25.5.18

Eu nunca amei você

Sabe, Elizabeth, eu nunca amei você.

Você prendendo seus cabelos meio sem graça com minhas piadas rudes ou perdendo os óculos no meu quarto. Seu fundo fanho na voz, seu jeito de se afastar, em tantos sentidos. Nada disso pra mim nunca foi amor.

Eu nunca amei seu abraço pouco entregue, aquele sorriso de lado, sobrancelhas, mãos, desvio de septo, olhos sorrindo nos meus, cheiro doce invasivo, pensamentos insones e turbulentos que te fazem pegar o carro de madrugada sem rumo. Que te fazem se questionar, porque é tão dona da verdade que acha que sabe a fórmula até pra aplicar a si mesma, e falha.

Não, eu nunca amei você.

24.5.18

Talvez escritores sejam mesmo de fato videntes

Esses dias um cara me perguntou se escritores são videntes. Porque parece que só sendo vidente pra conseguir falar com tanta precisão daquela dor que só você conhece, daquela pontada no peito que você sentiu quando viu ele passando do outro lado da rua ou de como aquele cheiro no cabelo te faz acreditar que viver tem sentido.

Como um escritor poderia saber com tanta precisão o quanto te dilacera ver aquela letra toda torta subindo na linha do caderno ou que você passou meses sem conseguir ouvir sua música preferida?

Escritores sabem, escritores sempre sabem. Às vezes até melhor do que você daqueles sentimentos que te apertam a garganta e de repente embrulham seu estômago por causa de uma lembrança inesperada que doeu mais do que devia.

Escritores, quando leem o que escreveram, percebem que seus textos sabem até mais do que eles mesmos se deram conta antes de os ter escrito. E qualquer inversão de frase só serve pra mostrar o quanto sua mente e seu coração caóticos só conseguem se organizar um pouco assim, escrevendo.

20.5.18

Não dá pra ser 2 quando a gente não tem direção

Você precisa entender que eu nunca teria te dispensado. É que às vezes a gente não consegue ser suficiente nem pra gente mesmo.

Parece falta de vontade, frieza, chame como for. Seu coração partido te leva a dar nomes terríveis para esse tipo de coisa. Mas é preciso enxergar além da aparência de mensagens com respostas demoradas e telefonemas com certo atraso em relação a quando você queria que tivessem tocado.

Eu achei melhor me afastar. Você parecia tão pronta, toda embalada e selada na minha mão, enquanto minhas mãos eram poeira. Eu não era propriamente essas válvulas propulsoras que você parecia esperar – ou pelo menos desejar – de mim.

Às vezes é mais fácil se afastar, sufocar um sentimento ou até mesmo fingir que nunca existiu do que lidar com essas situações, que nos confrontam de um jeito que não podemos naquela hora. Está além de vontades, entende? É toda uma rede intricada de coisas minhas,  que nada dizem respeito a você. Que não têm que dizer respeito a você. E quando você vem, querendo se jogar nela… Bem, ela se rompe.

Afoga e afaga

As gotas inclementes na minha janela me fizeram perder o sono. Ainda era madrugada.

Os silêncios aqui no quarto apertavam meu peito. A tranquilidade do bairro, que parece que nada nunca acontece, me tirava a paz. O olhar inerte para carros, pessoas e acontecimentos que não passam. Maldita janela filtrando a vida.

Viro a cabeça para o teto. Os vazios dos nadas desse lá fora não são tão diferentes da colisão dos meus pensamentos.

Afoga e afaga, escreveu ele.

13.5.18

Eu quero criar, eu não quero ser feliz

Faz dias, semanas, meses. Eu sequei.

Claro que eu, até então escritora compulsiva, estranhei. Escritora compulsiva e, o principal, workaholic. Comecei a atrasar trabalhos. A me "esquecer" de escrever, a protelar textos. E os que saíam, porque a obrigação vinha a cavalo, eram piores do que se não tivessem saído: não eram inspirados. Eram falsos.

Eu prometia textos aos amigos, como sempre, mas agora já não saíam. Eu nunca mais tive a inspiração urgente de textos inteiros serem vomitados no celular, enquanto estivesse no metrô, no bloco de notas, no meio de uma reunião de trabalho via Skype, no caderno, na aula da pós. Parei de deixar pessoas falando sozinhas porque uma nuance me inspirou e precisei escrever.

Quando comecei a reparar isso em mim, a primeira coisa que senti foi agonia. Eu tinha tão boas frases à espera, tantas conversas, tantas coisas que tinha visto. Como sempre. Mas, dessa vez...

A mensagem súbita daquela paixão que me fez chorar durante a noite ouvindo sertanejo. O corte reiterado de algum ex-amor que deixa seu cheiro nas minhas esquinas. Nada surtia efeito.

Foi quando ouvi uma reclamação de um fã de alguma cantora pop que veio o baque. "A Fulana não faz mais música boa porque agora é feliz."

Então a resposta me veio óbvia. Parei de escrever porque estava feliz. Ser feliz tirou a alma dos meus textos.

5.5.18

Nada apaga você

Podem passar tempo, estações e outros homens.

O tempo, mesmo aquele que gastei gostoso com risadas e algum entorpecente de final de tarde. As estações mais leves de vento batendo no rosto e pôr do sol em viagens a pé de cara e coragem. Ou até aqueles homens que deixam o gosto da permanência, aqueles óbvios que me fazem escrever sonetos, aqueles raros que me fazem desenhar e compor.

Nada apaga você.

Tem dias que é foda. E a culpa não é da nossa troca de e-mails com seu elogio improvável aos meus textos ou seu áudio leviano sem motivo. Tem dias que você simplesmente está aqui.

Tem dias que a gente sabe que perdeu

Tem dias que a gente sabe que perdeu.

É muito bom todo esse discurso de não abaixar a cabeça, de seguir a luta e essa coisa toda. E ele tem muita verdade. Mas tem dias que, simplesmente, a gente sabe que perdeu.

Aquela vaga que você queria no trabalho, aquele concurso pelo qual você esperou dois anos, um passo de dança bobo que não saiu certo na aula, aquele áudio que você mandou e nunca vai ficar azul.

Não importa o que foi. Às vezes não foi nada disso. Às vezes foi tudo isso junto.

Às vezes nada precisou acontecer, você só percebeu. Constatou. Respirou fundo se olhando no espelho e prendeu a vontade de chorar. Ou deixou rolar quando tocou aleatoriamente alguma música do Aerosmith. E você pensou nele. Ou nela. Mas não foi o pensamento que doeu. O pensamento foi só o estalo mesmo, aquele soquinho final no peito, só mesmo pra te avisar que você perdeu. É isso. Você perdeu. Você sabe disso.

A vida é feita disso. Dos golpes de magia e das constatações das nossas perdas em banheiros de boates de quinta. Você sai feliz com sua melhor amiga e vê ele beijando outra. Quando você achava que já tinha superado, é claro. Você chega feliz no trabalho, realizado por estar ali, e é demitido. Você chega na sua aula preferida e o professor, também assolado pelas próprias perdas, te dá um esculacho que te deixa triste.