9.5.21

Xeque

Xeque
A F#m​ D E

Há mundos que eu não sei dizer
Se existiam antes de te conhecer
Sabe, tropecei num portal
De realidade acidental

Não me venha de aviso
Sobre o seu jeito arisco
Flanco sorriso
Corro o seu risco

Não nos negue a centelha, chega e me incendeia
Ergue pra mim só uma só sobrancelha

3.5.21

Bigodinho salafrário de personagem rodriguiano

Depois de tantos depois, em uma dessas noites de dias úteis esfriando antes do que deveria a cidade cinza, o porteiro me solicita autorização no teu nome.

Me pergunto se ele confundiu a visita ou o apartamento, e, a ele, pergunto a descrição.

De alguma forma, eu já espero as imprevistas recidivas tão certeiras. Mas sem nem avisar?

Te autorizo quando me atinge o ceticismo de ser mesmo você somado à minha impossibilidade de te negar. Somam-se também a expectativa riscando o estômago e o desejo que todo o corpo domina de lavar meu apartamento de você.

Depois da subida de elevador mais demorada dos últimos seis meses, você me sorri o contraste do sorriso juvenil na cara sempre tão séria e um tanto soberba.

E me sorri com os olhos de quem finalmente cede, na curvatura que me fez cativa do bigodinho salafrário de personagem rodriguiano. E olha que carioca sou eu, mas quem trouxe as armadilhas do malandro pra me enredar foi você.

18.4.21

Você

Você
C#m - B - A - G#

Nenhuma madrugada se faz na igreja
E eu nunca levei jeito pra ser a cereja
No bolo de alguém a caminho do altar, meu caro

Se eu pudesse, devolvia as tuas noites
Não quero meu nome em gritos de açoite
Espalhando os cacos atrás de reparo

Pré-refrão
Essa cópia da chave nem nunca foi tua
Recolhe teus pratos, segura tuas roupas
No chão do meu quarto elas não cabem mais
'Cê não me conhece, rapaz

Não tema feridas que você nunca abriu
Você não valeu sequer meu ardil
Ainda pergunta o que vai fazer... sei lá
Eu nunca amei

17.4.21

Medo de altura

Medo de altura
C G Am F

Onde foi que eu errei?
Será que foi falar de outro alguém?
Tantas noites vazias, tão rasas
Sem me prender a ninguém

No meu corpo, 'cê viu aventura
Eu te disse, era só armadura
Que coisa...
Eu seria tão fácil só tua, só tua, só tua

Erro de pele

Erro de pele
G D Em C

Tudo 'tava indo tão bem
Eu já me sentia até o seu neném
É que quando a paixão pega de jeito
A gente foge da gente mesmo

Amor, 'cê me entendeu tão mal
A gente é mais que um lance casual
Vai matar meus exércitos teu gelo
E eu louca por ti até o fio do cabelo

Já não consigo nem pensar direito
'bora voltar do começo?

6.4.21

Tua

Você me fez tua.

No riso. No gozo. No abraço que cria vontade própria e sozinho se demora.

A sua barba te assinando nas minhas costas. A cara fechada que a retina transforma em retrato. A enarmonia dos nossos gemidos. E o poder nada sutil de gozar com o teu arrepio.

Você me fez tua.

29.3.21

Cinco letras

Cai a água gelada nas costas, e a zanga espúria que sinto tem seu cheiro. Sentimento de cinco letras, como a folia que me brota no peito com o lembrete de que você usou o chuveiro antes de mim e mexeu na temperatura que deixo como padrão, sendo um pouco dono comigo do meu cotidiano.

E me preenche a alma ver tão palpável a nossa intimidade.

De poder deitar nu em pelo um do lado do outro sem compromisso de sexo, porque a gente pode desnudar nossa alma, e isso é que tem urgência.

De antecipar as piadas ruins um do outro, e ainda assim continuar achando graça delas.

De ter se tornado natural sem a gente se dar conta que não importa o que aconteça, o desfecho da noite e os dias seguintes são sempre compartilhados.

Também tem cinco letras mania, como todas as suas que me aquecem a rotina. A mania de reclamar que não desligo meu computador e que não tenho backup. A mania de pedir para ouvir os áudios alheios que ignoro - e de se incomodar por se ver tanto em tanto de mim. A mania de comer de colher e nem sequer usar como desculpa sua ascendência de outra cultura, porque você fica confortável com a sua esquisitice peculiar, que já se tornou meu porto também.