26.8.18

Odeio jazz

Aquele dia que nos esbarramos, em um show de bandas aleatórias no centro da cidade, éramos mais do mesmo: eu, apaixonada por uma figurinha megafamosona em um microcosmos; você, wannabe de rockstar com um cabelo muito melhor do que o meu.

Não foi ali, claro que não. Foram meses depois. Em um show, de novo, no mesmo lugar. Dessa vez era uma banda grande, alegoria perfeita do que dali a algumas semanas nos tornaríamos. Alegoria perfeita de tudo o que por muito tempo guardamos.

Você só queria tirar a cabeça dos seus muitos calos nos dedos. Eu só queria tirar a cabeça dos muitos corações boiando na minha constante ciranda de relacionamentos.

Seria só mais um dia de motel barato na Tijuca, gasolina Zona Norte-Zona Sul, coreografias e partituras atrasadas em prol de uma gozada gourmet.

Digo gourmet porque sempre é gourmet gozar com pessoas que você acha o ápice da beleza. Viva o superficial deleite estético vertido em arrepios, lubrificação e entumecimento. E até então era só isso mesmo pra nós dois, embalagens de covinhas e bundas oníricas demais de tão bonitas.

25.8.18

Mordaz mistério das madrugadas

Mais um dia que eu olhava insistentemente minha caixa de spam, naquela esperança quase doentia de não ter visto. Acontece que ontem, mais uma vez, eu tinha escrito pra ele.

E pensar que das últimas vezes quem tinha insistido veementemente fora ele. Pessoalmente, indo a locais que eu não tinha lhe dito em que estava, descobrindo telefones, descobrindo quartos de hotéis, descobrindo minhas madrugadas. Me encontrando nas minhas perdidas madrugadas, aliás.

Eu não insistia com tanta frequência, tampouco com a mesma disposição para revirar o mundo e "catar" onde ele pudesse estar. Eu me assemelhava mais ao viciado eventual, que em dias de abstinência cruza limites entre o social e o necessário.

Hoje era um desses dias. Eu estava em um evento grande da cidade, que eu nem morava, estava ali a trabalho há alguns dias, sem previsão de quanto tempo permaneceria, como o padrão de todas as coisas na minha vida.

Um lapso entre uma música que me trouxe ele e a cerveja na minha mão me fez olhar os e-mails. Claro que ele não tinha respondido, não fez da última vez, meses atrás, por que faria agora? Meses antes, quando, de um quarto de hotel, escrevi "tô em outro estado e pensando em você". O estado já não era o mesmo de agora, em sentido algum. O pensamento nele? Esse permanecia incômodo, è vero.

11.8.18

Depois

A9 A
Cores, móveis e porta-retratos
Não sei se foi o álcool ou algo entre nós dois
Suas mãos me encenaram em atos
Se feitos de paixão, o que vem depois?

F#m E
E depois... são madrugadas que calam você
Tantas esquinas que aguardam um depois
Bares e acordes de MPB pagam pra ver

2.8.18

Carta a um amor retardatário

Amor tem prazo, dia e hora. Tem lugar também.

Irônico pensar em quem me disse isso, de outra forma, e eu discordei. E eu ainda não consigo concordar, mesmo vendo o quanto isso tem de verdade. Mesmo vivendo isso, em certa medida. Essas palavras estão aqui há dias, semanas. Meses. Meses, e você sabe muito bem. Eu mesma relutei muito em ver e aceitar. Eu não queria assumir pra mim que, depois de tudo, isso realmente estava acontecendo. E por isso tentei.

Meses, desde o final do ano retrasado (!!!) eu tenho tentado. Desde aquele dia que banquei a louca e baixei naquele bar que você tava tocando pra te dizer que tava disposta. Você disse que eu estava diferente. Que tinha mudado. Não sabia explicar, mas "algo tinha acontecido". Eu insisti que eu estava lá e isso devia bastar. Você disse que devíamos viajar juntos, você sabe por que vacilei. Você sabe muito bem.

Você sabe também que eu tinha medo de ter algo com você de novo. Mas depois, sei lá, acho que eu devia ter feito antes, eu ia ter percebido. Ou não? Foi tudo no tempo certo? "Tempo certo" no nosso quadro atual parece até sacanagem da minha parte, não é? Mas talvez o certo seja esse mesmo, eu me fuder duas vezes, porque no final das contas é isso. Eu me fuder por você não querer me ouvir, me entender e fingir que não estava nem aí (olha, eu acreditei. Eu acreditei muito, você é bem convincente). E me fuder agora, por você vir desse jeito, falando e fazendo essas coisas e pra mim não fazer a menor diferença.

É uma ingratidão da vida.

1.8.18

Péssimos Aires

Assim que decidi conhecer o Acre, fui alertada por inúmeros amigos de que um lugar inóspito me aguardava. Eu sou editora, e fui imbuída do meu profundo desejo de fazer uma edição em vários tomos dos textos do Menino do Acre, então nenhuma intempérie poderia me parar. Recebi toda sorte de alerta, a principal delas, que eu deveria ter certa cautela com as lendas que lá existiam, pois poderiam se tornar reais em um piscar de óleos se eu desse bobeira. E como boba é tudo que sou, todos estavam amiúde preocupados comigo.

Peguei o VOLP e o manual do ISBN e rumei destemida para o desconhecido. Se Deus é pornôs, quem será contra nós? Disse uma vez o célebre pastor Rocco Siegfried. Como sua boa seguidora, entoava o mantra.

Assim que cheguei, fui logo tratando de me misturar aos locais. Conheci Potencial, um belo espécime de 2,10m, com um hábito pouco convencional de comer vizinhas. Isso era literal, Potencial vinha de uma antiga tribo de canibais, outrora estudada por quase célebres antropólogos. Digo quase porque todos foram comidos antes de divulgar seus preciosos achados.

Potencial estava deveras preocupado nos últimos tempos com uma lenda nova que se alastrava pela região. Como eu era uma outsider, ele se dispôs a se abrir comigo sem me comer. Pena, era exacerbadamente gostosinho.