29.7.18

Sob um milhão de estrelas

Ela sabia o quanto mexia comigo, sempre soube. Tinha se mudado recentemente e a casa estava “de cabeça pra baixo”, foi o que me disse, pediu para darmos uma arejada pela cidade.

Eu conhecia cada entrelinha e metáfora muito bem. As mensagens insinuadas meio tímidas, a saia, o perfume específico, até o jeito de repartir o cabelo. Tudo mudava conforme suas intenções, e, aquele dia, quando parei o carro e a vi trancando o cadeado, eu sabia.

Veio queimando sem me deixar levantar, pensar ou qualquer outra coisa, na hora que abri a porta do carro para recebê-la. Sentou no meu colo e minhas mãos foram, automáticas, para sua blusa. Arranhei suas costas enquanto ela me beijava. Boca, pescoço, peito… Segurou meu pau como se fosse dela. E, de certa forma, sempre foi.

Me conte coisas, me conte tudo

Eu quero ser a pessoa que conhece você mais do que ninguém, você deixa?

Então me conta…

Daquela primeira vez que você ralou o joelho, quando você caiu de bicicleta e doeu pra caramba. Quando você chorou escondido no banheiro do colégio.

Me fala… Se você tinha medo de trovoada, se ficava assustado quando ventava muito, ou se mais terrível do que tudo isso era mostrar um boletim vermelho pros seus pais.

Qual foi a coisa besta que mais te deixou orgulhoso? Aquela nota alta em uma matéria que você sempre achou difícil ou quebrar a cara do valentão da sala?

Quando uma abelha picou sua boca. Se você teve medo do monstro no armário ou de um fantasma embaixo da cama pegar seu pé.

Metonímia

Isso é muito menos um texto e muito mais o que eu queria te falar. Mas faz parte daquelas coisas que não devem ser ditas, e a gente fica assim, fingindo que nós dois somos só a desculpa – ou a metonímia – que, como escritora, preciso.

Nunca fui muito de levar ninguém a sério. Nunca precisou de mais de poucas semanas de convivência, sabe? Eu já começava a achar a pessoa completamente idiota e qualquer semente de admiração que pudesse crescer era completamente destruída.

Mas com você é diferente. Eu vivo comentando do nosso sexo, da nossa química, do nosso encaixe. Mas não é mesmo só isso que é diferente-incrível-perfeito com você.

Quanto mais ficamos juntos e nos conhecemos, minha admiração por você só aumenta, eu só consigo te levar cada vez mais a sério. Eu sou encantadinha demais com seu jeito. Seu jeito de juntar os lábios e prender o cabelo. Seu jeito de me pegar de madrugada e de rir das minhas reações efusivas por adorar isso.

Seu jeito tão sério, seu jeito tão metódico, seu jeito tão homem. Mesmo nas nossas bobices. Porque são poucas pessoas que entendem que isso não tem nada a ver com seriedade.

Nossa redublagem de filmes e nossa adaptação de músicas. Nossas fodas memoráveis incomodando os vizinhos em vários bairros dessa cidade. E de tantas outras em que planejamos estar, não importando o quanto de verdade ou possibilidade tenha nisso.

18.7.18

Veja bem, meu bem

Tinha acordado de mau humor, o padrão de todos os dias. O que aliviava era que precisava dar aula. Não exatamente aliviava, mas pelas duas horas em que eu precisaria forjar sorrisos e animação, talvez a máscara se tornasse real.

Sou professora de dança do ventre em uma academia que fica do outro lado da cidade. Como sou nova na equipe, acabei pegando aquelas turmas em dias e horários esdrúxulos, que ninguém, com um pouco mais de status e poder de decisão, pegaria, tipo nem fodendo.

Estava com uma dor de cabeça safada, daquele tipo que prenuncia período menstrual, que te deixa meio molenga, meio insossa. Mais do já costumo ser no dia a dia. A aula de hoje? Sexta, às 20h.
Um amigo meu costuma falar que aula sexta às 20h não é trabalho, mas teste de resistência, e ele tem toda a razão. Principalmente considerando a distância, o trânsito zoado, eu sem carro e a obrigação de felicidade fazendo com que um compromisso nesse horário sempre frustre meus planos.

Estava quase no final da segunda aula quando ouço alguém bater na porta. Por padrão da academia, não deixamos as alunas fazerem a aula depois de certo tempo de atraso, por questões de aquecimento e coisas do tipo, mas atender à porta era o mínimo, mais ainda àquela hora; nem que fosse pra compartilhar um papo rápido sobre algum cara de aplicativos de relacionamentos ou sobre a partícula de Deus, eu estava sempre aberta ao que viesse.

Faltavam exatos quatro minutos para terminar a aula, e eu divagando que talvez fosse alguém da recepção querendo nos adiantar pra poder fechar a academia.

Errei em todas as suposições. Não era aluna atrasada, nem funcionário apressado. Era ele. Tarcísio.

15.7.18

Amor da vida x amor pra vida

Nas últimas semanas tem circulado uma modinha bem escrota, depois que Justin Bieber anunciou um provável casamento com a namorada (não com a Selena).

Entendo que fãs tendem a se apropriar das supostas dores de seus ídolos, mas celebridades são necessariamente vitrines, não se esqueçam, ninguém está dentro (embora muitos quisessem) do Justin Bieber ou das respectivas pra supor sentimento, já começa daí.

A questão é que isso gerou um bordão que se aplica bem aos nossos tempos fragmentados: "Amor da vida x amor pra vida". O primeiro seria a pessoa que você gosta; o segundo, a que "dá certo". Essa ideia toda é no mínimo nojenta e, na pior das hipóteses, canalha.

Você gostaria de ser o amor pra vida de alguém? Acho bem difícil. Então porque romantizar essa ideia, supostamente cheia de razão, de estar com uma pessoa porque "dá certo" e não porque realmente gosta dela?

7.7.18

Tem coisa pra comer aqui?

Quando conheci Valentina, perdi o ar. Tinha um cecê tão intenso que tive que prender a respiração por severos minutos. Mas como as pizzas suvacais não eram as únicas, também havia de estrogonofe de camarão com rabada, resisti firmemente.

Comedor que sou, não ia dispensar aquele material todo por um mero detalhe que qualquer banho de sal grosso com três ave-marias e creolina daria jeito.

Logo estreitamos contato e passamos a viver as mais altas aventuras alucinantes juntos, dignas de Sessão da Tarde. Muito descoladões, decidimos que seria de bom-tom revirar as boates de suingue da cidade, já que nem eu nem ela éramos locais de onde estávamos morando, e tudo tinha aquele cheiro pueril de novidade.

Mal adentramos o recinto, eu ainda fazendo o cadastro, Valentina já mostrou logo a que veio:

- Tem alguma coisa pra comer aqui? - disse serena.

Duas donzelas e seis rapazes rapidamente prostraram-se de quatro na frente dela, dando seta de cu. Mesmo parafílica, obesa 3 toda vida, desprezou, dizendo que a comida a que se referia era literal. Desse tipo não tinha, todos no ambiente se sentiram ultrajados com a desfeita, Valentina desculpou-se e prometeu se redimir mais tarde, mostrando o avantajadíssimo cintaralho que levara consigo.

5.7.18

Eu preciso dela pra escrever

Todo artista tem algum nível de sacrifício em prol de sua arte. Vide o amplo rol de filmes que transformam o autoflagelo em heroísmo, tornando a arte algoz de seus eleitos. O contraponto da nossa ferida aberta não se retrai: todo artista tem algum nível de pecado a que se permite em prol de sua arte.

Talvez o feeling indefinível da arte resida justamente nesse castelo de cartas em que abnegação e egoísmo se apoiam disputando o equilíbrio.

Também eu tenho minha via crucis e meus tropeços.