25.9.17

Com gelo e limão

Quando Cupido foi flechado por engano, perturbado com a beleza de Psiquê, não esperava amar alguém mais bonito que a própria beleza. Ele não esperava amar, aliás; toda a vida ele foi só isso: instrumento. Caminho e processo, mas não fim. Psiquê não esperava ser amada pelo próprio amor. Ela só amava o amor, e ele é uma ideia. Era algo estrutural – sempre igual -, não estava aplicado em uma pessoa – funcional. Talvez você estivesse bêbado demais e não vá lembrar minimamente por que faço esta referência a estrutura e função.

Mas meu ponto é que eles não sabiam que haveria um depois. Nós também não sabemos, porque só conhecemos o processo. E com o que nós precisamos lidar é sempre com o depois. A vida, apesar de processo, é destino e desfecho todos os dias. É o veredito diário da rotina. Mutável. Mutável, sim. A cada novo momento, a cada novo acontecimento. Todo o resto já foi e o agora recria novos mundos. Tudo muda. E todo o processo, no entanto, é também sempre isso: desfecho. Mesmo do que fica latente. São desfechos todo o tempo.
Cupido e Psiquê pararam nas maldades dos deuses. E isso tudo é besteira para quem precisa criar histórias para dar sentido ao mundo. Mas as próprias palavras já são mitos por si só. Nós paramos na maldade do tempo (sim, a referência é essa mesmo). Os dois, tanto Cupido quanto Psiquê, sempre foram plenos. Mundos inteiros que se complementam, ou se transbordam. Mas não parece fazer sentido os dois separados, mesmo que amor não seja só beleza. Mesmo que sentimentos escuros sejam também belos e no final tudo isso seja redundante de algum jeito. É que amor e beleza, como nós, são unheimlich. Unheimlich como o toque em um sonho que você teve, como o toque no meio de uma rua que eu jamais vou saber qual é.
Unheimlich. Sim, eu tive que procurar no Google essa palavra. (Ou “esta”, mais bonito e mais certo. Digo “mais certo” porque até o certo é corrente, opinião. Corrente. Gosto desses muitos sentidos. Mas as correntes vou deixar para o decorrer do texto.) Eu não sabia como a escrevia. Você acha banal eu ter conhecido essa ideia na fila de um Mcdonald’s de shopping e não em uma noite na taverna? Ou todo o mistério da vida se desenrola justamente nisso? Na costura de situações não propícias, em retalhos e fios de labirinto perdidos?
É que nossa familiaridade é totalmente unheimlich. Nós somos tão, tão opostos. Tanto que parecemos o mesmo. Gêmeos, como todos falam. (Mas os gêmeos do signo são justamente os opostos, não é isso?) Apesar de essa semelhança, para nós, não estar nada na aparência. Nem no cabelo, nem no batom. Nem no nariz, nem nas mãos. É semelhança na nossa ebulição e na nossa quietude; mas mesmo elas se desencontram. Eu fervo onde você é paz. Sou calmaria onde você é excesso. Você é precisão forçadamente transformada em caos. Perda e desencontro de propósito(s). Eu sou tentativa (frequentemente frustrada) de colocar a bagunça na linha.
Somos tudo errado.
Tudo errado na e para a vida. (E em certa medida até acho que seja este o certo.) Tudo errado um para o outro. Somos o nunca daríamos certo. Somos o nunca ficaríamos juntos. Somos também o teríamos o mundo juntos. Somos o nos entenderíamos em um nível inimaginável juntos. É, é isso. Tudo que somos é isso: condicionais.
Sempre vai ser você, e quero acreditar que sempre serei eu de algum jeito. (Você mesmo falou que tô há tempos tentando.) E, no entanto, nunca seremos. Não acho que tenhamos mãos atadas. Sei que temos escolhas; por um lado, você tem mais. Por outro, eu. No final das contas, estamos nivelados, é o que penso. Mas não as faremos, não é? Nós nunca escolheremos. Eu não posso culpar você pelo que eu também não vou fazer. Na verdade, eu entendo. E isso não representa uma falta. Sobre você, não tenho faltas. Sobre você não tenho nem sobras. Porque no final das contas, mesmo tão torto desde sempre e o tempo todo, enviesado e vacilante, tudo se encaixa, tudo faz sentido. Unheimlich.
Talvez você nunca leia isto, e minha previsão, como falei para você, esteja totalmente certa. Só foi no timming errado. Maldito timming. Odeio bem essa palavra, e disso você tem culpa, sim. Não é sem dor que escrevo isso, mas fazer o quê? Talvez você leia, nada fale, ou sequer goste. Talvez nosso contato só vá acontecer novamente quando eu não suportar mais ter você só nas minhas linhas e te mandar uma mensagem de um quarto de hotel em outro estado, inundada de festejos, sorrisos e toda a falsa alegria do mundo.
Digo falsa porque ela está à minha disposição o tempo todo. Mas como estaria essencialmente dentro de mim? Me fala. É um pouco do que falo sobre morar no Rio de Janeiro. É impossível ser infeliz no Rio de Janeiro. Estar aqui é uma das poucas (em muitos momentos foi a única) coisas que me dão aquela paz de estar em casa. Aquela paz de que viver faz sentido. Ver e sentir o Rio. Estar aqui, respirando o Rio de Janeiro. Respirar o Rio de Janeiro é minha melhor fuga para todas as coisas. E por isso eu precisava estar aqui, entende? É meu decreto: é impossível ser infeliz no Rio de Janeiro. E, no entanto.
Mas, sabe, não é infelicidade. Angústia, amargura, ou a corrente de filiação que quiser usar aqui. É só cinza. A cor mesmo. Cinza e nenhum tom. É um pouco do que uma amiga escreveu sobre nós dois, usando a metáfora da morfina. Quando a dor é interrompida, e volta, parece que dói mais. Não, não meixmo. (E como não achar lindo você palatalizando o S sem nem perceber a ponto de mesmo do meu lado perguntarem se você é carioca?)
Ela sempre vai ser lancinante do mesmo jeito. Só que depois que se experimenta a analgia, você percebe tudo de uma outra forma. Ela foi bem precisa, você é meio minha morfina. Meio. Ah, quem eu quero enganar, não é? É que você é cor em coisas banais, só porque seu cheiro tá me invadindo tão perto. Bares de quinta, microfones de caraoquê estourados, conversas com mendigos de outros países e boates que não nos deixam entrar não são nada de extraordinário. Mas como não teriam beleza? A nossa percepção está além da materialidade das coisas.
É claro que isso é óbvio. Mas não é óbvio ter saudade de uma bebida barata. De uma espera na fila. Não é óbvio amar uma cicatriz mais do que todas as tatuagens. Ela também é uma tatuagem. Uma que aconteceu de uma forma que não escolhi, só aconteceu e foi. Assim como você. Entende por que amo tanto essa cicatriz? Por que não foi tanto brincadeira dizer que ainda tenho o outro lado das costas “livre”? É o potencial de prazer e felicidade da dor. Ou talvez eu não queira certas liberdades. Ou queira, mas elas só parecerão livres de verdade se forem com você. Você me disse exatamente isso, mas de um jeito completamente diferente. Mas, no fundo, foi isso. Só é liberdade de verdade se for com você junto. Isso eu que digo, porque é tudo que queima dentro de mim. Queima agora. Mas não de agora.
Você gosta de metáforas complexas, e ondas que já foram parecem banais. Mas o que tentei te dizer, mesmo com o álcool excessivo em mim me impedindo, é que ela já é perfeita, porque, apesar de você ser todo água, em Brasília não tem mar. Apesar de eu não ser nada água, o Rio de Janeiro é só mar. E então eu fui mesmo. Corrente. Mesmo que de primeira você que tenha ido, em um sentido material. Fui, assim, sem nunca nem ter existido. Como você, que está o tempo todo em tudo que vejo, menos em mim. É claro que você está em mim. O tempo todo. E, no entanto. Você entende, não entende?
Acho que só você entende. É um pouco daquilo do “essas conversas só posso ter com você”. Isso é tão falso. É claro que podemos ter qualquer conversa com qualquer um. Mas é artificial quando não há sintonia. E nunca há, não é mesmo? É que apesar de você gostar dos vieses, dos julgamentos tortos (ainda que às vezes te incomodem em mensagens de pessoas recalcadas que você recebe), da dúvida e da imprecisão, ainda assim é bom ser compreendido. Dá uma sensação de estar em casa, de menos solidão nos vazios do mundo. É saber que existe algum outro que é nós. E de algum nós que somos o outro. Sim, “algum” mesmo, porque nós somos sempre um plural. Unheimlich. De novo.
Eu sei como é bom encontrar em mim um pouco de parceria sobre as impressões que você tem da vida. Sei porque tenho o mesmo com você. E isso é um pouco de tudo que somos. Igualzinho àquela onda que já foi. Porque isso, mesmo ficando, é passagem; é corrente. Água sem mar, e um ruído presente. Ruído, é isso. Águas têm sua beleza, elas não precisam ser mar para ser plenas. Mas não é a mesma coisa, não é mesmo? Claro que não é. Eu sei. E sei também que acabei com toda a magia esmiuçando uma metáfora.
É minha missão instrumental e processual de Cupido: destituir a magia das coisas, ainda que aparentemente soe como se fosse o oposto. É que no final das contas dá no mesmo: tudo é uma forma de destruir. Mas são poucos os que realmente experimentaram a dor para compreender isso, como aquela diferença entre Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos que te fez “migrar” da alegoria da funcionalidade para as profundezas da estrutura. E os dois têm as mesmas iniciais. E os dois foram, no meio de estilos consagrados, incompreendidos em sua particularidade. E no fundo é tudo sempre o mesmo. E isso tem seu lado literal. E, claro, muitas metáforas. Pense em todas. Estou pensando nelas agora, enquanto escrevo. E tentando organizá-las, um pouco.
É, você gosta de metáforas. E nunca está satisfeito com elas. Nunca parecem alegóricas o suficiente. Eu sou vulgar. Não que eu não goste de metáforas, que eventualmente não as faça. Mas às vezes só preciso disso: escrever de um jeito mais cru, com esse caráter quase crônica, quase documental, quase confessional.
Mas, sabe, não acho que isso se distancie tanto das metáforas. Pelo contrário, acho que o caráter “relato” é totalmente metafórico. E não é só a superfície óbvia da subjetividade. Por mais que eu escreva aqui coisas tão incomodamente dadas, só você, mais ninguém, as entende em totalidade. É que às vezes o que achamos que é a realidade é a maior de todas as metáforas. O modo como a vivemos e a entendemos. Mais do que isso, como a compartilhamos. Ou a atribuímos naquela flechada tão instrumental do Cupido. Se só nós dois sabemos o sentido atribuído, então… O eterno myse in abîme do sentido. Mas que quando nos encontramos também ele parece um pouco “achado” e menos inalcançável, não é? Bom, é assim para mim.
Foram tantas coisas que me aconteceram que não teria como não virarem texto, e você mesmo escolheu o título – que, não, claro que não é esse -, mas falhei em fazer humor. Ainda vou fazer, é claro, isso é muito meu. E sempre acho que merecemos. Mas não por agora. Não de primeira. Porque foi tudo uma realidade tão paralela, que para mim, ao mesmo tempo, parece que nada aconteceu. Você também sente isso, que nada aconteceu?
Eu continuo aqui. Cinza. Parece que só acordei e já era o outro dia. Tudo igual. E todo o resto são névoa e lembrança;  o que é um pleonasmo, só para falar bonito. Tudo se dispersa como fumaça da respiração em uma madrugada de temperatura baixa.
É recente, mas muito, muito distante. E essa distância atinge tantos níveis e sentidos. Igualzinho a esse texto, só um reflexo muito óbvio de mim: muita informação em pouco espaço. Excessos. E, no entanto, um vazio constante. Aquela tentativa gêmea de segurar uma névoa e de significar uma metáfora; de ter uma flecha material, que é mitológica; de beber você. Mas também você é o que passa e o que fica. Corrente. Unheimlich.

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