31.12.17

Façam essa porra acontecer

Fico me perguntando por que nós dois simplesmente não bancamos e vivemos isso de verdade, de uma vez. Agora.

Sem punheta mental.

Sem andar nas beiradas, só molhando o pé na água. Por que a gente não mergulha logo, se tá um calor do caralho? Por que a gente não se lambuza, se a vontade latente já pulsa há meses? Por que a gente simplesmente não se joga, sem pensar muito em controlar o que não podemos? Por que não paramos de cautela e circular por nossos desejos e entramos de uma vez nisso e vivemos tudo? Tudo mesmo.

21.12.17

Aos que me amam

Vocês, todos vocês, que dizem me amar, precisar de mim, se preocupar loucamente comigo, morrerem de saudade o tempo todo. Que até choram na minha frente de tanta falta que sentem de mim. Que me ligam implorando só pra ouvir minha voz. Que mandam mensagens sufocadas pedindo por resposta.

Eu não suporto nenhum de vocês.

Em suas especificidades, odeio todos. Não suporto as exigências da minha presença que me fazem constantemente. Dos meus ouvidos, das minhas respostas, eventualmente da minha pele. Dessas reações químicas loucas que desencadeio em vocês. Vocês amam meu coração supostamente a prêmio.

Términos

O que dói mais? Ainda acho que é gostar de alguém, mas ter que romper com essa pessoa.

Há simplesmente demandas que não podemos suprir, nem vamos. Por mais que doa, o mais justo com as expectativas do outro é o rompimento. Relacionamentos humanos são complexos. Às vezes esbarramos com uma pessoa e temos aquela sensação de "é ela". Mesmo que não dure nem uma semana.

Às vezes ficamos meses, anos com alguém. Gostamos, gostamos bem, até. Mas sem ter essa sensação. É impossível você só se envolver com quem te dê essa sensação. Isso é tão raro...

18.12.17

Morno

Mundos inteiros correm e gritam logo ao lado, em paralelo, no rush de suas urgências. Mas os pensamentos que sufoco são ainda mais altos e ruidosos do que qualquer outra coisa.

Aqui, sentado nesse deque, penso no quanto sou morno. É como segurar gelo; quando a temperatura é muito baixa, ela queima. O gelo excessivo, no fundo, é brasa. Tudo que é muito tende sempre a seu oposto. E opostos são a falta de sal da média.

7.12.17

Asas da morte

Eugênia disputava o título de pessoa mais insana que conheci. E olha que conheci várias. A primeira vez que a vi pessoalmente foi, em contraste, a última em que consegui matar.

Não sei como acabei aqui. Não sei como me tornei o "isso" a seus olhos de juiz. Já não lembro sequer como era antes ou se esse antes chegou a existir. Só sei que gostei.

Um dia, se é que posso chamar de dia, há muito essas noções não me acompanham, eu estava aqui: as mãos sujas de sangue, e sabia como encontrá-las. Elas, a quem eles chamam de vítimas. Prefiro acreditar que as liberto. Há grades maiores do que a ilusão do real?

Também eu me libertei, com a única certeza que hoje me acompanha. Sou o arauto da morte. Mas não de qualquer morte, da morte lenta e agoniada, sentindo cada espasmo da fugacidade escapando entre os meus dedos. A vida se esvaindo, se extinguindo. Esses poucos segundos de eternidade.

Esse é o meu maior prazer.

1.12.17

Libra namora 7

Todo mundo sabe que a música da vida do libriano é "7 e 7 são 14, com mais 7, 21, tenho 7 namorados, mas não gosto de nenhum" e isso pode ser um tanto literal.

Acontece que Libra precisa mesmo de 7. Mas não necessariamente desse jeito.

Libra precisa do Fogo, porque Libra é instrumental, e precisa saber que faz seu trabalho ao soprá-lo e vê-lo se propagar; para destruir ou construir, porque faz parte de sua missão.

Libra precisa dividir espelhos e senso de justiça com Leão, suas aventuras e humor duvidoso com Sagitário e seu poder realizador com Áries. E precisa de Áries também porque, eventualmente, até Libra precisa brigar.

25.11.17

Dentro de mim, sol

Coque no cabelo, um livro pela metade no sofá, a chuva impiedosa molhou minhas roupas na corda. Todo o mundo lá fora só serve para lembrar que esqueci de comprar pão integral.

Aqui, algo de Samba em prelúdio. Algo em rastros, gosto de restos do que me escapou. Mas nada disso desce amargo, pelo contrário. São cortes de cenas. E todas elas me envolvem em arco-íris, pôr do sol e quinta-feira. E me distanciam do dia cinza que não me atravessa.

22.11.17

I shall never be anything else

Eu nunca vou me esquecer da primeira vez que entrei no seu carro, naquele posto, ali em frente ao metrô da Barra. E do trajeto até a praia afastada conversando sobre drama contemporâneo e fotografia.

Eu nunca teria ido se não tivesse uma viagem de avião marcada para poucos dias dali, com aquela típica sensação de "vai que". Eu nunca teria ido se... mas fui.

Costumo dizer que o que nos uniu foi seu profissionalismo irretocável. Ou minha idolatria pela sua sensibilidade de artista. Mas, sabe, a cada dia que passa e nos conhecemos mais, fica quase impossível escolher uma coisa só, porque você sabe o quanto amo até o seu nome e todas as suas nuances.

Sou grata à vida por você ter me acontecido. Sou grata à vida pela sensação de liberdade absurda que compartilhamos. Pela sensação de ser pleno só por estar vivo. Isso é seu e é lindo demais.

Sei o quanto ter me conhecido te devolveu muito do que você era e havia perdido. Mas pra mim também foi meio assim, então sou grata por tudo. Eu não tiraria nenhum detalhe.

11.11.17

oh, fuck it.

Era ele.

E é claro que ele sabia.

Era ele no vídeo melada de Nutella, nos nudes de costas que viram fundo de tela e no frango caprese.

A sensação lívida de pegar automaticamente na mão de alguém só porque parece que é natural entre os paralelepípedos de uma rua. Composições trocadas e lençóis molhados em atraso.

10.11.17

027









Eu o conheci através de amigos em comum, ele era de outro colégio, também estava no último ano do ensino médio.

Nossa, ele era bonito pra caramba, mas meio chato, ficava perturbando, atrás de mim direto nas festinhas do pessoal dos nossos colégios, e eu só disfarçava.

Até que em uma das festas, fomos dançar um zouk, e a magia aconteceu. Acabei cedendo à beleza e ao charme dele.

Fiquei com ele, dançamos, tudo na maior paz. No dia seguinte, soube que eu estava jurada de morte no colégio do tal Fulano.

Sempre foi sobre ela

Era ela.

Uma bailarina que servia café para o lobo e falava uma língua estranha.

O oceano nos olhos, todas as respostas do universo.

O verso, a prosa, a rima que nunca encontrei.

A nota do piano, a música dos Beatles, o cheiro na camiseta preta seca no meio do temporal.

Sempre foi sobre ela.

As estações são outras, mas os segundos que vão ficar para sempre, esses vão sempre ser só nossos.

Jusqu’ici tout va bien, jusqu’ici tout va bien... mais l’important n’est pas la chute, c’est l’atterrissage.

Eu também sei ser cafajeste

Nunca vou entender por que você me procura. Se fosse por sexo talvez fizesse algum sentido, pelo menos é o que dizem.

Sabe aquela história de enquanto você vem com o bolo confeitado, se achando espertão, sou dona de toda a rede de franquias da confeitaria? Tipo rede mundial? Então, é por aí.

É que eu também sei ser cafajeste. Sei muito direitinho, e já fui muito. Só não quero. Mentiras, omissões e vieses são prisões. E eu sou livre. Nada pode comprar minha liberdade.

5.11.17

Um ano atrás

Um ano atrás, uma manhã de sábado bem cedo, coreografei uma música para uma apresentação de pole dance para uma academia grande.

Um ano atrás, ainda de manhã, escrevi a (primeira) versão final de um dos meus principais livros. Estava tão inspirada, que escrevi também um soneto, uma carta e o desfecho da minha dissertação.

Um ano atrás, exatamente, veio a tarde e tive o primeiro lançamento de um autor pela minha editora, sozinha, sem nenhum tipo de parceria, só eu e #GodOnTheComand.

Um ano atrás corri depois do lançamento para ir ao Shopping Tijuca catar presente para dois aniversários, que seriam no mesmo dia. Nunca entreguei o presente do segundo, que nem fui, e por acaso era uma blusa que estou usando agora.

3.11.17

O telos da história

Ela entrou de rompante batendo a porta do consultório. Bebi mais um gole do uísque e deixei o copo fora de onde ela pudesse ver. Era assim todas as vezes, ela me aparecia decotada com mil mãos e cenários terríveis de algum homem que não respondia suas mensagens. E com toda aquela ideia de que homens mais velhos devem ser "tão diferentes".

Eu era só um espectador distante do seu jogo, em todas as vezes. Nos últimos meses ela criou o hábito de me fazer inúmeros convites, eu declinava da maioria.

Da última vez, não. Da última vez ela me convidara para uma festa na República em que mora. É, com essa ideia toda de semiadultos se embriagando entre violões e alguma utopia de mudar o mundo lendo Marx em um sofá todo colado de porra.

A bota preta

E já que é seu aniversário...
---

Dia desses, precisando de um texto para atualizar uma coluna e com a dupla falta de inspiração e tempo, fui procurar textos mais antigos não publicados. Vi um salvo com um nome que era uma sequência de letras aleatórias e abri para ver o que era.

Mal comecei, fechei o arquivo, não quis ler tudo. Era melhor que ficasse ali. Sufocado, com um título que não me fizesse criar associações.

O texto me trouxe coisas em que eu já não pensava; me vieram sob a forma de sensações.

Duas

Eu só queria ficar sozinha quando ela apareceu.

Trazia um homem por uma coleira e aquilo parecia um jogo de forças. Talvez ele fosse brat ou um SW que perdeu algum tipo de aposta; mas sub com certeza não era.

Eu brincava com uma das velas que decoravam a festa, na área de fumantes, que, provavelmente devido à apresentação de shibari lá dentro, estava vazia. Era o quintal dos fundos da casa em que sempre faziam esses eventos.

1.11.17

Andar distraído

Fazer acontecer é bom, mas nada é mais gostoso do que deixar a vida te surpreender.

Te encontrar distraído, quando você menos espera.
Bagunçar suas certezas, sacudir suas estruturas já desgastadas.

Mostrar lugares inimagináveis.
Pessoas e situações inesperadas.
Aquelas descobertas que te fazem se sentir vivo...

E rearrumar tudo de um jeito completamente novo.

24.10.17

Excessos... e vazios

Vago. Como sempre, em todos os dias. Até nos meus pensamentos, vagar é só o que faço. E com tanta veemência o faço, que não sei como meus pensamentos não se materializam por aí.

Mas agora isso é bem literal. Vago carregando uma sacola de algum fast-food pela Nossa Senhora de Copacabana. Eu me pergunto todos os dias se seria diferente se eu vagasse na Augusta ou onde quer que fosse. Ou experimentando outras realidades. Mas é uma pergunta tão retórica que me faço já sabendo a inevitável resposta.

23.10.17

Trepada boa é aquela

Nunca vi graça em quem faz sexo estéril, aquela coisa que passaria em testes hospitalares de zero contaminação, hermética, embalada a vácuo. É que trepada boa tem risada, gemido, troca de posição, estalo de beijo, saliva, essas coisas. Não fui eu quem falei isso, mas concordo.

Trepada boa não tem pênis, ânus, vagina. Tem muita convenção e boa educação sendo jogadas no ralo.

Trepada boa é aquela que cheiros e suores se misturam bem ali nas raízes dos cabelos da nuca.

20.10.17

Resenha do livro "Simonal"

Alonso explora as lacunas da concepção ideológica de MPB que se consolidou à época da ditadura, mas, como cantaria Simonal, se apresenta como “um menino de mentalidade mediana”.

Aquele vestido

Sabe, acho que nunca te contei.

Na primeira vez que transamos, aquele vestido que eu estava usando caiu atrás da minha cama e esqueci ele lá. Não é muito higiênico contar que só fui achá-lo muito tempo depois, mas foi o que aconteceu. Eu me esqueci mesmo dele.

19.10.17

A porta fechada

Foi entreaberta que a deixei. Por que agora a porta parece trancada? Eu tenho tantas chaves aqui comigo... por que nenhuma delas consegue abrir de novo? Ela estava escancarada há tão pouco tempo... eu tenho certeza.

15.10.17

021








Um dia na hora do intervalo, vi um rapaz que eu nunca tinha visto antes. Como era lindo, meu Deus. Decretei que me apaixonaria por ele. Ficava procurando ele com o olhar nos intervalos... Ele era mais velho. Uau, um cara mais velho! Que fora da lei eu era, eu tinha 14 anos e ele, 16. Um dia resolvi contar aquilo para minha amiga, que reclamava que eu era muito fechada e nunca falava nada naqueles grupinhos de meninas decantando suas paixões.

“O cara eu gosto é aquele ali.”
“Aquele???”, perguntou ela entre surpresa e incredulidade.
“É, por quê?”

Resenha do meu livro "O (não) lugar do amor"

(Atenção: contém spoiler)

O (não) lugar do amor é uma alegoria do sujeito contemporâneo e suas formas fragmentadas de vivenciar o amor tipificada em seu protagonista. Leonardo, um aluno de um curso de pós-graduação em Comunicação, por ter ingressado em um grupo de estudos, se vê forçadamente trabalhando justamente com este tema: o amor contemporâneo. Assim, a obra é metanálise. Uma questão importante a se considerar é que o livro é a contraparte ficcional de um romance-tese em teoria literária, o que coloca um quadro teórico desde a composição dos personagens até a construção das cenas e situações por que eles passam, e dá o tom intencional do caráter mise en abyme do livro.

13.10.17

1.169km

Eu não queria me apaixonar por uma mulher de outro estado. Ninguém quer; mas eu talvez não quisesse mais que qualquer um. Talvez fosse, nesse âmbito, tudo o que menos quisesse.

11.10.17

Ninguém espera porra nenhuma de uma terça à noite

Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, mas, de uma terça, o que vier é lucro. "Ou não", como já dizia o sábio Caetano.

Começamos empolgados fazendo aquele tour Zona Oeste - Zona Norte do Rio, com a parada estratégica para catar a musa inspiradora das minhas punhetas, Valentina, na Zona Sul, afinal, se é para rodar o Hell de Janeiro em pleno rush carioca, vamos enfiar o pé na jaca legal brincando de ligue os pontos na cidade. E como já dizia uma falecida poeta... "A rusticidade começou..."

Love is a temple, love is a higher law

Estava aqui ouvindo "Tourne" e me lembrei de quando você me apresentou à Shy'm, dizendo que eu parecia com ela.

Você me via em várias pessoas, lembra? Eu entendo, porque ainda te vejo em muitas. Do porteiro do meu ex-trabalho (que, embora você tenha ido lá várias vezes, sequer conheceu, tão embevecidos que éramos um com outro para lembrar das "listas de coisas para conversar") a vizinhos e personagens.

desequiLibra

Dizem que Ar e Água são elementos bem dissimulados, e eu, como boa libriana, endosso o clichê. Mas também como boa libriana, dual, às vezes consigo honrar a "transparência", ou chame como quiser, do ar. É que essa dissimulação não é totalmente verdade quando se trata de extremos.

8.10.17

Sono "de casa"

Sempre tive problemas para dormir com outra pessoa, mesmo que não estivesse no mesmo quarto. Bastava ter outra pessoa em casa e meu sono já ficava perturbado. E, obviamente, uma criança não cresce sozinha (não por padrão), então dormir sempre foi complicado. Acho que para mim representava um tipo de confiança.

7.10.17

Antiquários

Eram gritos sufocados para não incomodar o vizinho que dormia. Rapidamente silenciados por algo que fazia o trabalho mais rápido. A morte em certos momentos é compaixão.

27.9.17

018








Eu o conheci em uma revista, e sabia que estava escrito nas estrelas. Quando descobri que era ator, e estava na novela das oito, virei noveleira no ato, passei a lhe assistir todos os dias. Eu não achava que a nossa diferença de idade seria um impedimento. Tampouco o fato de não nos conhecermos.

25.9.17

Não acredito em coincidências - parte 1

Tinha ido sozinho àquela festa pop no centro da cidade, tequileiros distribuíam bebidas para os convidados os colocando de cabeça para baixo. In the end tocava o seu it doesn’t even matter, as pessoas cantavam em um uníssono assimétrico com braços para cima e glitter no rosto. Eu estava suficientemente bêbado. O mainstream do que precisava para um sábado à noite.
Subi para o terraço, agora era a verdade é que eu minto, que eu vivo sozinho, não sei te esquecer que dava o tom. A plenos pulmões, muitos não esquecimentos se reuniam, um deles era o meu. Pensava na ciranda da vida, na ciranda que são os nossos muitos não esquecimentos.

Menos o amor

Ontem eu estava conversando com uma amiga sobre esta espécie de interruptor que é o amor. O tipo de estalo que te faz pagar pra ver. Porque pro amor não tem meio-termo, não tem “eu acho”. Ou é ou não é. O que você faz com isso, aí é gradação. Mas o amor é sempre um “eu sei”. E esse talvez seja um nó ainda maior do que o sentido da vida. Essa centelha tão precisa que faz toda a diferença. Que produz felizes para até o dia seguinte ou corações partidos. Que produz renda para terapeutas e pais de santo. E toda a tonelada de arte do mundo.
Amor intriga.
Intriga porque, mesmo com toda a evolução do admirável mundo novo e com tudo o que se debruça sobre ele, ainda somos completamente leigos e vulneráveis.

Você vai saber

São confissões, sim, porque são minhas declarações constantes. Elas não são para você, porque elas são você. Aqui. Em mim. Em todo lugar. E você vai saber.
Em uma tradução de livro técnico, em uma orelha de livro que você nunca vai ler, em um artigo acadêmico. Em todo suporte improvável. Se você esbarrar, assim, por acaso, mesmo sem indicação de quem escreveu, você vai saber.

Ela não vai amar você

De todos esses discursos muito na moda ultimamente que enchem nossa timeline no Facebook, um dos que mais me incomodam é sobre a superficilidade alheia. Vivemos em tempos de descarte, não nego, mas é muito raso reduzir nossas lágrimas de pés na bunda a isso.
Prepara o lenço, Netflix, pote de sorvete, caralho a quatro e vem comigo encarar os fatos: as pessoas não são obrigadas a se apaixonar por você.
E se elas não gostam de você, sim, é melhor que não fiquem. É óbvio que dói. Levo pé na bunda desde que me entendo por gente, então sei muito bem que, sim, dói. Dói pra caralho. Mas não culpe as pessoas por não te amarem. Nem você mesmo, aliás. Isso não torna você menor. As coisas não são assim tão dadas.

15h

15h e eu acordava, vacilante de sono pela casa. Na mão, o resto do café que bebi até o meio-dia, hora em que consegui ir dormir terminando um trabalho do dia anterior.
Andei com o copo frio na mão pela casa acolhedora. Vaguei comemorando as ausências. Nunca fui muito bom em morar com outras pessoas. É como fazer sala e sustentar máscaras o tempo todo, uma extensão em menor escala do que o convívio social impõe: sorrisos forjados e cumprimentos por obrigação; tudo em prol da preservação do eu.
Viver sozinho é o que sou. Viver sozinho te brinda com todas as solidões de que a vida se compõe, e isso é bom. Sempre foi o que me fez sentir imerso no real, a total certeza de que ninguém viraria a chave na porta.

O vernissage

Segunda-feira, às 16h, um desconhecido me aborda na fila do café, perguntando de onde vinha meu nome. ZzzZzZz.
Às vezes penso em mentir, é mais fácil do que falar “do Guido Crepax” e, mesmo depois de ter que explicar os muitos “porquês” disso, parecer esnobe e ainda ver o outro ser humano com uma cara tão de idiota quanto a minha nessas situações. (Um desejo oculto: não ser abordada, nunca, em hipótese alguma, jamais, por pessoa alguma, muito menos por desconhecidos na porra da fila do café.)
Ele. Conhecia. Crepax.

Mise en scène

Fazia seis meses que não via Valentina. Meses em que não saberia se a veria de novo. Exatos seis meses desde a última vez que tinha dado uma gozada dentro dela, para ser preciso. Foi de um jeito cru, puro instinto e instante, em um cantinho do Galeão. A memória das contrações da sua buceta volta e meia me vinham de uma forma quase material, sentia no pau a pulsação, e, inevitavelmente, me acabava em punheta, entre os gostos e os cheiros dela na minha mente.
Ela me apareceu leve, agora estava de cabelos curtos, usava um vestido curto. Já li ela inteira quando a vi caminhando na minha direção, sorriso gigante, mordendo o lábio inferior. Essa “leitura” fez o meu pau latejar. Vestido. Eu tinha acabado de sair do carro, no estacionamento do Rio Sul. Ela que tinha pedido para eu parar o carro no último estacionamento, o mais alto, ao ar livre. Pensei que ela planejara algo romântico como me mostrar a vista, com todas as luzes da cidade à noite. Bem, era isso, mas também não era  isso. E tudo me ocorreu naqueles poucos segundos entre sair do carro e ver Valentina vindo na minha direção. Chegamos juntos. O que me tirou direto desses segundos de “suspensão epistêmica” foram sua boca na minha e sua mão no meu pau, as duas chegando quase que ao mesmo tempo.

Não me suponha

Não me suponha. Não me quantifique em estatística enquanto escrevo. Isso são só mundos nos quais quero estar, ou dos quais preciso manter distância. E você nunca vai saber a diferença. Porque quem escreve cria também ausência. Sentimentos inomináveis. Lugares não visitados.
Você não sabe. E não percebe que escrevo sobre o que vejo, mas que não necessariamente está em mim. E que escrevo sobre o que não me pertence. O que me é tão forasteiro que só posso compreender assim: tomando posse quando escrevo.

Como se chama mesmo?

Como se chama quando você sente aquela vontade incontrolável de saber como tal pessoa era quando era criança?
Se era briguenta, marrentinha como hoje. Se sofria bulliyng por ser míope, se já botou fogo na saia de alguma coleguinha, se espiava no banheiro. Se fazia paródias e versinhos, se chorou pela sua primeira paixão. Ou quando o cachorro morreu. Ou se teve cachorro, se odiava animais.


Se era famosinho no colégio, porque com certeza aquilo ali sempre foi lindo (ou será que não?), se ficava no fundo escondido lendo, se não era sociável. Se era chamado de quatro olhos, ou de pintor de rodapé, e se ficava injuriado.

O Príncipe Mestiço

Estava folheando álbuns antigos que achei na casa da minha avó, do milênio passado, porque se sou velha, calcule ela. A antiguidade era tanta que dos álbuns saíam grossas teias de aranha – tais quais às da minha bacurinha – e muitas camadas de pó. Eu já estava até ficando doidonx.
Talvez a antiguidade, feat minha comoção com as imagens, tivesse algum poder místico, porque em dado momento começaram a sair inúmeras criaturas fantásticas dali. Quando vi sair o Robin Williams, pedi que me concedesse três desejos, mas ele tão somente entregou-me uma caneta. Fui anotar lindos dizeres ao lado de uma foto minha bebê perto de uma Casa de Bonecas: “Aaaah oowoowwh aaawwwwh ooonhh você caiu no gemidão do zap fotográfico”, quando notei que o álbum era de fato mágico.

Ainda bebo essa mulher

Valentina,
Tua boca desatina
E o olhar me descortina
E essa raba quando empina?
Eu, sem saber dessa sina
Achando que não a tinha
Sem precisar de um adivinha
Descobri que serei sozinha
Com sua boca longe da minha 

Escrito por Elizabeth

Transitivo direto

Você me disse algo como: “Se não fosse bizarro não seríamos nós.” Está guardado aqui, mas não vou procurar o certo agora. [Está tudo guardado de alguma forma.] Isso é total verdade. Mas não é nosso único padrão. Nós nunca nos despedimos. Já reparou? Nem no dia que nos conhecemos, nem nunca. Interrupção e continuidade.
Mesmo quando saímos brigados, com uma expulsão que cada um insiste em dizer que partiu do outro, ou quando está tudo bem (eu deveria enumerar, porque tudo bem entre nós dois também é sempre relativo). Nós sempre saímos como se fôssemos nos encontrar cinco minutos depois, mesmo sem fazer ideia de quando e se isso vai acontecer.
E eu gosto.

Tumbalacatumba

Acordei ainda chapado pelos festejos da colheita do dia anterior com várias chamadas perdidas no celular e um monte de mensagem de Valentina: “23cm, me ajuda” “Estou com uma emergência”, “Só você pode me salvar”, “Socorr…”
Fiquei assustado, prontamente entrei nela em contato, temi risco de vida.
“Preciso de alguém que me destrua, só você pode fazer isso por mim. Não aguento mais meia-bomba.”
Ela me explicou sua situação urgente. Era de fato uma emergência aguda, vesti meu cocar e pus minha lança pra jogo, e enquanto me locomovia para sua oca, a tranquilizei: “Gata, quando eu cravar minha giromba em você nem Rei Arthur vai conseguir tirar.”

Raça poser

Assim que x vi já pisquei: cabelo e giromba enormes, tatuagem estratégica nas costas, cheio de manias, fora a habilidade com a mão direita. Fiquei assistindo à sua apresentação no evento de cosplay em que estávamos: fazia um cover perfeito do Lars Ulrich, pensei até se tratar do próprio. A imitação era tão irretocável que até o signo era o mesmo. Estava extasiada! Não esperei muito pra dar o bote: Me chama de baqueta e me perde no meio de um show, abordei, já mostrando todo meu conhecimento de causa baseado em maus momentos do David Hasselhoff.

Indícios

Fazia tempo que não nos víamos. Muito tempo. Da última vez tinha sido atrás do bar, no fundo de uma boate em que eu estava tocando. A última e a primeira, aliás; foi o dia que nos conhecemos.
Eu estava apoiada no bar, ele parou do meu lado. Eu virei pra reclamar indignada da fumaça do cigarro, então o vi. Me deu um sorriso sacana, e deu outra tragada no cigarro. Dessa vez desviando a fumaça da minha direção. Ergui as sobrancelhas pra ele, praquela cena, na verdade. O barman me entregou a cerveja, peguei e saí, sem falar nada. Ele percebeu que tinha me ganhado, é claro, aquele sorriso deixava tudo bem claro.

Com gelo e limão

Quando Cupido foi flechado por engano, perturbado com a beleza de Psiquê, não esperava amar alguém mais bonito que a própria beleza. Ele não esperava amar, aliás; toda a vida ele foi só isso: instrumento. Caminho e processo, mas não fim. Psiquê não esperava ser amada pelo próprio amor. Ela só amava o amor, e ele é uma ideia. Era algo estrutural – sempre igual -, não estava aplicado em uma pessoa – funcional. Talvez você estivesse bêbado demais e não vá lembrar minimamente por que faço esta referência a estrutura e função.

Fora, Temer; entra, benga!

Estava empunhando meu cartaz de protesto de “Fora, Temer; entra, benga”, quando fui abordada por ele.
– Nossa, você tem o melhor cartaz dessa manifestação!
Agradeci, sem perceber suas más intenções: jogar spray de pimenta na minha carinha de puta.
– Que porra é essa? – inquiri.
Se justificou na maior cara dizendo que sabia que eu era de direita, e devia tirar a roupa preta que eu não merecia usar. Mal sabia eu que suas reais intenções eram me desnudar. Mas eu estava muito imbuída na causa, e ficamos só mesmo no esquenta-xota, a especialidade dele.

Inescrutável

Quando o átimo é vertido em negativo
E o recorte se apreende e lapida
Essencializa a arte que se eterniza
E a caixa-preta na moldura se revela

Livro 3, Capítulo 9

Pela primeira vez Lavínia não tinha chorado no avião. Era só ponte aérea, mas para maluco isso não faz tanta diferença, não é? Tinha pânico de avião e de falar em público, e foi logo escolher uma profissão em que tinha que passar pelas duas situações com frequência. Lavínia não fazia boas escolhas na vida.
Não chorou, mas jamais passaria incólume. Dessa vez, tivera uma crise de riso e descobriu que era ainda mais difícil de administrar do que as lágrimas. As pessoas iam saber o que estava acontecendo com reações piores do que a vez em que viajou com um namorado e chorava  tanto entre gritos de: “Alguém me tira daqui, não quero” que perguntaram, discretamente, se ele a estava sequestrando.

Perdas e danos

Valentina. Até galinha preta pra exu eu já tinha matado. Inclusive nesse dia perdi minha calça branca preferida, a que eu usava pra fazer cover de Xanddy, do Harmonia do Samba.
O santo falou que não podia mais usar a roupa do ebó, acatei. A voz embargada do santo, no corpo da minha mãe de santo, lembrava a do Eddie Vedder, quem iria contrariar aquela voz ao pé do ouvido? Rodei gira no terreiro em Jardim América, fumei charuto com cachaça pra Zé Pilintra. Nada. Minha mãe de santo, um travecão de mais de 1,90m, ainda mais alto que eu, já tinha dado o veredito: Xangô não quer te dar essa mulher, não, caboclo, você tem muito pouco cabelo, mas se quiser tentar… Fica na casa dos trezento reau.

Nós só temos o agora

Quis me enraizar em você, armar abrigo. Mas somos asas em correntezas distintas. Fôlegos de céus que se dispersam.
No improvável reconhecimento, estranhos. Familiaridade arredia. E na cisão ainda somos um. O mesmo. Prazos, calendários e normas tácitas nos limitam, e só temos ruínas como certeza. O amanhã nos foi roubado. Não asfaltamos a estrada.

Não me acovardo

Valentina tinha me chamado para uma festa bem animal no baixo[nível]-méier, mais um de tantos eventos do underground carioca que gostamos de frequentar; firmeza como sou, não pensei duas vezes, e rumei para o inferninho. Lá também estaria Alê Misteriosa, nossa amiga em comum que há cerca de um ano havia nos apresentado.
Alê Misteriosa não tinha essa alcunha à toa, do alto de seus 1,90m sem salto e de inacreditável mas legítimo cromossomo xx, ela era uma mulher enigmática. Morena de cabelo enorme, olhos intrigantemente verdes nadando na pele bem branca, e um corpo que os pais devem ter transado durante uma sessão de matança de Exu, porque aquilo não é coisa de Deus, tampouco da Terra.

Os superconselheiros amorosos

Não falta quem apareça – sem você pedir – para emitir uma opinião sobre seus sentimentos. Você está na sua, sem “pegar” ninguém e falam que não pode ser assim, tá errado, você tem que “viver e superar”. É, aparentemente viver e superar é isso, não é? Encontrar outras bocas, ainda que completamente vazias. Mas o contrário também acontece. “Nossa, você está ‘numa vibe pegando geral’, está se autodestruindo, não é assim que vai esquecer Fulanx.”
Superar é difícil, e cada um sabe de si nessas horas. Às vezes o luto do “sem pegar ninguém” cura uns, mas para outros só as noites em que a lembrança vai ser “sapinho”, não tem jeito.
Tem os “videntes” também, que falam que foi melhor assim, não era o melhor pra você, vai vir algo melhor ou que é melhor que as coisas não tenham acontecido. Foi melhor assim como se eu só tive uma versão dos fatos? Como você, que não sou eu, pode ousar dizer isso? Isso não consola, só me faz pensar que quem segue essa linha de raciocínio é um completo idiota.

Quem dera fosse

Não cante músicas famosas no meu ouvido
Não brinde comigo as palavras da moda
Não torne minhas marcas madrugadas
Não se verta em bebida no meu quarto

Cuida mal de mim

Um número insistente interrompeu o Araketu que tocava.
“Vem ver Netflix comigo, Val!”. Já começou mal, essa é uma das abordagens que mais me irritam. “Vamos fazer alguma coisa! Já almoçou?”. As investidas não paravam, fui responder bem agradável que detesto ficção, estava trabalhando e já tinha comido, quando veio a frase responsável por amolecer meu coração: “Tô saindo pra comer agora, queria companhia.” Filho da puta! Que golpe baixo. Apaguei rapidamente a mensagem te como se nada tivesse acontecido, e falei que ele podia passar na minha casa, que eu também não havia comido nada.

Analgia

Ontem, assim que cheguei àquele bar, os ecos de você me paralisaram na porta. Ecos, reflexos tolos que se apreendem por aí.
As pessoas que amam seu lado A não entendem o lado B. As que conhecem seu lado B detestam o lado A. Tão careta. Elas são planas e óbvias, todas elas, e você se sente sozinho. Vagando sozinho nessa jornada que é a vida.
Não adiantam sua popularidade ou seus muitos convites para inúmeros eventos no mesmo dia e no mesmo horário, alegorias em pedidos de fotos que devotam um personagem de você que tudo que diz de você é nada do que você é. E talvez você odeie a repetição pronominal na sentença anterior. E toda a cacofonia.
Acontece que não há nada no mundo que te compreenda ou minimamente tente. Os livros, talvez.
Constato esta fatal realidade e vago. Vago pelas ruas com alguma bebida na mão. Risos e vozes passam em flashes de cor. Eles são iguais, eles são todos iguais, repito para mim. Há muitos mundos mais do que a obviedade humana permite viver, e você só vai conseguir vivê-los assim, em fronteiras, sozinho. Porque foi este o decreto.
Constato, apenas constato. E vago. São rostos e estardalhaços. São também possibilidades e propostas. Mas nada te interessa.

Consignação

Peguei você emprestado. Não devolvi, me tomaram de assalto. Ou a assaltante era eu, querendo tornar residente o que era passagem. Não sei em que golpe de bom grado a vida me entregou você naquele 5/11, entregou para uso que, eu não sabia, era temporário. Mas prefiro pensar que a culpa foi minha. Que a vida foi generosa e eu não soube ser grata, que de algum jeito tudo poderia ter sido tão diferente.

Livro 3, Capítulo 5

[…] Lavínia estava em casa fazendo tradução, tinha colocado a mesa bem perto da janela, do lado daquela vista que ela mal conhecera e já admirava pacas. Era bom trabalhar, o que ela de longe mais gostava de fazer na vida, com aquele cenário e o fundo musical constante. Aquilo lhe inspirava todo tipo de paz. O interfone fez com que a opção entre “liberdade” e “independência” para o título de um livro com freedom no original ficasse para depois. Ah, a segurança de protelar decisões. But you pay me no attention, do you?
Não chegou ao interfone a tempo, maldita bota com um salto de traveco prostituto quase maior que ela inteira, e foi ligar para a portaria. Quando se escorou na maçaneta, alguém abriu a porta, que ela não percebeu que tinha esquecido de trancar, e caiu de bunda estatelada no chão.

O dono do bordel

Estava em mais um corriqueiro dia de trabalho entre emendas e punheta quando a avistei. Valentina tinha conseguido ultrapassar o gatekeeper para uma entrevista. De início, pensei se tratar de um ataque epilético e prontamente me pus a auxiliá-la, mas logo notei que aquela produção excessiva de baba, enquanto suava balas, se deu pelo choque que tivera com minha beleza descomunal.
“Oi, eu sou o melhor pra você”, me apresentei, ao que ela repete, “Vamos ser amigos”, eu sorrio e digo, “Sim”. Mas outra verdade se distorce, porque estranhamente ela virou a cara e nas vezes seguintes em que nos vimos mal me dirigia a palavra, até acabei desistindo de parabenizá-la por ter conseguido a vaga.

Pau tocad

Já estava três dias em claro sem saber como projetar minha casa no The Sims e resolvi vagar sem rumo pelas vielas do Centro do Rio de Janeiro para espairecer. Mas era dia de manifestação, o que me pegou de surpresa, e resolvi me refugiar em um bar. Fui ao banheiro, que tinha entrada única, ao me virar para entrar, me deparei com Montecchio, saindo.
Inicialmente, avaliando sua beca cock’s play de festa junina, pensei ser um manifestante de humanas, empunhei meu chicote que sempre está na minha bolsa para me proteger do ritmo de vida ameno do hell de janeiro e já lhe desci a saraivada. Mas vi sua tatuagem #bolsolícia2018 no coccix e pisquei. Me desculpei, afinal, sendo ele de direita como eu, sabe que pau e opinião são coisas que mulher não tem.

Aoristo

Dizem que vale tudo no amor e na guerra
Você chegou para misturar os dois
Real e ficção caminham iguais à paisana
E a culpa toda é do seu sotaque

Bate-fofa

Estava na estrada indo fazer show com a rapaziada da banda, Adryana ficou em casa. Meu amigo EdMottaTatuado, muito comedor, falou que Valentina, uma amiga dignidade dele viu uma foto minha no insta dele e estava querendo me dar. Leonino como sou, não me abalei frente ao convite no face e fui logo puxando assunto com o projeto de beldade. “Você é pisciano?” já veio ela metendo esse papo interessante paca. Não fosse seu olhar de vagaba a la Monica Mattos, a conversa morreria ali.
“Não, sou leonino”. “Anão, anão, leonino não, nem fala comigo mais”. Ela parecia estar em negação, não compreendi muito bem “isso é mesmo relevante pra você falar comigo?” perguntei sem acreditar naquele papo e ela perguntou se eu podia responder algumas perguntas. Disse que sim e já sabia que viria fumo… E de rola! Ela prontamente me mandou o tal questionário [no final do conto], gostei. Achei sensacional, além de traçar um perfil, dava pra saber se a pessoa tinha senso de humor.

Pudera ser você minha casa

Acordei e não tinha você. Era o vazio na minha cama. Vazio que ia de encontro ao burburinho dos meus pensamentos, tão repletos de você. Acordei e não tinha você, mas não era só na minha cama que você não estava. Era ausência daquele cheiro meio doce que me dá a paz de você quando sinto um parecido desavisadamente na rua. Era presença de tantas coisas que nem sei sobre você não estar aqui. Era presença de tudo o que me faz de algum jeito te deixar tão vivo. Era presença do que foge ao meu entendimento sobre você ser essa chama tão inextinguível, incêndio inextirpável de feridas latentes findas em disfarces patentes, explícitos para você nas minhas entrelinhas.

Não atendo telefonemas

Eu não atendo telefonemas. Não, não adianta. Interfone, campainha. Mensagens pelos mais variados meios. Nadinha.
Telefonemas são sempre pessoas querendo. Sua atenção, seu tempo, seu corpo, menos você. As pessoas querem tudo de você o tempo todo, menos você. Elas estão na verdade sempre querendo que você adquira algo delas, é isso, é uma venda.

Cândida lembrança

Estava semimorta na cama após uma noite de balada de quinta categoria, quando recebi sua mensagem angelical. “Vou fazer escala no Rio daqui a pouco.” Meu cu piscou com tamanha ferocidade que sugou todo o lençol, derrubando Ariel no chão, que estava dormindo na cama comigo.
“Caralho, com essa pressão, até já sei quem é. Roque Glamde", disse Ariel se levantando. Era o próprio. Aquela pessoa que te manda mensagem 12h30 e 12h28 você já respondeu. Cheguei até a acordar totalmente com as contrações uterinas mais eficazes que anfetamina. Alimentei Ariel com miojo e água bical, minha especialidade na cozinha e prato típico da casa, deixei o malandro se montando com minhas roupas de prostituta da Atlântica e rumei serena para o Galeão.

Quem dança mais nessa vida?

“Sinceramente, eu não sei quem dança mais nessa vida, se os sentimentais, os canalhas ou os canalhas sentimentais. Se as histéricas, as inteligentes ou as lindamente burras. Eu só acredito nos deuses que dançam, seja no terreiro, nas nuvens ou na pista. Não economize seus calçados, seus pés, suas dobradiças. Nega, contigo eu me derreto qual manteiga, porque eu tenho, tu tens, ele tem.”
Madrugada de um sábado para domingo, voltando de uma balada com um dos meus melhores amigos, me veio o poema que inicia “Tenho”, do Sidney Magal, na cabeça. Gosto bastante deste excerto, mas particularmente eu pensava no começo. “Eu não sei quem dança mais nessa vida, se os sentimentais, os canalhas ou os canalhas sentimentais.”

Livro 3, Capítulo 3 - parte 2

Lavínia não aguentava mais rolar no sofá entre músicas de gosto duvidoso e chocolate. Não tinha encontrado nenhuma loja aberta para comprar a cama, depois do café na livraria com Elizabeth. Talvez no sábado? Estava tão acostumada ao ritmo de vida frenético, que era estranho demais ficar à toa.
Tentou escrever, mas nada saía. Não sabia se era uma fase sem ver poesia nas coisas, ou se só andava “engolindo muito”, mas havia uma seca de inspiração. Nem o blog atualizava, agora ele estava permeado só por textos de Carradine, o máximo que Lavínia fazia vez ou outra era a contribuição do “plot” ou de um título eventual. Carradine era a pessoa mais criativa e perspicaz do mundo, mas tinha um fraco para títulos.

E se... ou A única exceção

Texto mais antigo, original e na íntegra, do qual surgiram Enarmonia, Antonomásia, Desejo da noite (na taverna) e, em alguma medida, Não acredito em coincidências (todos no blogue, em Cartas a Elizabeth).
---
Tinha dois aniversários no mesmo dia. Um estilo “balada”, outro, mais familiar. Eu estava mais para a segunda opção. Prometi que passaria no “balada” mais tarde, mas me despencar da Tijuca para Botafogo não estava em meus planos, muito menos para qualquer ambiente estilo inferninho. Depois do aniversário, meio alcoolizada, cedi às pressões de Ariel para irmos a uma boate.

Estese

Latejam na minha garganta com crueldade
Seus cheiros e marcas que me devoram
Me dilaceram e escorrem pelas pernas
Aquietando o gélido incêndio em orgasmo

Essa trembolona é creatina

Como o conheci na academia em que eu treinava, o chamarei de Cintura. Ele era professor, um dos mais cotados e lindo. Altura mediana, coxão, fortinho na medida certa e carinha de nerd, com óculos, totalmente meu número. Já me chamou pra sair na maior pressão “vamos pra um bar hoje à noite e direto pra praia amanhã de manhã”. Ousado. Entendi o recado. Fui toda trabalhada na maldade. Depilação cavada, Vagisil, unha feita, até cotonete usei! Ele me buscou em casa, e já foi logo me beijando. Sendo eu a maníaca do zodíaco, já pedi logo o mapa “sou peixes com ascendente em touro, lua em…”, “Anão!” Peixes parecia até sacanagem, nem quis saber o dia, mas ele falou mesmo assim. Pegada que segue, a coisa tava bastante digna.

Você deixa?

Eu escrevi muitas coisas para você. Muitas sobre você. Muitas sobre outras pessoas, mas que eram você, ou nas quais você estava presente. Você duvidou quando viu, ou as entrelinhas eram “explícitas” e óbvias demais?
Eu te mandei algumas coisas, publicadas ou não. Mas tem muito aqui guardado, salpicado nos meus arquivos do bloco de notas na área de trabalho. Arremedos de livros e contos, eróticos ou não. Crônicas, sonetos e alguns pensamentos esparsos. Coisas em que tento colocar humor, falhando na maioria das vezes.
Eu publiquei muitas coisas que eu queria te falar “but I don’t know how”. Por que é muita “coincidência” ou só meu desejo que seja você o wordpress indicando visualização do DF?

Você pinta como eu pinto?

Eu tinha mudado de emprego recentemente, e ainda não estava habituada às performances conceituais que aconteciam na galeria. Minha ideia de arte, por assim dizer, era mais clássica.
Soube que na semana seguinte receberíamos Macaquinho Performance, e comesçei a preparar o terreno para os artistas, muita vaselina, lenços umedecidos, teste de HIV, purpurina, quadros do Romero Britto, League of Legends e Gloria Gaynor para todo mundo se sentir em casa.
No dia da apresentação, pouco antes de começar, o responsável veio falar comigo para ajeitarmos os detalhes. Apesar de hétero, era lindo. Um espécime de origem folclórica apinhado de pintas e sardas, meu fraco. Se chamava Goiabinha.

Epitáfio

Livre, uma borboleta de asas tortas
Fugida do seu leilão de estimação
Às moscas, o fio de devaneio não nego
Mas evidente é a ferida que seca

Foda poética

Era dia das crianças, com o feriado na sexta, e fechei contrato para os 3 dias com um shopping em uma região, digamos, bem afastada da civilização, nunca entendi o sentido daquele shopping no meio de uma estradinha simplória de terra. Levaria minha equipe para fazer teatro e animação, com direito a maquiagem artística, bola mania, brindes etc. Sempre gostei de trabalhar com equipe pequena, mas esse evento pedia mais gente. Então meu fiel escudeiro Bonilha arrumou mais dois candangos para o malfeito, um deles, lindíssimo. Alto, loiro, olhos entre verde e mel, de nome Mulher do Nem. Assim que o vi já pisquei. Que delícia aquele homem!

Livro 3, Capítulo 3

[…]
Ah, Brasília. Lavínia aterrissou no aeroporto com o cheiro do improvável. Desceu também secando as lágrimas do pânico de avião. O jeito era confiar na indicação do tal editor, foi tão solícito vendo o apartamento, tomara que fosse mesmo decente. Chegou e o apartamento era bem bonito, e maior do que ela imaginava, com a vista linda típica do Jardim Botânico.
Não era pra essa porra ser mobiliada?, falou consigo mesma reparando que o apartamento era, de fato, todo mobiliado, exceto por um simples móvel que faltava: a cama. Para quem tinha morado alguns meses naquele conjugado em Não fiz nada pra merecer Niterói, meu Deus!, aquele sofá estava ótimo. Ele era quase maior do que o conjugado inteiro. O apartamento de Brasília era bem maior do que o da Rua das Laranjeiras, aliás, embora se ela pudesse escolher teria ficado lá. Que merda que ela ia fazer em Brasília?

Poeta agramatical

Cauby, uma amiga minha dona de um jornal bairrista e viciada em negão, me chamou pra cobrir um evento com ela, como fotógrafa. Minha câmera não estava boa, ela me disse para que eu não me preocupasse que teria que ser com a dela mesmo. Em lá chegando, recebi uma kodak 36 poses. Sim, de filme. Deus me livre acreditar que aquilo estava “acon te seno”, mas estava. Fiquei na entrada com a câmera enquanto ela subia pra fazer nossas credenciais. Avistei 7 dias. Um negão de 2,15m (sei que é difícil, mas esse número é real). Já me mediu inteira na minha beca puta-santa (vestido mais curto que meu orçamento a partir do dia 5, mais justo que Deus, mas com meia fina por baixo pra equilibrar), não resisti e lancei bem pedreira “boooaaaa-noooitee”, ele me cumprimentou de volta e entrou, dando severas olhadas pra trás.

Antonomásia

Peço redenção das suas aliterações
E dos hipérbatos que ele torna estáveis
Quando na pele a sinestesia traça a rota
Em pleonasmo, completa minhas referências

Uma mão lava a outra

“Provavelmente meus ávidos leitores devem esperar por uma narrativa de uma boa foda ou de uma cravada na minha dignidade, uma história de furada. É verdade. Tenho muitas desse tipo pra contar ainda, mas em outras ocasiões. O 7×1 da vez foi de outra ordem, o que não deixa de ser uma derrota daquelas. Vamos então nos embebedar neste conto? Bora?!?
Decidi no início da semana ir a uma baladinha. Comprei os ingressos, chamei os amigos. Vez ou outra, um deles dava pra trás.  Era um tal de “vô” “num vô” que eu já tava ficando puto. Da Tijuca, no dia da festa, peguei um uber caríssimo, gente, tarifa dinâmica é o ó. E pra onde, irmãs? Algústica, claro.

Aquele cara

Eu o conheci no improvável. Entrevista de trabalho, em uma das piores áreas da Zona Norte do Rio de Janeiro. Ele me deu bom dia. Só isso bastou. Eu sabia, eu simplesmente sabia. Era ele. Que maluquice! Eu nem sabia o nome dele.
Voltei lá outras vezes. Descobri o nome, descobri semelhanças, descobri discrepâncias, descobri desejos. Descobri seu lado pervertido e seu lado metódico. Descobri que You showed me things they never told me at school podia definir muito bem. Também descobri o seu lado evasivo. Descobri que eu estava completamente perdida. E não sabia se poderia de novo me encontrar. Eu não sei.

Vazio

“Permaneço sem amor, sem luz, sem ar”.
Depois de uma tarde de rock, assistindo a tudo que eu nunca terei, ouvia D’black, porque era aquilo que definia meu sentimento nos últimos meses.
Assisti ao espetáculo da impotência, das mãos atadas, das perdas daquilo que nunca se teve.
Assisti. E assisti ao rebuliço de sentimentos em mim. Apesar de tantos, gritando, me rasgando, em confluência, tudo o que eu era era isso.
Vazio.

Desejo da noite (na taverna)

A editora em que eu trabalhava estava cada vez mais pitoresca na captação de novos autores. Meu chefe me fez uma designação no mínimo inusitada. O autor que lançaríamos no mês seguinte seria nada menas que Álvares de Azevedo. Sem querer ser indelicada, tentei explicar para o meu chefe que havia um pequeno detalhe que nos impediria de publicá-lo.

Ode... io

Eu odeio te admirar, e gostar do seu jeito completamente chato.
Eu odeio sentir falta do seu jeito metódico e meio ranzinza, mesmo que isso seja tão pouco divulgado, camuflado por aquele lado B das madrugadas regadas a álcool.
Eu odeio permitir que seu lado B das madrugadas regadas a álcool igualmente me fascine.
Eu odeio como você usa vírgulas de estilo, e o fato de você usar impecavelmente caixa alta e hífens.

Foda quebra-mandinga

Já nos conhecíamos há mais de dez anos, já tivéramos até um namorinho no passado, porém nunca  tínhamos transado. Nos aproximamos em função de nossos trabalhos e alguns sentimentos voltaram rasgando. Apesar disso, eu não estava muito inclinada a dar para Páris, eu não botava fé em sua performance e ao seu lado minha xavasquinha ficava mais seca que o DESERTO DO ATACAMA.

Desgraça pouca é bobagem

O 7×1 começou quando estava eu em uma festa de família, ambiente crima ameno no play do prédio residencial, quando começa a tocar nada menas que “I was made for lovin’ you”.
Achei que estava confundindo a música nada a ver com o ambiente. “Cara… isso é Kiss??”, “É, sim, o Lucas gosta”, me disse minha amiga que estava comemorando o aniversário junto com a mulher dele. Ok, vida que segue. Lucas e um amigo resolveram fazer um showzinho durante a festa, preciso nem falar que fui brindada com novas músicas do Kiss, outrora uma das minhas bandas preferidas, agora me lembrava Ele.

Enarmonia

Queimando em minhas roupas distopia
Sua mão dedilhava lânguida minha coluna
No chiado dos silêncios que tudo satura
Lutam suor, sina e anseio; e sou teoria

Brochada de veraneio

Eu estava a trabalho em Angra dos Reis, e ele, que tinha casa lá, curtindo as férias. Sempre senti que rolava uma química entre a gente, desde quando nos conhecemos, uns três anos antes disso, e pra mim a trepada prometia. Ele foi me encontrar durante o expediente e já me deu um amasso feroz pra eu ficar esperta. Como eu só teria que estar no Rio no outro dia e ele também voltaria, me convidou para dormir na casa dele, e por lá fiquei.

Essa trepada merecia um Oscar

Em referência ao seu talento peniano, o chamarei de Oscar. Ele era o diretor de uma cia de dança em que eu acabara de entrar e já fui logo ficando esperta vendo o que me esperava. A academia em que trabalhávamos ficava um pouco afastada da cidade, e a iluminação era precária, feita a lampião. Na primeira semana, faltou gás durante a aula, no ato, ele foi me rebocando até um canto, me jogou ali e ficou segurando meu braço. “Oscar, tem alunos na sala!” / “não interessa, vou te traçar agora!”. Aquilo me deixou piscando de um jeito… Mas disfarcei, fiz uma cara bem séria fingindo que não tinha gostado e me esquivei.

Cura ou Sim, é para você

O bloco de notas estava aberto naquela mensagem de aniversário. Na verdade, a única coisa que eu tinha escrito era o desfecho: “É que eu me encontro na sua bagunça.” Como se precisasse de muito mais do que isso para dar o recado. Como se isso não fosse completamente suficiente para definir tudo.
Fechei, excluí o arquivo. As fotos e as palavras não ditas. Eu excluí também os meus planos. Tinha que ir à universidade entregar a versão final da minha dissertação. As imposições do cotidiano sempre te tiram de determinados lugares mentais, o que deveria ser bom, mas para mim só reforça o quanto a vida é ingrata.

Abismo

Nas vestes brancas o sangue respingado
Da vida inocente extirpada e despida
Agonizando ainda quente no piso frio
Por um capricho de um coração desesperado

Rapunzel, joga a benga

Em um reino distante, vivia Rapunzel, a princesa com as maiores e mais belas madeixas de todo o reino. Conforme rezava a lenda, suas madeixas eram ainda maiores que a minha fome. Por um capricho da inveja da rainha, Rapunzel fora presa no alto de uma grande torre, maior do que o Obelisco e o pau do muso que inspirou esse conto juntos.

Indo de Ré sem Dó

A primeira vez que saí com Jimi, ele me levou a um show de um amigo dele e já foi logo mostrando a que veio. Ele não se intimidou com o ambiente familiar, com crianças e idosos em volta, tascou logo a mão na minha coxa e me puxou em um beijo ávido. Fiquei confusa (e com colcheia), a língua estava lá, porém era pouco representativa e fiquei me perguntando se a boca gélida era decorrente da cerveja. Fiquei um pouco assustada com aquela movimentação ousada pro lugar em que estávamos, do nada, mas relevei. Já que ele estava tentando uma abordagem mais incisiva, sugeri que fôssemos pra algum ambiente mais propício e ele, serelepe toda vida, logo me arrastou para seu apartamento.

O que foi sem nunca ter sido

Ele me surgiu como as melhores coisas da vida, sem dar aviso. Como se tivesse sido condensado do ar, de algo que já estava lá e só me faltava perceber. Bom dia. (Ou seria bom-dia?) Foram as palavras que trocamos. Tive que virar a cabeça e olhar de novo. Nossa, pensei. Foram poucos segundos. Suficientes para minha mente formar aquela combinação de tatuagens, músculos, cabelo comprido, óculos e sardas. Puta merda. Óculos e sardas. Puta merda, puta merda! Para de olhar, cacete, você veio para uma entrevista de emprego, você está maluca?!, minhas muitas eus em guerra dentro de mim.

Cálculo 69

Para preservar sua identidade, o chamarei de Guilérrme. A primeira vez que vi Guilérrme, na UERJ, fiquei completamente molhada. Ele trajava uma calça social ajustada ao corpo que marcava ligeiramente o instrumento de trabalho, uma camisa social listrada de azul e branco e puxava só com um braço uma retroescavadeira. Fiquei extremamente umedecida com a virilidade daquele homem e também um pouco preocupada, logo me ofereci para auxiliá-lo a subir pela rampa, mas ele me disse que estava acostumado e que preferia pela escada mesmo, dava mais emoção.

Toda a simbologia do mundo

Entre identidades anônimas e irrelevantes
Na dele, o encontro das certezas
De riso fácil e venenos reais
Embolando glitter e cabelo comprido

Gata Borralheira

Desde que ficara órfã, na tenra infância, SimRemela foi adotada pela viúva de seu pai, sua madrasta Morgana. Vivendo uma existência penosa regada a inveja e requintes de maus-tratos, a rebenta ilegítima não possuía muita esperança em seu coração, só lhe restavam as longas noites de siririca zoófila com os animais que eventualmente surgiam na casa de higiene duvidosa, lagartixas, baratas e, principalmente, picadura de pernilongos, a única pica dura que via em séculos, considerando que atraía brochadas e fodas meia-bomba.

Carta a um amor não correspondido

Não é falta de educação. Não é raiva, não é mágoa. Não é sequer implicância ou desejo de chamar sua atenção. Eu só estou tentando aprender a conviver com tudo isso. Essas coisas simplesmente acontecem, você mesmo disse.
Aconteceu para mim, e, para você, não. 

Preciso falar sobre Fulano

Entrando na onda de Duvivier, Bastos e afins, preciso falar sobre Fulano.
Conheci Fulano em uma boate de suingue e era segunda-feira. Eu, morrendo de tédio pela mistura de gente feia e DST à espreita no ar, perguntei se podia chicoteá-lo assim que o vi saindo do banheiro. “Que homem feio, meu Deus”, pensei, “e ainda é alto pra caralho” (tenho ligeira tara em homem baixo). Eu jamais ficaria com ele. De início, ele disfarçou e eu insistente perguntei qual era o signo. Que abordagem caída! Mais caído ainda era ele ser ariano e ficar surpreso por eu saber o que é uma senoide. “Fiz ensino médio”, foi minha resposta. A noite seguiu permeada de rusticidade, peguei ele em conjunto com minha amiga, era o que tinha pra hoje.

Adão e Eva e o purgatório

Era Carnaval e eu, virada no capiroto pela inóspita idade dos 27 anos, resolvi botar em prática um antigo sonho da infância, sair em algum bloco vestida de Eva, trajando apenas folhas de parreira. Pra ficar legal (não era o pagode na Cohab no maior astral), precisava de um Adão e o cidadão que estava me traçando no momento era muito enfraquecedor, então iniciei uma campanha em massa conclamando algum sujeito que topasse a empreitada.

Me chama de Lacan e me analisa

Credis já não suportava mais as constantes crises de ansiedade que eu estava tendo, e me recomendou fortemente procurar um especialista; ir para minha casa todo dia às 3h da manhã levar Lindt e as mais variadas Jung foods já estava insustentável.

Um sádico, um virgem, um feiticeiro

Eu o conheci em um aplicativo de relacionamentos, em um mau momento da minha vida. Pra chocar e afastar, como gosto de fazer, já lancei de cara, em resposta ao seu “oi! o q?” “você é parafílico?” e ele respondeu que sim, que era um Dom Sádico de BDSM. Aquilo me deu múltiplo tesãozinho. Não só na área sexual mas também pelo fato de eu estar pesquisando BDSM academicamente e ter com quem trocar é sempre muito bem-vindo.

Sobre rompimentos com escritores

"One Last Breath
Ela nunca poderia ser minha. Na verdade, nunca poderia ser de ninguém. Era uma partícula de hidrogênio. Só poderia ser sentida, era vital à vida. Aprisionada nunca. Uma fissão nuclear aconteceria.

Analking e a lâmbda maravilhosa

Analking era um rapaz de origem pobre mas de coração nobre, foi assim que Deus o fez. Devido a sua situação precária, roubava dos mercados de onde morava, na Alta Cavalcante, para garantir o sustento diário. Em uma das suas incursões pela feira para afanar o alimento do dia, foi pego por um dos comerciantes que já o manjolava há severos tempos.

Empoderando a minoria

Sempre fui uma pessoa muito questionadora das imposições sociais e, assim que ingressei no curso de Antropologia, na UFRGS, tudo isso veio à tona. Lá, já no primeiro período, montei um coletivo com outros estudantes para lutar na defesa das minorias, regada a muita maconha com conversas sobre Carlos Marcos. Nosso coletivo optou por se desprender da opressão da propriedade privada e passamos a morar em um acampamento que montamos no campus.

Quem com consolo come...

Há cerca de quatro anos conheci o Enrico, engenheiro a trabalho no Rio, branquinho, altura mediana, inteligente, bem-humorado e com uma piroca destruidora – bem, era o que eu pensava. Enrico tinha todas as características de um cara que prometia. Mais ou menos dois meses já saindo com ele e nada de rolar a pentada violenta, parti para o
ataque, tentando uma abordagem suave porém mais direta “Quero te dar há mais de um mês, me come que não tá dando, não. Por que você tá fazendo isso comigo?”. Acho que ele entendeu o recado, porque me convidou para dormir na casa dele no mesmo dia.

Amores e domingos

O tédio é o azeite que lubrifica o poder da criatividade, disse ele.
E sob seu efeito eu me encontrava naquele 1/5. Era domingo e ninguém é feliz no domingo. Muito menos ouvindo trilha sonora de filme baseado em um arremedo de literatura erótica. Mas “touch me like you do / love me like you do / what are you waiting for?” nunca faria tanto sentido. O bloco de notas aberto na minha frente para atualizar o blog.
A quem eu estava tentando enganar?
Nenhum tipo de inspiração para contos me vinha desde aquela fatídica quarta-feira, 13. 13. Que ironia. Quarta-feira. Nada significativo deveria acontecer em uma quarta-feira. Muito menos advindo de sexo, o que me esforcei tanto para banalizar. O improvável deixava a sensação de rasteira do destino ainda maior. E eu remoía os fatos, tentando buscar em que trôpego instante exatamente eu permiti que aquilo acontecesse. Ou inevitavelmente teria acontecido? E se eu? E se. Respiro.

A derrocada de um monstro

Desde pequena, nunca fui um ser humano, mas uma panicat. Graças ao treinamento desde o ventre e às mamadeiras de whey que meus pais me davam, desde o início fui inclinada a ter uma vida saudável a base de muitos esportes radicais e injeções de estanozolol nos glúteos. Cresci, e minha rotina não foi diferente. Viciada em escalada, parti a procurar novos destinos para minha empreitada, já cansada de lugares comuns como o MONTE FUJI e o Everest. Mas o que eu não sabia é que o que estaria por vir mudaria totalmente o rumo da minha história.

Ainda bebo esse homem

Ah, Brasília, me brindaste com devassidão
Da mistura inócua de trevas e solidão
Vês, ninguém assistiu à nossa saliência
Do formidável enterro de qualquer decência

015








Eu sempre detestei ele. Para a minha total infelicidade, era filho da melhor amiga da minha mãe, e em todas as malditas férias e nos malditos feriados, bingo, estávamos juntos. Ele até prestou um serviço à minha vida. Me ajudou com “defesa pessoal” de forma prática, porque nós sempre caíamos no braço.

A fábula do Tiê-sangue

A pequena Gaio-azul escondia bolotas de carvalho para comer posteriormente e, quando voltava ao local e via que elas haviam florescido em majestosos carvalhos, ficava frustrada pelas bolotas que foram perdidas. Mas esse era o ciclo inevitável da natureza, e os ramos desses carvalhos mais tarde abrigariam outros pássaros.

De volta para o pau duro

Emético Paun trabalhava em seu audacioso experimento de um carro que era capaz de realizar transporte no tempo quando seu pupilo Mário MtVai surgiu aos prantos.
– Mestre, o cocô que minha crush Credislaine Carradine fez no vaso não desceu nem com DIABO VERDE, não sei mais o que fazer.
– Usou DIABO VERDE da maneira correta, moleque babaca?

O Lucky Strike azul

Do alto do décimo andar, eu fumava. Fumava um Lucky Strike azul. Comprei um maço igual ao que ele deixara na minha casa, junto com o isqueiro.
Caralho, eu não fumava desde 2011!!!
Não, era mentira.