21.1.18

Não vem com homeopatia, quero você na minha veia

Não quero homeopatia, pedaços de você aqui e ali. Tudo arrumadinho e organizado. Eu quero você inteiro. Seus sorrisos e sua enxaqueca, o porre do dia seguinte. Eu quero você do avesso.

Não quero você barbeado, todos os botões certos. Quero sua calça no chão do meu quarto, nossos pelos e reservas espalhados, misturados.

Vem do jeito que for, vem de mau humor mesmo, que eu digo aquelas besteiras que só eu sei pra te fazer rir. Vem só pra chorar no meu ombro, vem só pra reclamar do seu dia chato. Vem que eu faço aquele chocolate quente pra gente rir do quanto sou ruim na cozinha e começar a se agarrar na mesa mesmo.

Vem me dar aquela boa notícia que você tá esperando há tempos, deixa eu ser a primeira a saber. Vem feliz pra caralho, vem irritado, que eu quero tudo de você comigo.

Não vem de mixaria pra mim, eu quero é abalar todas as nossas estruturas, explodir a porra toda. Ou é melhor nem ter. Sabe, tudo que somos é demais pra ser só metade, assim eu nem sei se consigo.

Não vem com homeopatia, quero você na minha veia.

Quero uma patrulha no meu corpo. Uma oficial no comando, tudo interditado e o eco das sirenes. Quero você, seus óculos escuros e a voz de batalhão. Quero que me reviste e me deixe desarmado. Quero que me peça pra sair, mesmo sabendo que vou ficar.

Não quero perfume e saia rodada. Quero suor e um jeans colado. Quero seu olhar de ameaça e essas unhas afiadas. Pode vir quente e malcriada, pode gritar e xingar. Pode baixar o nível e mudar o meu astral.

Vem do jeito que for, mas vem pra abalar. Vem que eu te faço companhia, vem que eu me adapto, vem que seremos dois. Vem com sono, com fome e com raiva. Vem que a gente se devora e se entende. Vem que eu te pego no ato e te moldo com o tato.

E nem inventa de guardar emoção. Joga suas fraquezas na minha cara e me obriga a protegê-la. Me ensina o que te faz feliz que eu misturo nossas receitas.

Vem com uma colher bem grande, vem que vamos pingar oitenta gotas. Vamos tomar nosso remédio juntos, vamos curar a doença um do outro. Não quero homeopatia, quero uma patrulha no meu corpo.

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Originalmente publicado em Poligrafias. Escrito em parceria com Samuel Aguiar.

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