13.4.18

Eu me apaixonei pelo gótico certo

Tinha recentemente me mudado para o apartamento dos meus sonhos. Último andar do prédio, vista indevassável para a praia do Leblon. Eu mal estava acreditando naquilo. O apartamento era perfeito e me custaria módicos 300 reais mensais entre aluguel e condomínio. Nem me importei com a cláusula contratual que me obrigava a pagar um ano adiantado como um resguardo em caso de "morte incidental".

Muitos me avisaram que não era amor, era cilada, só porque todas as inquilinas anteriores, todas com o meu perfil, baixinhas, bunda gigante, quatro olhos, vesgas e esquisitas, tinham morrido da mesma forma: haviam "se atirado" misteriosamente da janela com apenas uma semana após a mudança, sem nenhuma ter histórico de depressão ou algo do tipo. Suspeitavam que algum fantasma assombrava o apartamento.

- Meu amor, mais assustador que meu saldo bancário nada é, então tô preparada pra tudo - era minha resposta padrão pra todos.

Até pro cagão do corretor, que, devido às pressões da polícia, justiça e mídia (clima ameno), preferiu me avisar do ocorrido e colocar uma cláusula no contrato também sobre a "janela do suicídio" pra já tirar o dele da reta. Frouxo! Eu como camarão na praia, gente! Desde quando vou ter medo de alma? Vocês só podem estar de sacanagem.

Acontece que ali tinha vivido, quando da concepção da cidade, uma moça muito bem-apessoada (linda mesmo, a minha cara ela) que também era atriz, ateia e à toa, e tinha se suicidado sem querer fazendo laboratório pra uma personagem. Desde então, seu espírito atraía moças assim para o apartamento e as matava.

Pra falar a verdade, achei a treta toda até interessante. Acostumada que sou com o 7x1, seria só mais um "causo" pra virar conto venéreo aqui no blog. E não deu outra.

No dia da mudança, já chamei logo Inception pra brincar de agarradinhos da Looney Tunes versão trevas's coming comigo. Como meu tesão por ele é ainda maior que o desprezo que seu crush tem por você, já fui logo agarrando ele assim que chegou, diretamente das profundezas de sua terra natal, a Transilvânia, no meio daquela bagunça mesmo de mudança.

Ele me jogou de quatro no meio das caixas, metendo por trás com força, aquele cabelo dele de Sebastian Bach caindo no meu ombro, nossa. Que mulher! Digo, que homem! Depois de 46 dias e 23 horas metendo com força sem tirar de dentro, sem parar nem pra retocar a progressiva de Inception, eu já louca, quase gozando com aquelas estocadas com raiva que só ele sabe dar, A VI.

- Puta que pariu, caralho, vade retro!
- O que foi, Valentina?
- Você tá metendo sem camisinha, seu energúmeno? Olha o pacote fechado ali! Tá a fim de virar A Família Adams comigo?
- Tá larga mermo, hein?! Eu tô metendo no seu cu!
- Ahn? Mas eu...

Olhei pra baixo e vi uma das cenas mais assustadoras que já vivi, pior do que o fim da Catuaba ou ter que descongelar geladeira. Pior do que o cheque que eu tava passando. A tal fantasma existia. Estava bem embaixo de nós, segurava um consolo gigante que estava dentro da minha tumba de Álvares de Azevedo.

- Você tá comendo minha mulher, sua filha da puta?! Você vai pedir pra reencarnar é agora, sua arrombada!

Inception ficou puto, partiu pra cima da fantasma e pegou ela no braço, ela já tava pedindo arrego, coitada. Muito comum mulheres pedirem arrego pra ele mermo.

- Inception, para!
- Se eu parar ela vai te matar! Você vai ser a próxima vítima da janela do suicídio, não posso deixar que isso aconteça! - disse ele enquanto sacava sua espada e cavalo branco do bolso.
- Para com a palhaçada, príncipe gótico. Olha essa assombração, cara.
- O que é que tem?
- Ela é gostosa pra caralho. Vamos fazer um ménage.
- Que nojo.
- Ahn?! Que tipo de gótico é você? Pensa bem. Quem mais no seu círculo de amigos emo do Baymarket já fez ménage com uma fantasma assassina? Nem Lord Byron, nem Marilyn Manson.
- Eles nunca fizeram porque todos os emos e góticos são virgens, Valentina.
- Mas você...
- Ei! Eu sou um fantasma, mas também tenho sentimentos, ok? E estou reparando há mais de mês que esse rapaz mete com muita força, não vou aguentar, não. Meu negócio é coisa mais suave, matar gente, atormentar e tal. E eu só transo fofo. Como você ainda tem buceta, fia?
- Eu transo fofo com você - falei sentando do lado dela e já fazendo carinho naquelas madeixas lindíssimas de assombração do mal. Dava até uns traços com a Samara #dlç.
- Valentina, você tá passando cantada em um fantasma na minha frente? - Inception ficou indignado.
- Chega dessa palhaçada, agora a porra vai ficar séria - Samara's cover disse crescendo mais um metro, aparentemente putaça, e partiu com tudo pra cima de mim, me dando umas porradas bem fortes pra uma alma (será que em vida ela ciclava deca?), tentando me derrubar pela janela.

Nessa hora, começou a tocar uma música bem do mal, cheguei a sentir um arrepio, sentia que seria meu fim.

- Quê?! Essa assombração é boa mesmo! Colocou até fundo musical pra tocar. Só não esperava que fosse Exaltasamba - falei.
- Ah, foi o meu celular. Esqueci de desativar o despertador. Vampiro gótico flâneur de cemitério como eu acorda a essa hora pra beber vinho e sacrificar virgens, sabe como é - disse Inception.

Tesão naquele homem! Não aguentei e tive que agarrar ele. Empurrei discretamente Samara's cover pro lado e comecei a quicar no pau dele me segurando no cabelo dela.

- Porra, vocês são muito zoados. Acho que vou abandonar esse apartamento, tô aguentando não. Vocês não param de transar, barulho pra caralho, tapa. Depois ficam melosinhos, eca! Já deu pra mim.
- Você não vai nos matar? Tô me sentindo inferiorizada, sabia?
- Satã me livre matar vocês e vocês ficarem toda a eternidade transando do meu lado! Ei, posso levar a garrafa de Jurupinga comigo?
- Você não vai levar merda nenhuma! Olha só o farrapo humano que você deixou Valentina! Até parece que acabou de pegar o 368 descendo a Grajaú-Jacarepaguá no sol de meio-dia. Só eu posso estragar ela, você tá me entendendo?
- Tudo bem, Inception. No fundo achei ela gente boa. E uma puta duma gostosa!

Inception não curtiu muito nosso flerte fatal, queria que eu processasse ela pelos danos materiais e morais, mas sou frouxa e entreguei pro oculto, literalmente nesse caso. Pelo menos agora o apartamento estava livre da maldição. Ainda não tínhamos conseguido tempo pra arrumar nada, então aproveitamos que ela foi embora, colocamos the number of the beast pra tocar e foda-se a arrumação, continuamos transando e cultuando as trevas, óbvio, durante 666 noites.

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