27.9.18

Amor nunca bastou pra ninguém

Só o amor não basta. Sempre me disseram isso, e eu nunca acreditei. Talvez por inexperiência em sentir muito por alguém a ponto de ficar meio sem eixo. A ponto de ficar meio pirado.

Hoje, sou estapeada com essa impiedosa realidade.

Eu sempre achei que amar, e essa coisa toda de sentir muito por alguém, de só por ela respirar já parecer que viver faz sentido, te fizesse superar e ser melhor em qualquer coisa.

26.9.18

Ainda bem que estamos aqui

Viver com outra pessoa é um inferno.

Viver junto enlouquece, faz você querer matar o outro, se matar, aliás, que não dá cadeia nem precisa se livrar do corpo. Viver junto é quase penitência pra pagar pecado de várias encarnações. Viver junto é teste de resistência.

Mas, se é com você, as coisas mudam um pouquinho.

Porque com você tem magia, tem sorriso bobo, tem risada de manhã, tem chamego gostoso de noite. E como, depois de você, eu saberia viver sozinha de novo?

Sem você acordar cedo pra preparar meu café, mas eu acordar, só beber Coca-cola e sair. E reclamar que você fuma e isso faz mal. Você arrumando minhas roupas, e eu bagunçando tudo e depois te perguntando onde deixei.

Você imitando coruja, eu debochando das cantoras que você gosta. Você me sujando de brigadeiro, eu me pendurando em você e tentando te derrubar da cadeira. (Mas quem já me derrubou da cama foi você.)

Você fazendo a conjuração de papa Justify no banheiro, eu contando histórias que te fazem acender a luz de madrugada. E eu falando que você é esquisito. E você falando que sou esquisita.

E nosso fingimento em não nos importar, acusando o outro de orgulhoso, quando essa disputa no final das contas dá empate.

17.9.18

Illusion never changed into something real

Você se apaixonou de novo, como se prometeu que não ia acontecer. Pior, você se entregou de novo, se abriu, acreditou. Não foi? É, eu sei. Como, de novo, pudemos ser assim tão fracos?

A gente sempre acaba acreditando de novo, o que por um lado é bom, a gente precisa de fé pra viver. Mas aquelas borboletas no estômago sempre nos traem, porque nos fazem esquecer o quanto esse conto de fadas que envolve os relacionamentos não é real, e vai ruir a qualquer momento.

Você busca uma confiança total, ele também. Ela chega a ser rude de tão "transparente", você adorou isso, é bem a sua cara.

Mas você mentiu que usa tinta pra esconder os cabelos brancos, ela mentiu o número do sapato pra não parecer despropocrional um pé 38 em seus pouco mais de 1,50.

Ele mentiu o horário da aula porque sabia que você ia ficar chateada e preocupada se soubesse que ele precisa fumar quinze minutos antes. Você mentiu que começou a dieta e acabou comendo uma caixa de Bis escondido. Talvez aquela que comprou pra presentear alguém.

14.9.18

Por favor, não demora

Toda vez que você ressurge é igual. Borboletas no estômago, músicas do Jason Mraz. Eu recomeço a dieta e volto a pagar a academia. Basta você reaparecer pra colorir o dia a dia.

Eu sempre me prometo que não vou me deixar afetar, que não vou nem te responder, muito menos aceitar o convite pro chope gelado depois do trabalho. Mas o que adianta eu te ignorar? Sua aparição me apunhala do exato mesmo jeito, mesmo se eu não alimentar.

Quando as pessoas falam sobre desistir, geralmente são os clássicos desistir de insistir, desistir de esperar, desistir de acreditar.

Eu penso em todas essas desistências e rio, enquanto tomo mais um gole do resto dessa bebida barata que tava aqui na geladeira. Porque a minha desistência é de desistir, entende?

9.9.18

Vou sentir falta

Vou sentir falta, é claro.

Vou sentir falta da disputa silenciosa por quem troca o sabonete e a pasta de dentes, mesmo eles estando embaixo da pia do banheiro.

Vou sentir falta de reclamar dos seus ratos e do cheiro misterioso do gás. De você brincando com a casa e estragando (e consertando, ok) a descarga e a maçaneta.

Vou sentir falta de você consertar tudo. E isso é material, mas também abstrato.

Vou sentir falta de brigar por quem aguenta mais tempo com a louça na pia e da implicância de deixar o garfo usado pelo outro. E de esconder o copo de cada um no quarto.

Vou sentir falta de brigar pelo chá gelado. E de você comer minha comida.

Vou sentir falta do cheiro de amaciante na casa com você lavando nossas roupas. Porque se não fosse você eu não lavaria mesmo com tanta frequência, muito menos dobraria, coisa que nunca fiz.

Vou sentir falta de você comprar antimofo pra mim, mesmo eu sendo tão desligada e relapsa a ponto de colocar no armário sem abrir. E de isso ser só mais um motivo pra rirmos juntos.

Vou sentir falta do dilema na hora do almoço, cada um querendo ir pra um lugar, e nenhum dos dois gostando de nada.

Vou sentir falta dos mil emojis nas mensagens e dos planos mirabolantes de bandas só para baixinhos e de enfiar "prolapso" nas conversas.

Vou sentir falta de "dar crise de ciúme" fingindo seriedade e você me fazer rir, porque me conhece e sabe que sempre fomos mais do que isso.

Vou sentir falta de começar a brigar contigo do nada e você me fazer cair na gargalhada. E de cair na gargalhada por várias coisas idiotas. Afinal, a culpa é minha e eu coloco ela em quem eu quiser. Geralmente, em você "mermo".

Vou sentir falta de perdermos o sono de madrugada (tão raro...) e ficarmos trabalhando ou rindo de idiotices, ou na maioria das vezes as duas coisas.

Vou sentir falta da nossa parceria pra sair de tretas. E de você ter ficado do meu lado em situações em que nem eu mesma fiquei.

7.9.18

A coberta é curta

Dias desses, olhando essas paredes lousa que já saíram de moda, me veio você. Eu me lembrei de quando nós dois tentamos fazer uma naquele conjugado alugado minúsculo na praia do Flamengo, tão nosso, e acabamos sujos, suados e com falta de ar daquele cheiro insuportável.

E então rimos.

A casa estava de pernas pro ar com nossa mudança recém-feita. E tinha algum resto de macarrão seco do dia anterior na panela, em cima do fogão.

Eu diria que só nos preocupamos com a cama, mas estaria mentindo. Nós largamos o colchão perto da janela, e não nos importávamos muito com nada além de criar juntos. Nossas esculturas, quadros, seus negativos de fotos pendurados naquele varal improvisado.

Eu comecei a me perguntar em que momento nós dois deixamos de ser.

4.9.18

Tudo aquilo que nunca fomos

Hoje, que estou um pouco mais fria de nós, acho que consigo explicar o que nunca consegui: aquilo que eu queria que nós dois tivéssemos sido.

Eu estaria mentindo se dissesse que não quero mais, que a centelha de esperança já não queima. Eu me fiz esfriar de você, é verdade, mas você ainda não se foi. Você não irá completamente agora, nem amanhã ou no próximo mês.

Eu só queria que nós dois tivéssemos sido reais. É pedinte demais falar assim, não é? Essas coisas acontecem ou não, não se podem exigir. Por isso digo isso não como quem pede – ou precisa –, mas como quem passou meses analisando sentimentos – esses inanalisáveis – e hoje acha que tem uma resposta bem estruturada e pretensamente lógica.

Eu queria que nós tivéssemos construído alguma coisa. Suficiente pra você me procurar de madrugada sem motivo, sem entrelinhas, só porque precisa. Suficiente pra eu te dizer que preciso encostar a cabeça no seu peito, e só isso mesmo, sem nenhuma intenção ou tática mirabolante de conquista por trás.

Eu queria que você soubesse que se te falei tal coisa, foi porque você é a pessoa no mundo que me deixa confortável pra isso, e não porque estou jogando ou não tive opção. Eu queria saber que não faz diferença você sumir ou aparecer, nada disso faria nós dois – o que quer que isso significasse – desvanecer.

2.9.18

Involuntário

Ontem, quando esbarrei com você no gargalo daquele show, bem na hora daquela maldita música, parece que tudo o que botamos pra dormir veio à tona.

Minha garganta secou, você gaguejou. Minhas palavras não saíram, as suas se entrecortaram no nosso cumprimento desajeitado.

Não sei o que é mais esquisito. Quando éramos íntimos, sem ser; ou agora, que somos estranhos, sem ser. Acontece que nós dois desistimos, mas isso não quer dizer que acabou.

É uma meia verdade aquele clichê de que o tempo leva todas as coisas. Na verdade, sempre achei que o tempo só "empurrasse", como uma correnteza difícil demais de vencer. Mas, nessa, muitas roupas e cabelos são deixados pra trás.