8.3.19

Dos fins que os começos decretam

Nós dois, que ironia.

Até nesses tropeços a gente continua entrelaçado.

Felicidade é tênue, eles disseram. Tem muita dose de aceitar aquilo que não é exatamente, as suposições e os desvios. De engolir sapo e fechar os olhos. Nós que somos seres mequetrefes eternamente insatisfeitos e egoicos querendo tudo do nosso jeito.

Não endosso essa ideia, não, me desculpem. Tem coisa que se é pra ser torta, é melhor nem ser nada. Não existe aceitar raspas e restos e mentiras sinceras quando é nossa alma que está em jogo.

Amor pra fazer mal e/ou ser sutil é só aquele que a gente usa pra produzir arte, dar sentido a certas músicas e entender nuances da existência que de outro jeito nos escapariam. A máxima do Matanza, ou de Baden Powell (pode escolher), não vale pra relacionamentos reais, não mesmo.

Não é falta de felicidade nem de satisfação exatamente. Mas, de algum modo, caminha nessas searas, sim. Porque não tem como estar inteiro se você precisa fingir pra você mesmo que está e que não se importa.

Porque, se não tem integralidade, aquele "match" generalizado, da foda encaixada ao brilho no olho da madrugada (e a sintonia improvável sem nem precisar falar, ver, sei lá, coloca o verbo aí) não dá samba. Nem rock.

E então me vem você, todo esquivo, estampando desculpas e medos. Certezas absolutas pra nos negar... muito mais vazias do que minhas explicações atrapalhadas e cheias de mãos.

Você acha que é tudo uma puta ilusão, só porque Descartes passou longe (embora eu discorde). Mas, nessa queda de braço, desculpa de novo, ele perdeu, sim.


É claro que há muita coisa no caminho que não dá pra prever. Se restaurante japonês ou italiano, se prisões de passado ou inconstâncias de futuro. E tudo que respinga nesse ínterim em que inevitavelmente choro contido e acessos de raiva em algum momento vão dançar.


Mas tudo isso é detalhe, e a gente ajeita. Não muda nada o ponto que, sim, nós dois sabemos muito bem. Nós dois sempre soubemos.

Tanto sabíamos, que o medo falou mais alto, travestindo de opostos, id e superego, cada lado dessa balança que é tudo menos equilíbrio.

Nós sempre soubemos que não teria essa de comer pelas beiradas, corda de segurança, rede de proteção. Um suspiro, só isso. E já teríamos mergulhado vertiginosamente. Porque foi isso que aconteceu de forma um tanto involuntária, sem deixarmos. Imagina se.

E aí? Seríamos aquela profundidade de alma, tão perigosa.

Nem uma borda pra se agarrar. É foda, eu sei. Porque essas camadas acabam entrando em níveis de confiança complicados pra nós dois.

Mas que covardia, afinal, se sabemos o quanto esses medos iriam se dissipar. Sim, você sabe, nem adianta dar esse sorrisinho e menear a cabeça desse jeito. É, eu sei também.

Seríamos essa coisa toda de bolha só nossa. Criaríamos nosso código completo. Nossa religião, nossa lei, nosso idioma, até.

Essa pitada de fantasia e Disney, que nos ensinaram a julgar como ilusão pueril, mas foi só a vida nos calejando pra achar que tudo isso é impossível, pra pensarmos que o certo é aceitar migalhas e vieses. Nos conformarmos. O que é muito diferente de ser impossível. Não, não é mesmo.

De quantas vidas mais a gente vai precisar? Me fala.

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