25.9.17

Cândida lembrança

Estava semimorta na cama após uma noite de balada de quinta categoria, quando recebi sua mensagem angelical. “Vou fazer escala no Rio daqui a pouco.” Meu cu piscou com tamanha ferocidade que sugou todo o lençol, derrubando Ariel no chão, que estava dormindo na cama comigo.
“Caralho, com essa pressão, até já sei quem é. Roque Glamde", disse Ariel se levantando. Era o próprio. Aquela pessoa que te manda mensagem 12h30 e 12h28 você já respondeu. Cheguei até a acordar totalmente com as contrações uterinas mais eficazes que anfetamina. Alimentei Ariel com miojo e água bical, minha especialidade na cozinha e prato típico da casa, deixei o malandro se montando com minhas roupas de prostituta da Atlântica e rumei serena para o Galeão.

Avenida Brasil pra pobre não é fácil, no domingo então só 7×1, não sabia se era mais difícil fugir do singelo vendedor de alho, da criança resfriada espirrando e vomitando, do bebum da noite anterior cravando aquelas pérolas de “Ô, lá em casa” ou do trombadinha cracudo prestes a roubar toda minha fortuna que totalizava dois reais.
O trombadinha parecia a mais amena das opções, deleguei ao oculto meu destino, coloquei no ouvido o fone de dez reais que desde a compra só funciona de um lado e fui, empolgada para reencontrar Roque Glamde. Mas esse encontro não foi assim tão fácil, quem já experimentou juntar Peixes e Libra me compreende. Um é aéreo, o outro também. Um é desligado, o outro também. E o Galeão é grande, temi que nos perdêssemos em um lapso de outra dimensão.
Após severas mensagens meigas de “Cadê você, caralho?”, nos encontramos. Quando o vi, já elogiei: “Quis me agradar, né? Você tá bem… viado” e aproveitei pra tentar tornar Roque Glamde meu autor; workaholic, não perco uma oportunidade, já fui mandando papo maneirão de trabalho e outros assuntos tão interessantes e brandos quanto, não sei porque ele dormiu de babar em cima do prato e tive que acordá-lo com gentis esfregadas dos meus parcos peitos na sua cara. Muito patriota, logo ele estava em posição de sentido.
Sou muito altruísta e odeio desperdiçar ereção, sugeri que arranjássemos um beco bem discreto pra ser arregaçada por aquela vara. Latejava de desejo insano por ele desde a última vez. Foi muito difícil entrarmos no quartinho. Disfarçar pros funcionários, ok, mas carregar sua benga enorme porta adentro foi penoso demais. Mesmo tendo sido campeã de arremesso de peso na tenra adolescência. Sorte que por ser uma delicada área de carga do galeão, tinha um macaco.
O animal adestrado trabalhara outrora como aviãozinho no morro e, mais forte que eu, conseguiu carregar tranquilamente a benga, não sem antes me cobrar aqueles dois reais pelo serviço, filho da puta!
Fui logo esfregando minhas vergonhas na cara de Roque Glamde, que, não comedido, caiu de boca na minha Baía de Guanabara. Ele deve ter superpoderes, é só se aproximar que gozo mais que queda d’água da cachoeira do Horto.
Virei minha tatuagem “oh, fuck yeah, punheteiro mais rápido do Oeste” na bunda pra ele entender o recado e apoiei as mãos na parede de azulejos. Estava tão imunda que fiquei sutilmente colada. Ainda bem, não fosse isso eu jamais teria me equilibrado com aqueles sopapos da vara descomunal rasgando a minha esquizo xoxotal.
Assim que acabamos , notamos uma pequena câmera, e então percebemos que o tal quartinho era uma sala de treinamento na selva, televisionada para todo o aeroporto. Mesmo não sendo da tripulação, ganhamos o prêmio honoris causa por sobreviver à selvageria sem precedentes e fomos muito ovacionados; guardo até hoje com muito carinho essa cândida lembrança.

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