seu neném
É que quando a paixão pega de jeito
A gente foge da gente mesmo

Amor, 'cê me entendeu tão mal
A gente é mais que um lance casual
Vai matar meus exércitos teu gelo
E eu louca por ti até o fio do cabelo

Já não consigo nem pensar direito
'bora voltar do começo?

6.4.21

Tua

Você me fez tua.

No riso. No gozo. No abraço que cria vontade própria e sozinho se demora.

A sua barba te assinando nas minhas costas. A cara fechada que a retina transforma em retrato. A enarmonia dos nossos gemidos. E o poder nada sutil de gozar com o teu arrepio.

Você me fez tua.

29.3.21

Cinco letras

Cai a água gelada nas costas, e a zanga espúria que sinto tem seu cheiro. Sentimento de cinco letras, como a folia que me brota no peito com o lembrete de que você usou o chuveiro antes de mim e mexeu na temperatura que deixo como padrão, sendo um pouco dono comigo do meu cotidiano.

E me preenche a alma ver tão palpável a nossa intimidade.

De poder deitar nu em pelo um do lado do outro sem compromisso de sexo, porque a gente pode desnudar nossa alma, e isso é que tem urgência.

De antecipar as piadas ruins um do outro, e ainda assim continuar achando graça delas.

De ter se tornado natural sem a gente se dar conta que não importa o que aconteça, o desfecho da noite e os dias seguintes são sempre compartilhados.

Também tem cinco letras mania, como todas as suas que me aquecem a rotina. A mania de reclamar que não desligo meu computador e que não tenho backup. A mania de pedir para ouvir os áudios alheios que ignoro - e de se incomodar por se ver tanto em tanto de mim. A mania de comer de colher e nem sequer usar como desculpa sua ascendência de outra cultura, porque você fica confortável com a sua esquisitice peculiar, que já se tornou meu porto também.

14.3.21

Dez a um

O interfone toca. São 2h43 da manhã. Mais uma madrugada que me reviro nos lençóis com a invasão dos seus trejeitos forçando todas as funções do meu corpo no limite, me mantendo desperta.

O interfone toca, reincide, insistente.

Algum engraçadinho, trote, uma desculpa. Eu não ia atender nem fodendo. Me reviro nos lençóis, sigo a leitura de algum livro sobre arte contemporânea, como se minha cabeça estivesse de fato em happenings e instalações - eu detesto arte contemporânea.

Mas a campainha me faz saltar da cama. Interfone, ok. Mas campainha? A essa hora?

Penso em ignorar, mas o "Valentina" grave me suga em um segundo até a porta, a mão automática na chave. A tessitura, o timbre e a cadência particulares. O sotaque que na tua boca se torna só teu.

Falo seu nome, é uma pergunta, não pode ser. Você mora do outro lado da cidade, e, caralho, é madrugada. Mas o teu "Ufa, caralho" me confirma.

Eu tinha me esquecido do seu poder de persuasão frente a uma equipe inteira de porteiros que, mesmo com o pouco tempo, já decorou seu nome e rosto.

Pulo no seu colo, a urgência sôfrega dos desejos que se tornam necessidade. Sua boca na minha é mais do que encontro. Te sorvo. Absorvo você dentro de mim. Sedimentando as treliças que a saudade deixa.

Centelha... do caos

Sentir. Muito sentir. E, a isso, equiparada a ciência do quanto não se pode. Por que é tão bom pular no abismo, se a queda certeira e todas as sequelas são tão sabidas?

A gente se ilude de que doem os quase amores - com seu bônus reforçador das brechas do que não foi e dos espaços sedutores da fantasia -, mas como seriam estes piores do que os refreados pela própria consciência?

Nós dois e a certeza há muito internalizada, por teoria - por profissão, inclusive, no teu caso - e por vivência, da ativação do abismo.

E darmos as mãos conforta, arranca o peso do peito que até então nós, anestesiados, não nos dávamos conta de que existia. Mas dilacera o dobro do que as soltarmos.