28.4.18

Madrugadas se conjugam no imperativo

Aquele dia na sua casa, quando te pedi pra me ajudar a escrever, eu te disse que madrugadas se conjugam no imperativo.

Hoje, aqui, vendo a cidade que passa em câmera lenta da minha janela, penso no quanto tantas coisas que falamos e vivemos só fazem sentido depois.

Aquelas coisas que só sentimos de fato depois que passam: a falta, a convicção, o peso da responsabilidade do tempo, o pensamento no outro.

Essas madrugadas, conjugadas no imperativo, em que você está aí, perdida nas linhas julgando se particípio ou gerúndio vão fazer seu leitor ir procurar seu nome na página de créditos, enquanto eu deixo as próximas músicas já engatadas pra ter um segundo olhando o mar. O mar que não é meu, é seu. Ou era?

20.4.18

Resenha do livro 12 Regras para a Vida

Quando o Oráculo de Delfos incumbiu os 12 trabalhos a Hércules, de alguma forma também o recompensou; afinal, a conclusão das tarefas lhe daria a imortalidade. As dimensões individual e coletiva já se imbricavam aí: Hércules não estava meramente sofrendo em prol do bem maior, seu sofrimento tinha um objetivo pessoal bem óbvio, ou seja, um significado.

Contra as pretensões do herói da epopeia, a maçã de Adão de todos os males, o indivíduo é importante, não adianta pensar o coletivo sem antes pensar no sujeito. Esse é o mesmo mote do livro de Peterson, 12 Regras para a Vida, significar a vida sob uma perspectiva particular, primeiramente.

De forma similar, Peterson também teve seus 12 trabalhos, e não foram mais fáceis do que lutar com leões ou hidras. (Pelo menos Hércules poderia ter o eventual auxílio de algum deus ex machina.) Peterson, como pesquisador, psicólogo clínico e escritor, incumbe a si mesmo a missão de orientar um indivíduo fragmentado em uma sociedade que, embora preze a dimensão individual, ainda idolatra a ascese e o automartírio como prova de grande caráter. E surgem ansiedade e seus derivados, as psicopatologias com que esbarramos em todas as esquinas, inclusive, sem surpresa, em nós mesmos.

Eu preferia que nós dois nunca tivéssemos dado certo

Quando você ressurgiu mandando mensagem, achei que seria só mais uma foda e que depois você iria embora, como das outras vezes. Eu estava curada de você, então não tinha problema nenhum, e uma foda contigo não se dispensa por essas bobagens de orgulho.

Mas houve outras vezes. Nós continuamos. Em todas elas eu estava imune ainda, sabe? Eu realmente pensava que eram só fodas casuais e pronto. E que era só isso mesmo pra nós dois. Em momento nenhum eu acreditei, então não tive medo, nem aviso, nem cautela. Pra que me preocupar com essas coisas? A qualquer momento iríamos pular fora ilesos, isso parecia tão certo.

Fico pensando em que momento teria sido seguro parar.

Eu preferia que você não tivesse voltado.

19.4.18

Eu matei você

Tem uma frase que rola aí pela internet cuja autoria já se perdeu, que diz algo como “se um escritor se apaixonar por você, você nunca morrerá”. Bom, adivinha? Você acabou de quebrar essa regra, porque você acabou de morrer. Um escritor foi ridícula e completamente apaixonado por você durante quase três anos, mas você acabou de morrer. Você não fez nada de errado, muito pelo contrário. Se você fosse uma amiga minha na mesma situação eu a aconselharia a fazer exatamente o que você fez e faz até o momento: cortar todo e qualquer tipo de contato.
Mas a gente sempre aconselha nossos amigos imaginando que, do outro lado, tem um psicopata que mata bebês foca com tacos de baseball com pregos molhados em álcool. Mas nem sempre é assim, nem sempre um dos lados é malvado e o outro bonzinho. Geralmente os dois lados são bonzinhos e os dois são malvados. Mas por isso você teve que morrer.
Porque do seu lado, tudo ok, ignora, passou, superou, vida que segue. Do meu, dois anos congelados no tempo e no espaço, que se passaram mais rápido que coelho com ejaculação precoce. Fui dormir no dia que você saiu da minha casa chorando e acordei hoje. Nada aconteceu. Nada se passou. Fui ao apartamento semana passada e te vi por lá o dia inteiro. Até tentei tirar um cochilo pra ver se acordava dois anos atrás, mas parece que esse tipo de coisa não existe. Eu acordei e você continuava aí, eu aqui.

13.4.18

Eu me apaixonei pelo gótico certo

Tinha recentemente me mudado para o apartamento dos meus sonhos. Último andar do prédio, vista indevassável para a praia do Leblon. Eu mal estava acreditando naquilo. O apartamento era perfeito e me custaria módicos 300 reais mensais entre aluguel e condomínio. Nem me importei com a cláusula contratual que me obrigava a pagar um ano adiantado como um resguardo em caso de "morte incidental".

Muitos me avisaram que não era amor, era cilada, só porque todas as inquilinas anteriores, todas com o meu perfil, baixinhas, bunda gigante, quatro olhos, vesgas e esquisitas, tinham morrido da mesma forma: haviam "se atirado" misteriosamente da janela com apenas uma semana após a mudança, sem nenhuma ter histórico de depressão ou algo do tipo. Suspeitavam que algum fantasma assombrava o apartamento.

- Meu amor, mais assustador que meu saldo bancário nada é, então tô preparada pra tudo - era minha resposta padrão pra todos.

Até pro cagão do corretor, que, devido às pressões da polícia, justiça e mídia (clima ameno), preferiu me avisar do ocorrido e colocar uma cláusula no contrato também sobre a "janela do suicídio" pra já tirar o dele da reta. Frouxo! Eu como camarão na praia, gente! Desde quando vou ter medo de alma? Vocês só podem estar de sacanagem.

7.4.18

Talvez o amor não seja, esteja sendo

Eu não sei o que é o amor, por isso esse texto é uma aposta.

Eu rolo os dados e não sei se quero olhar o resultado. Amor assusta, né? E às vezes é mesmo melhor não termos uma resposta.

Essa palavra faz uns retesarem alguns músculos, se esquivarem fechando os ombros. Também faz olhos brilharem e carrega um súbito pensamento involuntário em alguém.

Eu nunca achei que amor fosse algo decretado e muito certo, ou que te enchesse de certezas, paz e segurança o tempo todo. O nome disso é quitação de financiamento, e amor  tem um quê de nome no Serasa.

Eu sempre achei que o amor gosta de se esconder, e dormir um pouco, e de aparecer em alguns momentos, em alguns estalos.