25.9.17

O Príncipe Mestiço

Estava folheando álbuns antigos que achei na casa da minha avó, do milênio passado, porque se sou velha, calcule ela. A antiguidade era tanta que dos álbuns saíam grossas teias de aranha – tais quais às da minha bacurinha – e muitas camadas de pó. Eu já estava até ficando doidonx.
Talvez a antiguidade, feat minha comoção com as imagens, tivesse algum poder místico, porque em dado momento começaram a sair inúmeras criaturas fantásticas dali. Quando vi sair o Robin Williams, pedi que me concedesse três desejos, mas ele tão somente entregou-me uma caneta. Fui anotar lindos dizeres ao lado de uma foto minha bebê perto de uma Casa de Bonecas: “Aaaah oowoowwh aaawwwwh ooonhh você caiu no gemidão do zap fotográfico”, quando notei que o álbum era de fato mágico.

As anotações à volta se reorganizaram e passaram a conversar comigo. Não demorou para que um lindo espécime quase da altura do Hagrid versão all tattooed saísse dali.
– Que susto, caralho! Achei que fosse um Pato Selvagem! – Ele se empertigou e embarguei a voz para recuperar minha gafe. Proferi solene: – Vamo fecha?
– Tenho interesse! – retrucou charmosamente, e tive a impressão de ouvir a voz do Macaco Louco. Mas como, se ele parecia mais a Srta. Belo?
– Qual sua graça? – Fiz uma reverência para beijar sua mão.
– Pode me chamar de Príncipe Mestiço, praticamente Um Inimigo do Povo!
– Quê?! Pode ir parando com esse teatro absurdo! – Segurei a risada, decidindo ignorar a referência a Harry Potter.
– É que sou meio lorde norueguês, meio bardo gonçalense.
– Pensei que só metade fosse príncipe.
– Tipo um sagitário centauro?
– Não, tipo uma sereia. Metade princesa e pá.
– Sei que curte viado, já beijei homem. – Latejei ao ouvir isso. – Ei, Valentina! – Então ele se ajoelhou e pôs-se a segurar minha mão. – Sei que você ama Rapunzel e vive com Pocahontas, mas quero entrar nessa ciranda, já até comprei Monovin-A!
É, aquele homem sabia mesmo quantos segredos traz o coração de uma mulher. Amoleci com palavras tão precisas, que retratavam nada além do 7×1 que é mai fodendo laife, e embarquei gentilmente em sua carruagem.
Ele atropelou um súdito que vinha a cavalo dobrando uma esquina. O sujeito teve sua perna inteira decepada e atirada do outro lado da rua. Tal qual GTA jorrando sangue, o mancebo proferiu os maiores palavrões, ao que Príncipe Mestiço retrucou: “Você pensa que é fácil dirigir com uma mulher dessa do lado, arrombado? Saia já daqui com esse drama contemporâneo!”, vociferou, e me pareceu ouvir o Dwayne Johnson.
O mancebo rastejou humilde até a outra extremidade da ruela, aos berros da dor lancinante, catou a perna e rumou para as plantações alienígenas de Goiás. Me sentindo culpada pela mutilação, ofereci a ele uma viola, para que se arranjasse por lá compondo em dupla com Saci, súdito de Rapunzel em seu reino. Sugeri os nomes de “Direita & Esquerda” ou “1001” para os astros novatos, não sei porque ele apenas gesticulou algo que não deve ser reproduzido enfurecido e foice.
Príncipe Mestiço me tirou de minha indignação com uma mamada que me contemplava inteira. Fui pega de surpresa, mas como sou muito altruísta, permiti que me chupasse. Quando descobri que ele era muito “adventure-time”, como eu, convidei-o para um passeio na Ilha de Páscoa, para brincarmos de estátua.
Corremos mundo e depois da polícia, não gostaram nada da nossa invasão a um parque público, sem roupa alguma, depois do horário de fechamento. Mas a causa era nobre, dedicavamo-nos ao propósito cirandeiro de contemplar a lua, que notamos estar em libra.
Então percebi, no meio da nossa fuga por uma acusação errônea de atentado ao pudor, que aquele não era um teatro do oprimido, era o nosso teatro dos sonhos.

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