30.12.18

Estradas

Encontros e desencontros, em salas de apartamentos em todas as "zonas" dessa cidade. Suas mãos em mim da primeira vez, as minhas em você da segunda. E essas sutilezas bobas de quem domina quando se percorre o caminho. Besteira mesmo, a bússola é sua.

Os sonhos, os versos, as melodias, os sussurros, as linhas nos meus desenhos. É sempre você quem comanda a pena. Seja a que escreve, seja a do veredito.

E todas aquelas conversas, cheias de intenções porcamente escondidas, sobre Bach, escalas diatônicas e amor líquido. E nossas intenções, nem tão escondidas assim, em conversas sobre assuntos que ferem, irresponsabilidades afetivas e palavras sufocadas em aeroportos.

São muitas estradas. Estradas que nos afastaram, as mesmas que, tão maldosamente sinuosas, nos colocaram frente a frente de novo. De novo meu motivo era outro, e, no entanto, você chegou marcando o território, que, tão óbvio, sempre seria seu. Sempre foi.

14.12.18

Marlboro Vermelho

Gaúcho não sente frio.

Você tava pelado, apoiado no peitoril fumando quando me disse isso. Eu tinha feito uma piada bem chula sobre o tamanho.

O vento gelado que invadia o quarto marcava a contradição. Carioca sente frio fácil, quaisquer 20 graus impressionam, mas do seu lado não me atingia.

O Marlboro Vermelho na sua mão era o mesmo. Suas mãos eram as mesmas. Os cenários mudavam. Eles sempre mudavam.

Você me pegando com força por trás, escorados na janela, nossa euforia muito mais frenética que a do rush da cidade lá embaixo. O cigarro na boca enquanto segurava com força meus cabelos.

A fumaça quente do Marlboro Vermelho se misturava à do clima, e ambas diluíam juntas nossos gritos, urros, uivos. Toda essa coisa animal tão nossa.

Fazendo as malas

Não é ego, controle ou o que quer que seja, rapaz. É a indiferença.

Nesse tipo de situação nós só temos duas opções, bem claras e distintas, e é óbvio que eu já escolhi a minha. Eu diria que você escolheu por mim, na verdade, mas, como nessas horas é muito fácil se isentar, ficamos assim.

Só que eu ainda estou fazendo as malas. No gerúndio mesmo, essas coisas são processo. Tá tudo misturado, tem muita coisa pra separar aqui. E eu nem sei se já achei tudo.

Estou escolhendo o que vou levar comigo, o que vou deixar com você, o que vou jogar fora, sem sequer te dar a oportunidade de guardar. Eu tenho esse direito, não tenho?

Essa situação não é das mais comuns, eu sei. Geralmente não temos esse tempo, as coisas acontecem bem mais de rompante.

Por um lado o rompante é bom, dizem que é assim que se arrancam curativos. Mas e se o caso é um pouco mais invasivo, quase cirúrgico, você pode simplesmente ficar sangrando aberto por aí?

Lábia (e parênteses)

Como posso me fazer entender com essa daqui?

Bem, uma das coisas mais inusitadas sobre você talvez seja o currículo, digamos. Não todo, mas uma parte bem específica. Aquela da época em que você dava aulas de educação sexual no puteiro.

Lembro de você apelando pra todos os santos (alguns nem tão santos assim) que serviam de cobaia para as demonstrações.

Você convencia. Você sempre convencia.

E eu ria de longe das cenas. Ou talvez eu só ria na fusão de tesão e admiração por essa sua catadura um tanto tratante. Não sem certo ciúme quando alguma das "moças donzelas" se aproximava com dúvidas, claramente flertando com você. (Não, não tem como se sair dessa, nem vem.)

E pouco importa se toda a cena era só pra gente entrar de graça em todos os inferninhos da cidade e morrer de rir juntos depois, um atrapalhando o outro com alguma lembrança aleatória bem na hora que o outro começava a pegar no sono.

13.12.18

Ela era Peixes

O dia que nos conhecemos me marcou pra sempre.

Ela estava apoiada no bar brincando com o copo enquanto esperava o próximo drink, distraída. Eu perguntei se ela preferia azul ou vermelho.

Foi uma referência idiota por causa da sua tatuagem nas costas.

Os cabelos presos, tão simbólicos, mascaravam segredos. Era sua maneira de sangrar seus muros e reservas: ela não se dava.

Eu lembro das risadas fáceis, do jeito leve de caminhar, da sobrancelha inquiridora quando eu soltava alguma das minhas cantadas bem trash.

Ela era Peixes, é claro.

Colocações

Disse Greimas que fora do texto não há salvação. Ou algo do tipo considerado o telefone sem fio do cacete que essas citações – traduzidas, ainda! – que ficam famosas são.

Isso tudo são clichês, aqueles inevitáveis com que nos deparamos todos os dias, como nossos óculos óbvios, cafés necessários e debates que, sem falsa modéstia, entramos pra ganhar.

Hoje eu fui naquela livraria, e me peguei pensando em coisas chatas sobre hifens mal colocados e caixas-altas tão desnecessárias. E sobre se mal colocado não deveria ser escrito junto e sobre o quanto esse plural de caixa-alta é nojento.

E ri sozinha lembrando de nós dois discutindo inflamados coisas desse tipo entre cervejas em pleno Carnaval carioca. Entre nossos contrastantes gestos tão espalhafatosos e todas as entrelinhas de personalidades trancafiadas.

Eu sinto falta, sabia? Eventualmente, é claro. 

E eu senti falta hoje.

Cicatrizes

Cicatrizes, eu amo as suas cicatrizes.

A ação do colágeno, um tanto maliciosa, grita na pele que você nunca mais poderia ser o mesmo nem depois de um arranhão na grade do primeiro show que você foi da sua banda preferida, nem depois de uma briga de bar, que você entrou por engano, sendo confundido com um ator pornô.

E os percalços, que às vezes tentamos esconder, vão ficando nessa tela que carregamos. É nossa história, afinal, que está ali. O que somos. Ou melhor, como nos tornamos.

Nenhuma tempestade passa incólume.

E eu gosto de me perder nesse mapa das suas histórias.

Da cicatriz pequena atrás do joelho, de quando você era criança e sua mãe pedia pra não correr tanto no skate, àquela maior, no final da canela, de quando você falou pra você mesmo que não devia correr tanto no skate.

Ficam as cicatrizes.

12.12.18

Ímpeto

Quebra-cabeças, mesas de sinuca e tabuleiros de xadrez.

Todos são suporte da estratégia, é assim que se vence, falaram. E, no entanto, toda boa engenhosidade se perde sem ação.

Ontem, quando estávamos conversando, eu mal tinha começado a formular a frase, e você já sabia.

Talvez pareça metafórico, exacerbado ou até meio místico, mas não tem nada de sobrenatural no seu jeito realizador.

Eu nem ia falar do seu ímpeto logo no começo, deixei cozinhando em banho-maria para mais tarde. Percebe a ironia?

11.12.18

Frango caprese

Frango caprese.

Não é metáfora.

Tomate, vinho branco, manjericão, pimenta-do-reino, essa coisa toda. Ah, muçarela de búfala. Rúcula? Talvez, não lembro.

E você cozinhando pelado na minha cozinha. Pelado, não, deixe-me ser fiel aos detalhes. Você estava usando um avental todo preto, com um laço muito mal dado, escorregando pra direita, como se fosse se soltar a qualquer momento. Por baixo, pelado, sim.

E eu apoiada na bancada da cozinha americana, com a taça na mão, bebendo seu vinho, babando sua bunda. Em algum momento essa baba deve ter sido literal, não duvido. Dava pra ver o seu pau conforme você se movimentava, por trás, entre as coxas.

10.12.18

Olhos (ou clichês, o que dá no mesmo)

A primeira coisa que reparei quando nos conhecemos foram seus olhos. Clichê, clichê demais. Clichê pra nós dois, ebulição criativa. Clichê considerando que, em parte, a gente já se conhecia.

A maioria das pessoas fica primeiro literalmente nua quando conhece alguém, bem antes de isso se tornar uma metáfora. Nós fizemos o caminho inverso.

Dizem que os olhos são os espelhos da alma, mas quando conheci seus olhos, de perto, de troca, de fixo (de verdade, em suma), já compartilhávamos nossas almas, elas passaram na frente.

Seus olhos foram portais tardios. 

Eu nunca vou me esquecer de quando abri a porta daquele quarto de hotel barato no centro da cidade.

9.12.18

Voz

Voz. Voz é foda. Esse seu timbre e jeito de falar meio sussurrado então me matam.

Você faz de propósito, né? Sabe que eu perco fácil a calcinha e o juízo, coisas que nunca me preocupei muito em vestir perto de você, aliás.

E junta o sotaque, e junta a patifaria, e juntam seus s. Ah, eu sou completamente vendida.

Fazia tempo que eu não ouvia sua voz. Foi aquela ligação, tão despretensiosa, sobre apartamentos e cidades que sabem ao mesmo tempo nos acolher e nos sacudir. Que sabem nos fazer sentir vivos.

Talvez por isso minha cisma com essa cidade, é bem o equilíbrio dessa dualidade que sua voz me causa.

Causa. Sua voz é facilmente uma das minhas causas mais traiçoeiras.

Eu tinha me esquecido.