10.3.19

Iludindo corações... e pirocas

Fazia tempo que eu queria traçar Valentina e sabia muito bem que a candanga já manjava ferozmente esse material esculpido pelos deuses vulgarmente conhecido como eu.

Na época, ambos tínhamos mais de um cônjuge oficial, titular, reserva, extraoficial, bandeirinha, cambista - era nem time, era arquibancada. Então, por motivos de força maior, ela ainda não tinha conhecido a força maior, se é que me entendem.

Copo vai, copo vem, e aquele papo vaselina (um tanto quanto literal) cheio de assuntos ambíguos, eu já com a espiga de milho no bolso, rola (que tal) aquele momento de tensão sem n no ar. Ligamos o foda-se e também a ignição, já que não seria de bom-tom fazer o malfeito feito em público.

Romântico inveterado, sou adepto do bom e velho motel das estrelas, mas, como aquela mulher merecia o mais puro da nata dos motéis cariocas, a levei em um bairro de alta nobreza e um inferninho de indiscutível nível de lixo, digo, luxo, cujo custo beirava a casa das 50 pila.

Mal chegamos, eu nem acreditando que ia dar uma enterrada naquele 1m de raba, a fdp começa a ter crise de consciência.

Que isso, Valentina, isso daí já tá que nem coração de mãe, mais um menos um...

8.3.19

Dos fins que os começos decretam

Nós dois, que ironia.

Até nesses tropeços a gente continua entrelaçado.

Felicidade é tênue, eles disseram. Tem muita dose de aceitar aquilo que não é exatamente, as suposições e os desvios. De engolir sapo e fechar os olhos. Nós que somos seres mequetrefes eternamente insatisfeitos e egoicos querendo tudo do nosso jeito.

Não endosso essa ideia, não, me desculpem. Tem coisa que se é pra ser torta, é melhor nem ser nada. Não existe aceitar raspas e restos e mentiras sinceras quando é nossa alma que está em jogo.

Amor pra fazer mal e/ou ser sutil é só aquele que a gente usa pra produzir arte, dar sentido a certas músicas e entender nuances da existência que de outro jeito nos escapariam. A máxima do Matanza, ou de Baden Powell (pode escolher), não vale pra relacionamentos reais, não mesmo.

Não é falta de felicidade nem de satisfação exatamente. Mas, de algum modo, caminha nessas searas, sim. Porque não tem como estar inteiro se você precisa fingir pra você mesmo que está e que não se importa.

Porque, se não tem integralidade, aquele "match" generalizado, da foda encaixada ao brilho no olho da madrugada (e a sintonia improvável sem nem precisar falar, ver, sei lá, coloca o verbo aí) não dá samba. Nem rock.

E então me vem você, todo esquivo, estampando desculpas e medos. Certezas absolutas pra nos negar... muito mais vazias do que minhas explicações atrapalhadas e cheias de mãos.

Você acha que é tudo uma puta ilusão, só porque Descartes passou longe (embora eu discorde). Mas, nessa queda de braço, desculpa de novo, ele perdeu, sim.


É claro que há muita coisa no caminho que não dá pra prever. Se restaurante japonês ou italiano, se prisões de passado ou inconstâncias de futuro. E tudo que respinga nesse ínterim em que inevitavelmente choro contido e acessos de raiva em algum momento vão dançar.

4.3.19

Sinal vermelho

Eu só queria te passar a vara quando te conheci.

Desse jeito bem chulo mesmo, como todas essas nossas necessidades humanas improrrogáveis.

Não foi mentira ter dito o quanto você é apaixonante. Mas eu, escaldado que sou, dificilmente cairia nessas redes.

E então me aparece você, suada e descabelada pós-rush carioca, maquiagem gasta de dia inteiro, tão calejada e cheia de maldade, e, no entanto, era só uma menininha de bochechas coradas quando vê o primeiro amor. Fodeu, eu fiquei nas suas mãos.

Nem o experimento de Stanford materializou de forma tão quase palpável qualquer livro de psicologia quanto você usando todas as formas pra me afastar. Você, em baixo-relevo, latinismo e entrada de dicionário, o protótipo perfeito.

Eu lia muito bem.