25.12.19

Destino

O destino é o Senhor do tempo. O dono da razão. Aquele que revela fortes e traidores. O guardião da verdade. Mas só quando nos cabe, é claro.

Ninguém acredita em destino quando entra no bar bem na hora que o Shawn Mendes cruzou a porta. É azar, é acaso.

Não existe destino se você chega dois fucking minutos atrasado e aquela pessoa entrou no avião e todas as palavras ficaram por ser ditas. Ou ficariam, já que o advento da internet tira todo o romantismo das perdas.

Foi destino nos encontrarmos naquela festa. Nos esbarramos na mesma esquina, viajarmos para a mesma cidade. Eu nunca acreditei em coincidências, não disse?

All you need is love

Ir ao psicólogo pra quê, se não quero confiar em ninguém?, questionava a si mesma buscando em desespero uma resposta na sala vazia.

Vazia, alegoria perfeita de como se sentia. A solidão não é ma, há muito já se acostumara e acreditava até que gostava. Era o desamparo. O desamparo é o que massacra, a total certeza de que não há lugar para o qual voltar. E não havia.

Mas todas as pessoas têm, pensava; se iludia ou invejava, era impossível dizer ao certo. Nunca adotou o estigma de que "isso só acontece comigo", então questionava, sem dúvida nenhuma, questionava, era isso.

Como as pessoas viviam aparentemente felizes sorrindo em grupos? Não viam, não percebiam, relevavam, não se importavam? Não era possível que todos os males do mundo tivessem escolhido se acometer exclusivamente só a ela, isso não existe.

Brincava que era Lúcifer. Não o real, que sadismo cruel existir mais vida após esta. O da série, ela sentia que despertava o pior lado das pessoas, bastavam se aproximar e se mostravam. Se mostravam fácil, se mostravam rápido, se mostravam e não era surpresa mas surpreendia.

14.11.19

Uma vida

Deve ser legal ser a Sra Sua. Chegar em jantares pomposos com você de braço dado e salto alto. (Deus abençoe esparadrapo e benzocaína.) Nós dois fingindo que nunca sonhamos com o cheiro da carne de panela de segunda da casa do vizinho ou que não gostamos de Sandy e Jr. Sorrindo ouvindo Édith Piaf e comendo lagosta (a que o Allegra te deixa fingir que não tem alergia).

Nós dois rindo no banheiro por eu ter descolado uma penca de coxinha no buffet da festa que eles fizeram mais cedo. E você fingindo que é mulher, afinando a voz de barítono, quando percebe que entraram na baia do lado. Seu falsete é péssimo, sussurro. É mentira, e você sabe. A gente se olha, e tudo em volta é fogo. Nós dois somos fogo. Só existe isso.

Você com todo seu palavreado obsequioso, eu botando pra jogo aqueles tempos de infância em que ficava decorando dicionário. Acho que lancei um "amplexo" automático pra alguém ainda há pouco, ou não? Só pra mandarmos um "partiu podrão, lek?" um pro outro quando alguém se afasta.

A gente sabe das nossas referências forjadas a Hemingway e dos contos sobre necrofilia. Álvares de Azevedo se regozija no inferno, espero, de orgulho dos pupilos. Nós. Uma palavra.

7.11.19

Sina

Acendo um cigarro na varanda contemplativa.

Tudo o que eu queria hoje era dar umazinha contigo, igual àquela última aqui em casa, bem aqui.

Era só uma carona do nosso encontro por acaso e umas cervejas não planejadas no caminho. Mas casa vazia e aquela água vira uma referência nossa, música no violão e olhares que esquentam.

Vejo as luzes da cidade plana, uma bebida nem sei de quem que achei na geladeira, você chega manso por trás, cheira minha nuca, pescoço, colo. Suas mãos navegam donas até dentro da minha calça.

O cheiro do meu desejo por você invade o ar, e eu louca pra que você sinta o jeito como você me deixa.

Você se abaixa, abre o zíper, desce a calça até o meio das minhas coxas, puxa a calcinha de lado. Passa a língua devagar pelos lábios, de um lado pro outro, até chegar no grelo. Eu cravo minhas unhas nas suas costas, encharcando sua barba por fazer.

Me esfrego na sua cara pra você saber quem manda. Te seguro pelos cabelos, te olho nos olhos. Nesse jogo eu que dito as regras. Sento em você devagar, quero te mostrar cada pedacinho de mim, te engolindo aos poucos. 

4.11.19

Deixa eu te curar

Essa sua covardia é patética, sabia?

Toda vez que você acha que se entregou demais, fica uns dias me tratando mal, forjando distanciamento. Como se eu tivesse culpa das coisas que te causo.

Não precisa desse trauma todo, não.

Já te disse que pra você sou colo e calmaria. A ebulição e o êxtase você já conhece, então deixa eu te mostrar o resto.

Tolice você insistir em ficar se negando. Fugindo de você mesmo desse jeito.

Por quê?

Todo ser humano tem medo. Essa ideia de dar um poder quase mítico a algumas pessoas foi o maior golpe que nos ensinaram.

Lapsos

Show de blues e esse parque gigante referência da cidade. Do país, arrisco dizer. Tudo o que eu queria agora era um cigarro e você.

Como não posso ter nenhum dos dois, me contento com a long neck servindo de símbolo fálico. Com a tal história de ver o lado bom das coisas, que é de fato muito bom e que são de fato muitas coisas, daquele tipo que a gente, acostumado a se menosprezar e anular e castrar, nunca imagina espera muito menos acha que merece. Mas e daí?

Nada muda o fato de que não é você.

Solo cheio de firula e comoção, mãos pra cima em catarse, clima gostoso de prenúncio de verão e a cerveja que milagrosamente ainda tá gelada, mesmo após o hiato em que me perdi nesses devaneios.

Mas não é você.

Nos meus pensamentos, a gente tá aqui. E eu te imagino e te conserto, como disseram. Te tiro em um segundo desses não sei quantos km de distância, que não preciso falar ao certo, colocar teu RG aqui ou teu sapato 41, você sabe muito bem que tô falando de você.

Imagens

Nós dois. Identificação e conversa fácil, mascarando outras intenções. Aura gostosa de sedução e descoberta. A provocação trocada pra ver quem cede primeiro.

Te peço pra desenhar qualquer coisa nas minhas costas. É sempre mais sedutor juntar sexo e nossos talentos. Você sorri soberbo levantando a cabeça e apertando os olhos verdes. Verdes. A cor que só 2% da população tem. E é dessa mesma cor a caneta Bic já gasta que te ofereço.

Você espalma as mãos pesadas e quentes pelas minhas costas, subindo devagar, sem tirar minha blusa, por baixo dela, sentindo a pele. E aproxima seu corpo de mim. Me deixando antecipar o quanto você também quer. Não, você não encosta. Só deixa espaço suficiente pra eu sentir sua temperatura.

E roça a barba na lateral da minha nuca, na dose certa pra eu não saber se foi proposital, perguntando se tenho alguma preferência. É, arrepiei, sim. Nem adianta implicar com esse ar de superioridade - falso - que minhas bochechas ficaram vermelhas. Foi meio timidez e meio tesão ao mesmo tempo. Queimando você.

Sua voz perfeitamente colocada, seu cinismo, seus traços, seu signo. O mesmo que o meu.

O momento "fudeu"


Quando você tem uma vontade louca de agarrar ele pela barra da calça, sem importar onde vocês estão, você ainda está em um nível seguro.

Foda é quando você se pega lembrando do dia que vocês estavam em um grupo de amigos, e a primeira pessoa pra quem ele olhou quando riu de alguma coisa que disseram foi você.

Quando você sente o corpo esquentar só com o "boa noite" grave e encorpado que ele te dá quando vocês se cruzam, você não tem com o que se preocupar.

Foda é quando você perde o sono pensando naquela madrugada que vocês viraram conversando sobre assuntos que você nem sabia que existiam, que te fizeram ficar vermelha em vários momentos.

Quando você se sente vitoriosa porque desconcertou ele, fez ele perder o fio da meada, te dar uma secada indevida, balela!

3.10.19

Nunca

Aquela noite eu bati bem onde dói, né?

Você ficou muda.

Eu também fiquei. Olhando pra frente, sem te encarar. Não dava depois de ter sido tão preciso sobre coisas que eu nunca saberia. E consciente, de um jeito áspero, de tudo o que você tava sentindo.

Porque era no meu corpo que corria, entende?

É por isso que é tão fácil. Eu sempre sei. Não preciso te ler, sentir que seu abraço dessa vez foi tremido e sua voz tentava, muito mal, esconder uma mágoa profunda. Que se instalou aí. Que sua respiração, sempre tão diafragmaticamente perfeita, tava curtinha. E que você muda o jeito de falar o final das sílabas. Eu não preciso.

Porque eu sinto.

A minha respiração foge junto. Lá pra longe desse quarto. Como fugiu também dessas paredes tudo o que um dia pretendemos ser. E nunca fomos.

Nunca demos aquele passo. Nunca fechamos os olhos. Nunca demos as mãos.

Pelo mesmo motivo que não gosto de drogas.

26.8.19

Codinome Elizabeth

Hoje me veio o dia em que você conheceu minha casa.

Você sem jeito tocando Codinome beija-flor, sentado na beirada da cama; aquele nosso afã de primeira vez, seu cheiro doce impregnado nos lençóis, minha respiração aconchegada na sua nuca.

E então me veio em seguida nosso último encontro, cheio de tentativas desinteressadas de amizade, emoções cinza, músicas nossas de que tive que me desfazer.

Um tanto chocante constatar o tom premonitório no quanto a música faria sentido depois.

Delicatessens deslocadas tocando rock no meio de uma rua feia. Becos que se pretendem coloridos, artísticos, líricos. Tão insossos, óbvios, sujos. Avisos sugestivos no metrô lotado de indiferenças. E todo o desencontro entre sensações e palavras, e minha apropriação um tanto anacrônica de suas ideias e sentimentos. Pores do sol no lugar errado, na hora errada, impressões erradas. Tudo, tudo errado.

15.8.19

Tim-tim

Em algum lugar dessa cidade, você tá pensando em mim.

O limão mal batido no copo, o gelo que, mesmo no frio, derrete rápido demais. E as músicas de sempre. As que falam de desistências, falsas tentativas e amores sublimados. Um monte de acordes ladeados em vão.

A cadência da mão do músico é tediosa. Você gargalha entorpecida por qualquer insensatez. E se apropria do alheio e foge de novo.

Alguém furou o sinal, você deu um encontrão em um cara gostoso, essa fumaça que sopraram agora é de?

Nenhum excesso camufla a vil realidade. Não, não me venha cheia dos relativismos. Quando foi mesmo que você acreditou neles?

8.7.19

Pandora

Um templo
desses de pedra
de parcos vitrais excessivos em suas cores
encomendados por falidos mecenas
de profetas fadados a suas escrituras
dos amores que começam desfeitos
das promessas de guerra que, sob a cruz, se emudecem
e de santos que, em 365 dias, distantes, curam todos os males da terra
com a morte
e só beatificam a heresia de quem comunga de suas nascentes

2.7.19

All about us

Você, que maldita.

Me vem toda leviana dizer que sonhou com minha boca no meio das suas pernas. E eu já queimo de vontade de sentir suas coxas apertando meu pescoço.

Foi naquela livraria.

Palestra, dia de semana. O tédio dos nossos compromissos e sua calcinha branca toda enfiada marcando por baixo do vestido.

Certos descuidos deveriam ser crime. Alça caindo insistente, sorriso de lado, cruzada de pernas.

Foi no estoque, aliás.

4.6.19

You know my heart is true

A gente podia se dar uma quinta, sexta, vigésima chance. Não é poetização, eu não lembro em qual número estaríamos, nem sei se dá pra definir um.

Foi aquela música do Van Halen. A mesma que já tocou no bar, no carro, no quarto. Que já trocamos por mensagem em algum momento, naqueles arroubos de quero falar mas não sei se devo. Ela sempre me traz você, não é hipérbole.

13.5.19

Boto

Segunda-feira. Nos conhecemos como um golpe do destino fazendo valer aquela velha história de estar na hora certa no lugar certo.

Tinha que ser.

Apesar de todas as arestas [definitivamente, eu não me arrependo de nada].

12.5.19

Multidões

Teu cheiro ainda tava no meu colchão.

Tive que mandar incinerar.

Comprei outro, Ortobom, de mola, coisa fina.

Depois de algum tempo, o teu cheiro voltou a se infiltrar nele.

Tive que mandar incinerar.

8.5.19

Cilício

Sobre a pele silencia o que sob ela espeta
Chuta como irrelevante a urgente agonia
Inerente a toda sorrateira madrugada
Sempre obscura, traiçoeira e culpada

Impiedosa, a noite te puxa o tapete
Expõe teus restos de cartas rasgadas
Expõe pentelhos de sangue ainda enraizado
Um capricho do Diabo, nunca você mesmo

2.5.19

Arremate

Quando do camelo lépida lhe desvelei a pata
O esputo involuntário gotejou-lhe a parca beca
Mimetizando a Excalibur em inconcussa robustez 
O delíquio consumado da empapada perseguida

De mastodôntica, claudiquei temendo duplicata
Mal sabendo que claudicante era minha peca
Do ato que se diz foedere por me cavares a vez
Gemidos desmedidos. Fomos pegos de calça caída

1.5.19

Transversais

Eu quis nos tornar transversais, coplanares e interceptados,  mas você argumentou que não precisava disso tudo, porque as retas paralelas se tocam no infinito.

Todos os livros de matemática te aplaudiram e deram razão. Mas, no entanto, quem já chegou até lá?

30.4.19

Nus

Nos vimos nus, e a nudez descortinava nossas almas.

Nos vimos nus, e era nudez em olhares e toques.

Era também nudez dos nossos desejos incompreendidos, da nossa sede de vida pouco compartilhada, da nossa total ausência de amarras.

29.4.19

Reticências

Eu queria não conhecer você. Não saber os motivos de suas ausências e de seus "reaparecimentos". Não entender a diferença entre as vezes que você só precisa descarregar uma declaração aleatória sobre "vir constituir família comigo" ou aquelas em que estende conversas de assuntos variados. Ou até mesmo as entrelinhas de risadas efusivas em caixa-alta, sexo-drogas-rocknroll-memes blá-blá-blá e quaisquer assuntos tão superficiais. Tudo o que você não é...

Não, a culpa não é do posicionamento de Gêmeos no seu mapa. Mas até que, como Gêmeos, é um excelente disfarce...

Eu queria muito, muito mesmo, não sentir você mesmo quando não estamos sequer nos falando. Queria não ler você nesses lapsos. Não ler você sem precisar ter nada de você, apenas por saber, ter essa sua presença aqui comigo...

17.4.19

Saudade não deveria ser considerada stalk

É, eu sei. Não é a primeira vez que digo que não vou mais te procurar ou, pior, te escrever. Mas seu áudio bêbado de ontem à noite me fez pensar no quanto nós dois falhamos, o que alivia minha culpa em não conseguir soltar o meu lado dessa maldita corda.

Você era meu melhor personagem. Mas precisei matar você. Meus textos e músicas não têm mais a mesma graça, mas o que posso fazer? Eram os textos ou eu, e às vezes até artistas precisam ser um pouco egoístas.

Mas ontem eu falhei. E não falhei por este texto aqui. Este texto é só minha confissão pública. Falhei porque precisei ver você.

10.3.19

Iludindo corações... e pirocas

Fazia tempo que eu queria traçar Valentina e sabia muito bem que a candanga já manjava ferozmente esse material esculpido pelos deuses vulgarmente conhecido como eu.

Na época, ambos tínhamos mais de um cônjuge oficial, titular, reserva, extraoficial, bandeirinha, cambista - era nem time, era arquibancada. Então, por motivos de força maior, ela ainda não tinha conhecido a força maior, se é que me entendem.

Copo vai, copo vem, e aquele papo vaselina (um tanto quanto literal) cheio de assuntos ambíguos, eu já com a espiga de milho no bolso, rola (que tal) aquele momento de tensão sem n no ar. Ligamos o foda-se e também a ignição, já que não seria de bom-tom fazer o malfeito feito em público.

Romântico inveterado, sou adepto do bom e velho motel das estrelas, mas, como aquela mulher merecia o mais puro da nata dos motéis cariocas, a levei em um bairro de alta nobreza e um inferninho de indiscutível nível de lixo, digo, luxo, cujo custo beirava a casa das 50 pila.

Mal chegamos, eu nem acreditando que ia dar uma enterrada naquele 1m de raba, a fdp começa a ter crise de consciência.

Que isso, Valentina, isso daí já tá que nem coração de mãe, mais um menos um...

8.3.19

Dos fins que os começos decretam

Nós dois, que ironia.

Até nesses tropeços a gente continua entrelaçado.

Felicidade é tênue, eles disseram. Tem muita dose de aceitar aquilo que não é exatamente, as suposições e os desvios. De engolir sapo e fechar os olhos. Nós que somos seres mequetrefes eternamente insatisfeitos e egoicos querendo tudo do nosso jeito.

Não endosso essa ideia, não, me desculpem. Tem coisa que se é pra ser torta, é melhor nem ser nada. Não existe aceitar raspas e restos e mentiras sinceras quando é nossa alma que está em jogo.

Amor pra fazer mal e/ou ser sutil é só aquele que a gente usa pra produzir arte, dar sentido a certas músicas e entender nuances da existência que de outro jeito nos escapariam. A máxima do Matanza, ou de Baden Powell (pode escolher), não vale pra relacionamentos reais, não mesmo.

Não é falta de felicidade nem de satisfação exatamente. Mas, de algum modo, caminha nessas searas, sim. Porque não tem como estar inteiro se você precisa fingir pra você mesmo que está e que não se importa.

Porque, se não tem integralidade, aquele "match" generalizado, da foda encaixada ao brilho no olho da madrugada (e a sintonia improvável sem nem precisar falar, ver, sei lá, coloca o verbo aí) não dá samba. Nem rock.

E então me vem você, todo esquivo, estampando desculpas e medos. Certezas absolutas pra nos negar... muito mais vazias do que minhas explicações atrapalhadas e cheias de mãos.

Você acha que é tudo uma puta ilusão, só porque Descartes passou longe (embora eu discorde). Mas, nessa queda de braço, desculpa de novo, ele perdeu, sim.


É claro que há muita coisa no caminho que não dá pra prever. Se restaurante japonês ou italiano, se prisões de passado ou inconstâncias de futuro. E tudo que respinga nesse ínterim em que inevitavelmente choro contido e acessos de raiva em algum momento vão dançar.

4.3.19

Sinal vermelho

Eu só queria te passar a vara quando te conheci.

Desse jeito bem chulo mesmo, como todas essas nossas necessidades humanas improrrogáveis.

Não foi mentira ter dito o quanto você é apaixonante. Mas eu, escaldado que sou, dificilmente cairia nessas redes.

E então me aparece você, suada e descabelada pós-rush carioca, maquiagem gasta de dia inteiro, tão calejada e cheia de maldade, e, no entanto, era só uma menininha de bochechas coradas quando vê o primeiro amor. Fodeu, eu fiquei nas suas mãos.

Nem o experimento de Stanford materializou de forma tão quase palpável qualquer livro de psicologia quanto você usando todas as formas pra me afastar. Você, em baixo-relevo, latinismo e entrada de dicionário, o protótipo perfeito.

Eu lia muito bem.

26.2.19

Metódicas Mãos

Os últimos dias foram ordinários, no sentido Nelson Rodrigues (ou "cumpade" Washington) mesmo. As roupas no chão lembrando nós dois.

Foi só um desleixo, que tingi com justificativas de vida corrida.

E então ali está, me encarando, quase inquirindo, o mesmo vestido amarelo que você quase rasgou da última vez.

Se eu tivesse aí já tinha arrancado, foi o que me fez cruzar de moto essa maldita serra que nos separa. Às 4h. Banalidades pra quem anda insone. Nem tão banais pra quem não se mexe muito em geral.

E lá estávamos. Bocas cativas, suores sedentos. Cheiros tão inconfessos. Suas mãos cindindo minha pele.

Pode ter certeza, o que mais fode minha mente nesse teu corpo infame são as mãos.

20.2.19

Desejo

Desejo primeiro que você tenha fé.

No que quer que seja, porque isso pouco importa. O que realmente te desejo é que você acredite e, no que acreditar, que lute por isso.

Eu desejo também que você seja grato.

Mas não essa besteira de "saber agradecer", não é isso. Eu desejo que você se sinta grato. Que se sinta satisfeito, que se sinta pleno. Que sinta que está exatamente onde deveria, e queria, estar. Grato pelas pessoas que te cercam, grato pelo cotidiano que te envolve.

Desejo que tudo isso te satisfaça a nível de alma. Porque satisfazer o corpo ou a mente é fácil, mas a alma é difícil. Principalmente pra pessoas tão complexas, cheias de nuances e camadas, como você.

E desejo que, no caminho, você tenha problemas. Não, não desejo mesmo que a vida te livre deles, eu nunca desejaria isso a você. Porque são os problemas que nos fazem saber que somos capazes naqueles momentos em que duvidamos. Mas desejo também que o amargor que eles deixam seja somente retrogosto, porque é importante lembrar, e nunca superfície, porque manter a leveza é essencial.

8.2.19

Imanência

Deep Purple sempre me lembra você.

E não é por ser uma das suas preferidas, claro que não. Nem pelas conversas em bares com fundo musical óbvio e conversas que vão desde passas ao rum ser um absurdo ao índice da Nasdaq de semana passada, mais ainda.

É metade a coisa antiquada, mas com ares de libertação, tão caros ao novo, ao imediato e a tudo o que a gente respira por aí.

Controvérsias dos nossos muitos eus em mutação disputando nosso pódio.

E metade aquela coisa do falsete largado no ar, como se não tivesse desfecho, que simplesmente se dissolve.

5.2.19

Continuum

Houve uma festa.

Nós estávamos nela, é claro. Nós estávamos exatamente na mesma parte do bar, aliás, que é tudo menos grande. Mas não nos encontramos.

Você se pegava em novos ares. Eu tentava renovar os antigos.

Houve motivos, depois.

Motivos que nos levaram a outra festa. Outro dia, outro mês. No mesmo lugar. Você precisava trabalhar; eu, me livrar um pouco desse excesso. Coincidentes opostos no mesmo copo.

Houve muito mais coisas, então.

27.1.19

Aquilo que não se explica

Não adianta eu explicar o que você nunca vai entender. Não existe didática que esmiúçe as coisas que só se sabem ou se sentem, por saber ou sentir.

Estamos em lados opostos.

Não é só isso. São lados apartados, aliás. E esse muro, tão impiedosamente sólido, não permite tradução. Ele é categórico. Ou você está de um lado ou de outro. E aqui, desse lado, planilhas e cálculos são completamente inúteis. A bússola precisa ser abstrata, e você trouxe agulhas.

O resto dos dias são lágrimas do que nunca foi, do que poderia ter sido. Porque se aconteceu ou não é irrelevante, a forma real como as coisas acontecem é sempre mais dolorosa do que a ilusão do que não se concretiza.

E se eu sinto dor, saudade ou o que quer que seja dessa isotopia, é só das coisas que naufragaram dentro de mim, e nada daquelas que de fato tivemos (verbo ter, malícias da língua). Essas são terríveis, como tudo o que concerne ao mundo real, como eles disseram.

Você fica arrepiada quando sabe a história por trás de uma obra. E quando sabe principalmente que tanta dor frutificou, "fez o nome de alguém".

Você é superficial.

26.1.19

Cabelos negros

A gente vai ficar sempre assim, não é? Nesse chove não molha. Nessas alfinetadas tão subliminares e protegidas que resultam no máximo em um sorrisinho bobo, por puro reflexo.

É que meu corpo ainda não consegue não reagir.

São muitas mãos, falas afetadas atropeladas, cadeiras difíceis demais de arrastar e esse monte de eco.

São detalhes. Você sabe o que todos eles querem dizer. E eu também sei, é claro, embora se houvesse aquele famoso "contra a parede" nós dois seríamos pura dissimulação e casualidades.

Olha, eu não estou indiferente. Passaram-se meses, passaram-se anos. Você não passou.

23.1.19

Uma janela imaginária num país imaginário

A Carolina prefere o mistério.

Ela não sabe o que fazer com certezas taxativas, nítidas aparições visíveis a olho nu, sons cristalinos, objetos voadores plenamente identificados, apresentadores de talk shows pré-gravados, nada disso tem utilidade para ela.

Um mundo sem duendes e inscrições ocultas em palimpsestos é o inverso de um universo essencial para a Carolina.

Imagina se ela vai abrir mão de abrir, num dia de sufocante verão carioca, de abrir a porta, qualquer porta (até mesmo uma janela [qualquer que seja {até mesmo uma janela imaginária num país imaginário}])* e se deparar com uma extraordinária fuga de um dia ordinário, rotineiro, um dia filho de um engenheiro civil que sonha com pontes e concreto armado; a Carolina prefere o mistério, isso talvez explique tudo.

Casa

Às vezes eu agradeço. Não sei bem a quem ou a quê, céticos que somos.

Eu só agradeço.

Agradeço aquele péssimo dia no trabalho que fez a gente se aproximar. Aquele trabalho malfeito que caiu na nossa mão pra gente resolver e aquela conversa sobre trocar de apartamento.

E tudo o que veio depois. Os prints da madrugada e os áudios na hora do almoço. Os desabafos necessários e as risadas levianas, mais necessárias ainda.

18.1.19

Você sabe por quê?

Sabe por que não tratei nem trato você como doente?

Porque desde que te conheci, quando olho pra você...

Eu vejo esse homão da porra alto, forte, gostoso e lindo que você é, com esse braço que eu queria arrancar e deixar enfeitando a minha sala...

Eu vejo o pai mais foda que já conheci, preocupado, atento, carinhoso, orgulhoso da cria...

Eu vejo um puta profissional, responsável, que pensa nos detalhes que escapam à maioria das pessoas...

Eu vejo um artista que admiro pra caralho, uma potência criativa linda misturada a um conhecimento técnico absurdo e a uma articulação disso tudo que me faz querer lamber sua mente...

Que assim que começou a conversar sobre drama contemporâneo e arte comigo já me fez querer ter sempre do meu lado...

Que tem conversas complexas ou chatas demais para a maioria, e que ao mesmo tempo sabe ter as conversas bobas que a maioria também não entende...

Que ouve de metal a sertanejo comigo e entende que a vida é algo além das fronteiras das insistentes classificações...

Eu vejo um homem que só de olhar, não, claro que não, só de pensar já me dá um tesão absurdo, que só de colocar a mão no zíper da minha blusa, mesmo quando estamos em alguma situação que você não pode abri-lo, me transforma em incêndio...

17.1.19

Suas linhas, é óbvio

16h35, quarta-feira. Restos de quatro quentinhas acumulados dos últimos dias na bancada da cozinha. E eu mergulhada em um desses dias contemplativos ouvindo Jhonny Cash.

Você escreveu inspirado em uma foto minha? Volto a tela do celular e releio com mais atenção. Texto-foto, foto-texto. Sou eu.

Foi a primeira vez que te stalkeei.

Não exatamente você, claro que isso eu já tinha feito, mas as coisas que você escreve. Foi ali que eu descobri. Sim, era eu. Era sempre eu. Em todas elas. Nas esquinas, nas curvas, nos êxtases, nas ausências, na porra toda. Eu.

10.1.19

Cerveja

Água de coco e chimarrão, os mais óbvios de nós dois. E tudo que fica no caminho de traçado a Mezcal.

Mas se é pra falar de você, 13 coisas sobre você, tenho que falar de cerveja.

Se comercial, artesanal, se Polar (gozou só de ler, eu sei) ou Erdinger, essas besteiras pouco importam.

Esse fermentado vulgar, de fácil acesso e quase unanimidade, o mesmo que muito já percorreu simultaneamente meu corpo e sua língua na cobertura de frente pro caos da Avenida Paulista.

Esse xixi de bode, suco de milho, líquido dos deuses, em que a efusão das multidões e a anestesia do entorpecimento se encontram.

O mesmo que já gelou o meu grelo, com sua boca tórrida dando choque em seguida. O mesmo em que já escorregamos e quase demos de cara na estante que estávamos montando, rindo das nossas peripécias, pelados no chão do apartamento recém-alugado, todo caixas e expectativas.

9.1.19

Minha alma se parece com a sua

É assustador, e não é só porque nossa mente forma imagens dentro da mesma categoria de algum teste psicanalítico elaborado. Ou pelo nosso medo de morrer do mesmo jeito. Ou pelas noias que a gente pensa igual sem nunca ter conversado antes sobre elas.

Aquelas músicas nos tocam da mesma maneira e aqueles versos, tão ridículos pretensamente de alta cultura, arrancam de nós os mesmos olhares de desdém, com eventuais deboches entre os amigos.

Seu cheiro doce meio untuoso me invade enquanto eu sinto seu abraço nas minhas costas e isso me enche de paz. Não deveria, estávamos no meio da nossa foda dirigida pelo Tarantino. A vista de toda a cidade mais bonita do que de qualquer um de seus cartões-postais.

6.1.19

Avenida Paulista (ou acasos, o que é exatamente a mesma coisa)

Eu mal tinha passado o cartão de débito quando a atendente chamou meu nome e me entregou o frapuccino de caramelo. Uma ruiva com uns 2m de peito veio me falar que a bebida era dela.

Valentina, também. Nome pouco comum pra quem tá na casa dos 30, como nós.

Eu ri do equívoco. A mesma bebida preferida, o mesmo nome. Bem menos peito em mim, bem menos bunda nela. E um cara ao fundo rindo da cena me chamou mais atenção do que a coincidência.

Era você.

Nenhum de nós dois morava (nem gostava, aliás) naquela cidade. Eu tava passando o tempo de uma escala de quase um dia inteiro. Você tinha ido a trabalho.

Eu disfarcei quando a mulher perguntou se nos conhecíamos, você fez questão de falar umas besteiras que me deixaram sem saber onde enfiar a cara, embora eu soubesse muito bem que queria enfiar a cara no meio das suas pernas, como sempre.

Teve também o dia naquele inferninho num dos bairros mais sujos daquela cidade, outra, que, de novo, nós detestamos. Dessa vez, quem estava acompanhada era eu.

Bunda (e isso merecia ocupar todos os 13 tópicos)

Aqui mexendo na sua câmera sem nada pra fazer, sem muito jeito, enceno caras tão pernósticas no espelho. Eu tô sentada no chão quando você, sem se dar conta, me desconcentra dessa configuração do tal modo manual.

Você tira a roupa de costas pra mim, vejo o reflexo no espelho.

Você tá distraído procurando aquela camisa preta que eu detesto no monte de tantas outras roupas pretas que eu embolei ontem, mentalmente incomodado com a bagunça que faço nas nossas coisas.

Sua bunda.

Costas, cabelos, pelos da coxa e pala de pau, é claro. Mas sua bunda.

3.1.19

Covinhas

A primeira vez que reparei nas suas covinhas foi naquele meio sorriso que você deu por trás da taça que levava à boca.

A gente estava dividindo um Casillero del Diablo, molhando os pés em alguma parte cheia de mato do Paranoá que agora presumo ter sido o viveiro do Lago Norte, um pós-reveillon que até hoje não sabemos explicar como nos levou ali.

Nós dois tínhamos passado a virada em outras mãos, o que nunca fez a menor diferença. Quando a gente se sabe, se entende, se conecta, isso basta.

E a gente se conectou de verdade, pela primeira vez, ali. Naquelas risadas de ressaca ainda ébria, naquele monte de nadas típico de Brasília, naquelas covinhas de revelações e meia-luz.

Covinhas que já adornaram "sorriso sem graça e nariz grande", as mesmas que tanto se esconderam em mordidas na minha cintura, que brincaram nas minhas coxas.

Covinhas que hoje me sorriem de novo e me apontam as malas que larguei em algum canto que vamos ter que procurar depois na bagunça que fizemos nas últimas três horas de saudade.

Covinhas tão perto da xícara com seu café forte meio queimado me dando a porrada de dopamina de estar viva.

É assim que se começa um ano. Roupas, ordem, racionalizações bestas jogadas em algum canto, bagunça total de nós dois. Seus dentes. Seus pelos. Suas covinhas.

Eu reparo nelas agora. Anos, cidades e vidas que passaram por nós depois. Tanto tempo depois.