26.9.18

Ainda bem que estamos aqui

Viver com outra pessoa é um inferno.

Viver junto enlouquece, faz você querer matar o outro, se matar, aliás, que não dá cadeia nem precisa se livrar do corpo. Viver junto é quase penitência pra pagar pecado de várias encarnações. Viver junto é teste de resistência.

Mas, se é com você, as coisas mudam um pouquinho.

Porque com você tem magia, tem sorriso bobo, tem risada de manhã, tem chamego gostoso de noite. E como, depois de você, eu saberia viver sozinha de novo?

Sem você acordar cedo pra preparar meu café, mas eu acordar, só beber Coca-cola e sair. E reclamar que você fuma e isso faz mal. Você arrumando minhas roupas, e eu bagunçando tudo e depois te perguntando onde deixei.

Você imitando coruja, eu debochando das cantoras que você gosta. Você me sujando de brigadeiro, eu me pendurando em você e tentando te derrubar da cadeira. (Mas quem já me derrubou da cama foi você.)

Você fazendo a conjuração de papa Justify no banheiro, eu contando histórias que te fazem acender a luz de madrugada. E eu falando que você é esquisito. E você falando que sou esquisita.

E nosso fingimento em não nos importar, acusando o outro de orgulhoso, quando essa disputa no final das contas dá empate.

Viver junto enlouquece, viver junto enlouquece mesmo. Mas eu não troco viver com você por nada nesse mundo. Eu não troco ter seu cheiro enchendo minha casa, suas roupas emboladas com as minhas, seus livros em cima dos meus, seu fone na minha bolsa, meu prendedor de cabelo no seu bolso.

E ainda bem que viver junto enlouquece, só pra lembrar que insanidade de verdade seria ter nos negado. E ainda bem que viver junto dá vontade de matar, porque são nossos demônios que matamos juntos todos os dias.

E ainda bem que tenho um razoável conhecimento de escalas, e te respondi certo aquele dia que nos conhecemos, mesmo estando bêbada até pra lembrar meu nome – e realmente te dei um nome falso. Ainda bem, principalmente, que não precisei descobrir, como te perguntei aquele dia no aeroporto, como íamos fazer pra conseguir acordar e dormir sem o outro todos os dias, porque ligamos o foda-se pro mundo e escolhemos pagar pra ver.

Ainda bem que estamos aqui.

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