27.1.19

Aquilo que não se explica

Não adianta eu explicar o que você nunca vai entender. Não existe didática que esmiúçe as coisas que só se sabem ou se sentem, por saber ou sentir.

Estamos em lados opostos.

Não é só isso. São lados apartados, aliás. E esse muro, tão impiedosamente sólido, não permite tradução. Ele é categórico. Ou você está de um lado ou de outro. E aqui, desse lado, planilhas e cálculos são completamente inúteis. A bússola precisa ser abstrata, e você trouxe agulhas.

O resto dos dias são lágrimas do que nunca foi, do que poderia ter sido. Porque se aconteceu ou não é irrelevante, a forma real como as coisas acontecem é sempre mais dolorosa do que a ilusão do que não se concretiza.

E se eu sinto dor, saudade ou o que quer que seja dessa isotopia, é só das coisas que naufragaram dentro de mim, e nada daquelas que de fato tivemos (verbo ter, malícias da língua). Essas são terríveis, como tudo o que concerne ao mundo real, como eles disseram.

Você fica arrepiada quando sabe a história por trás de uma obra. E quando sabe principalmente que tanta dor frutificou, "fez o nome de alguém".

Você é superficial.

26.1.19

Cabelos negros

A gente vai ficar sempre assim, não é? Nesse chove não molha. Nessas alfinetadas tão subliminares e protegidas que resultam no máximo em um sorrisinho bobo, por puro reflexo.

É que meu corpo ainda não consegue não reagir.

São muitas mãos, falas afetadas atropeladas, cadeiras difíceis demais de arrastar e esse monte de eco.

São detalhes. Você sabe o que todos eles querem dizer. E eu também sei, é claro, embora se houvesse aquele famoso "contra a parede" nós dois seríamos pura dissimulação e casualidades.

Olha, eu não estou indiferente. Passaram-se meses, passaram-se anos. Você não passou.

23.1.19

Uma janela imaginária num país imaginário

A Carolina prefere o mistério.

Ela não sabe o que fazer com certezas taxativas, nítidas aparições visíveis a olho nu, sons cristalinos, objetos voadores plenamente identificados, apresentadores de talk shows pré-gravados, nada disso tem utilidade para ela.

Um mundo sem duendes e inscrições ocultas em palimpsestos é o inverso de um universo essencial para a Carolina.

Imagina se ela vai abrir mão de abrir, num dia de sufocante verão carioca, de abrir a porta, qualquer porta (até mesmo uma janela [qualquer que seja {até mesmo uma janela imaginária num país imaginário}])* e se deparar com uma extraordinária fuga de um dia ordinário, rotineiro, um dia filho de um engenheiro civil que sonha com pontes e concreto armado; a Carolina prefere o mistério, isso talvez explique tudo.

Casa

Às vezes eu agradeço. Não sei bem a quem ou a quê, céticos que somos.

Eu só agradeço.

Agradeço aquele péssimo dia no trabalho que fez a gente se aproximar. Aquele trabalho malfeito que caiu na nossa mão pra gente resolver e aquela conversa sobre trocar de apartamento.

E tudo o que veio depois. Os prints da madrugada e os áudios na hora do almoço. Os desabafos necessários e as risadas levianas, mais necessárias ainda.

18.1.19

Você sabe por quê?

Sabe por que não tratei nem trato você como doente?

Porque desde que te conheci, quando olho pra você...

Eu vejo esse homão da porra alto, forte, gostoso e lindo que você é, com esse braço que eu queria arrancar e deixar enfeitando a minha sala...

Eu vejo o pai mais foda que já conheci, preocupado, atento, carinhoso, orgulhoso da cria...

Eu vejo um puta profissional, responsável, que pensa nos detalhes que escapam à maioria das pessoas...

Eu vejo um artista que admiro pra caralho, uma potência criativa linda misturada a um conhecimento técnico absurdo e a uma articulação disso tudo que me faz querer lamber sua mente...

Que assim que começou a conversar sobre drama contemporâneo e arte comigo já me fez querer ter sempre do meu lado...

Que tem conversas complexas ou chatas demais para a maioria, e que ao mesmo tempo sabe ter as conversas bobas que a maioria também não entende...

Que ouve de metal a sertanejo comigo e entende que a vida é algo além das fronteiras das insistentes classificações...

Eu vejo um homem que só de olhar, não, claro que não, só de pensar já me dá um tesão absurdo, que só de colocar a mão no zíper da minha blusa, mesmo quando estamos em alguma situação que você não pode abri-lo, me transforma em incêndio...

17.1.19

Suas linhas, é óbvio

16h35, quarta-feira. Restos de quatro quentinhas acumulados dos últimos dias na bancada da cozinha. E eu mergulhada em um desses dias contemplativos ouvindo Jhonny Cash.

Você escreveu inspirado em uma foto minha? Volto a tela do celular e releio com mais atenção. Texto-foto, foto-texto. Sou eu.

Foi a primeira vez que te stalkeei.

Não exatamente você, claro que isso eu já tinha feito, mas as coisas que você escreve. Foi ali que eu descobri. Sim, era eu. Era sempre eu. Em todas elas. Nas esquinas, nas curvas, nos êxtases, nas ausências, na porra toda. Eu.

10.1.19

Cerveja

Água de coco e chimarrão, os mais óbvios de nós dois. E tudo que fica no caminho de traçado a Mezcal.

Mas se é pra falar de você, 13 coisas sobre você, tenho que falar de cerveja.

Se comercial, artesanal, se Polar (gozou só de ler, eu sei) ou Erdinger, essas besteiras pouco importam.

Esse fermentado vulgar, de fácil acesso e quase unanimidade, o mesmo que muito já percorreu simultaneamente meu corpo e sua língua na cobertura de frente pro caos da Avenida Paulista.

Esse xixi de bode, suco de milho, líquido dos deuses, em que a efusão das multidões e a anestesia do entorpecimento se encontram.

O mesmo que já gelou o meu grelo, com sua boca tórrida dando choque em seguida. O mesmo em que já escorregamos e quase demos de cara na estante que estávamos montando, rindo das nossas peripécias, pelados no chão do apartamento recém-alugado, todo caixas e expectativas.

9.1.19

Minha alma se parece com a sua

É assustador, e não é só porque nossa mente forma imagens dentro da mesma categoria de algum teste psicanalítico elaborado. Ou pelo nosso medo de morrer do mesmo jeito. Ou pelas noias que a gente pensa igual sem nunca ter conversado antes sobre elas.

Aquelas músicas nos tocam da mesma maneira e aqueles versos, tão ridículos pretensamente de alta cultura, arrancam de nós os mesmos olhares de desdém, com eventuais deboches entre os amigos.

Seu cheiro doce meio untuoso me invade enquanto eu sinto seu abraço nas minhas costas e isso me enche de paz. Não deveria, estávamos no meio da nossa foda dirigida pelo Tarantino. A vista de toda a cidade mais bonita do que de qualquer um de seus cartões-postais.

6.1.19

Avenida Paulista (ou acasos, o que é exatamente a mesma coisa)

Eu mal tinha passado o cartão de débito quando a atendente chamou meu nome e me entregou o frapuccino de caramelo. Uma ruiva com uns 2m de peito veio me falar que a bebida era dela.

Valentina, também. Nome pouco comum pra quem tá na casa dos 30, como nós.

Eu ri do equívoco. A mesma bebida preferida, o mesmo nome. Bem menos peito em mim, bem menos bunda nela. E um cara ao fundo rindo da cena me chamou mais atenção do que a coincidência.

Era você.

Nenhum de nós dois morava (nem gostava, aliás) naquela cidade. Eu tava passando o tempo de uma escala de quase um dia inteiro. Você tinha ido a trabalho.

Eu disfarcei quando a mulher perguntou se nos conhecíamos, você fez questão de falar umas besteiras que me deixaram sem saber onde enfiar a cara, embora eu soubesse muito bem que queria enfiar a cara no meio das suas pernas, como sempre.

Teve também o dia naquele inferninho num dos bairros mais sujos daquela cidade, outra, que, de novo, nós detestamos. Dessa vez, quem estava acompanhada era eu.

Bunda (e isso merecia ocupar todos os 13 tópicos)

Aqui mexendo na sua câmera sem nada pra fazer, sem muito jeito, enceno caras tão pernósticas no espelho. Eu tô sentada no chão quando você, sem se dar conta, me desconcentra dessa configuração do tal modo manual.

Você tira a roupa de costas pra mim, vejo o reflexo no espelho.

Você tá distraído procurando aquela camisa preta que eu detesto no monte de tantas outras roupas pretas que eu embolei ontem, mentalmente incomodado com a bagunça que faço nas nossas coisas.

Sua bunda.

Costas, cabelos, pelos da coxa e pala de pau, é claro. Mas sua bunda.

3.1.19

Covinhas

A primeira vez que reparei nas suas covinhas foi naquele meio sorriso que você deu por trás da taça que levava à boca.

A gente estava dividindo um Casillero del Diablo, molhando os pés em alguma parte cheia de mato do Paranoá que agora presumo ter sido o viveiro do Lago Norte, um pós-reveillon que até hoje não sabemos explicar como nos levou ali.

Nós dois tínhamos passado a virada em outras mãos, o que nunca fez a menor diferença. Quando a gente se sabe, se entende, se conecta, isso basta.

E a gente se conectou de verdade, pela primeira vez, ali. Naquelas risadas de ressaca ainda ébria, naquele monte de nadas típico de Brasília, naquelas covinhas de revelações e meia-luz.

Covinhas que já adornaram "sorriso sem graça e nariz grande", as mesmas que tanto se esconderam em mordidas na minha cintura, que brincaram nas minhas coxas.

Covinhas que hoje me sorriem de novo e me apontam as malas que larguei em algum canto que vamos ter que procurar depois na bagunça que fizemos nas últimas três horas de saudade.

Covinhas tão perto da xícara com seu café forte meio queimado me dando a porrada de dopamina de estar viva.

É assim que se começa um ano. Roupas, ordem, racionalizações bestas jogadas em algum canto, bagunça total de nós dois. Seus dentes. Seus pelos. Suas covinhas.

Eu reparo nelas agora. Anos, cidades e vidas que passaram por nós depois. Tanto tempo depois.