26.2.19

Metódicas Mãos

Os últimos dias foram ordinários, no sentido Nelson Rodrigues (ou "cumpade" Washington) mesmo. As roupas no chão lembrando nós dois.

Foi só um desleixo, que tingi com justificativas de vida corrida.

E então ali está, me encarando, quase inquirindo, o mesmo vestido amarelo que você quase rasgou da última vez.

Se eu tivesse aí já tinha arrancado, foi o que me fez cruzar de moto essa maldita serra que nos separa. Às 4h. Banalidades pra quem anda insone. Nem tão banais pra quem não se mexe muito em geral.

E lá estávamos. Bocas cativas, suores sedentos. Cheiros tão inconfessos. Suas mãos cindindo minha pele.

Pode ter certeza, o que mais fode minha mente nesse teu corpo infame são as mãos.

20.2.19

Desejo

Desejo primeiro que você tenha fé.

No que quer que seja, porque isso pouco importa. O que realmente te desejo é que você acredite e, no que acreditar, que lute por isso.

Eu desejo também que você seja grato.

Mas não essa besteira de "saber agradecer", não é isso. Eu desejo que você se sinta grato. Que se sinta satisfeito, que se sinta pleno. Que sinta que está exatamente onde deveria, e queria, estar. Grato pelas pessoas que te cercam, grato pelo cotidiano que te envolve.

Desejo que tudo isso te satisfaça a nível de alma. Porque satisfazer o corpo ou a mente é fácil, mas a alma é difícil. Principalmente pra pessoas tão complexas, cheias de nuances e camadas, como você.

E desejo que, no caminho, você tenha problemas. Não, não desejo mesmo que a vida te livre deles, eu nunca desejaria isso a você. Porque são os problemas que nos fazem saber que somos capazes naqueles momentos em que duvidamos. Mas desejo também que o amargor que eles deixam seja somente retrogosto, porque é importante lembrar, e nunca superfície, porque manter a leveza é essencial.

8.2.19

Imanência

Deep Purple sempre me lembra você.

E não é por ser uma das suas preferidas, claro que não. Nem pelas conversas em bares com fundo musical óbvio e conversas que vão desde passas ao rum ser um absurdo ao índice da Nasdaq de semana passada, mais ainda.

É metade a coisa antiquada, mas com ares de libertação, tão caros ao novo, ao imediato e a tudo o que a gente respira por aí.

Controvérsias dos nossos muitos eus em mutação disputando nosso pódio.

E metade aquela coisa do falsete largado no ar, como se não tivesse desfecho, que simplesmente se dissolve.

5.2.19

Continuum

Houve uma festa.

Nós estávamos nela, é claro. Nós estávamos exatamente na mesma parte do bar, aliás, que é tudo menos grande. Mas não nos encontramos.

Você se pegava em novos ares. Eu tentava renovar os antigos.

Houve motivos, depois.

Motivos que nos levaram a outra festa. Outro dia, outro mês. No mesmo lugar. Você precisava trabalhar; eu, me livrar um pouco desse excesso. Coincidentes opostos no mesmo copo.

Houve muito mais coisas, então.