14.11.19

Uma vida

Deve ser legal ser a Sra Sua. Chegar em jantares pomposos com você de braço dado e salto alto. (Deus abençoe esparadrapo e benzocaína.) Nós dois fingindo que nunca sonhamos com o cheiro da carne de panela de segunda da casa do vizinho ou que não gostamos de Sandy e Jr. Sorrindo ouvindo Édith Piaf e comendo lagosta (a que o Allegra te deixa fingir que não tem alergia).

Nós dois rindo no banheiro por eu ter descolado uma penca de coxinha no buffet da festa que eles fizeram mais cedo. E você fingindo que é mulher, afinando a voz de barítono, quando percebe que entraram na baia do lado. Seu falsete é péssimo, sussurro. É mentira, e você sabe. A gente se olha, e tudo em volta é fogo. Nós dois somos fogo. Só existe isso.

Você com todo seu palavreado obsequioso, eu botando pra jogo aqueles tempos de infância em que ficava decorando dicionário. Acho que lancei um "amplexo" automático pra alguém ainda há pouco, ou não? Só pra mandarmos um "partiu podrão, lek?" um pro outro quando alguém se afasta.

A gente sabe das nossas referências forjadas a Hemingway e dos contos sobre necrofilia. Álvares de Azevedo se regozija no inferno, espero, de orgulho dos pupilos. Nós. Uma palavra.

7.11.19

Sina

Acendo um cigarro na varanda contemplativa.

Tudo o que eu queria hoje era dar umazinha contigo, igual àquela última aqui em casa, bem aqui.

Era só uma carona do nosso encontro por acaso e umas cervejas não planejadas no caminho. Mas casa vazia e aquela água vira uma referência nossa, música no violão e olhares que esquentam.

Vejo as luzes da cidade plana, uma bebida nem sei de quem que achei na geladeira, você chega manso por trás, cheira minha nuca, pescoço, colo. Suas mãos navegam donas até dentro da minha calça.

O cheiro do meu desejo por você invade o ar, e eu louca pra que você sinta o jeito como você me deixa.

Você se abaixa, abre o zíper, desce a calça até o meio das minhas coxas, puxa a calcinha de lado. Passa a língua devagar pelos lábios, de um lado pro outro, até chegar no grelo. Eu cravo minhas unhas nas suas costas, encharcando sua barba por fazer.

Me esfrego na sua cara pra você saber quem manda. Te seguro pelos cabelos, te olho nos olhos. Nesse jogo eu que dito as regras. Sento em você devagar, quero te mostrar cada pedacinho de mim, te engolindo aos poucos. 

4.11.19

Deixa eu te curar

Essa sua covardia é patética, sabia?

Toda vez que você acha que se entregou demais, fica uns dias me tratando mal, forjando distanciamento. Como se eu tivesse culpa das coisas que te causo.

Não precisa desse trauma todo, não.

Já te disse que pra você sou colo e calmaria. A ebulição e o êxtase você já conhece, então deixa eu te mostrar o resto.

Tolice você insistir em ficar se negando. Fugindo de você mesmo desse jeito.

Por quê?

Todo ser humano tem medo. Essa ideia de dar um poder quase mítico a algumas pessoas foi o maior golpe que nos ensinaram.

Lapsos

Show de blues e esse parque gigante referência da cidade. Do país, arrisco dizer. Tudo o que eu queria agora era um cigarro e você.

Como não posso ter nenhum dos dois, me contento com a long neck servindo de símbolo fálico. Com a tal história de ver o lado bom das coisas, que é de fato muito bom e que são de fato muitas coisas, daquele tipo que a gente, acostumado a se menosprezar e anular e castrar, nunca imagina espera muito menos acha que merece. Mas e daí?

Nada muda o fato de que não é você.

Solo cheio de firula e comoção, mãos pra cima em catarse, clima gostoso de prenúncio de verão e a cerveja que milagrosamente ainda tá gelada, mesmo após o hiato em que me perdi nesses devaneios.

Mas não é você.

Nos meus pensamentos, a gente tá aqui. E eu te imagino e te conserto, como disseram. Te tiro em um segundo desses não sei quantos km de distância, que não preciso falar ao certo, colocar teu RG aqui ou teu sapato 41, você sabe muito bem que tô falando de você.

Imagens

Nós dois. Identificação e conversa fácil, mascarando outras intenções. Aura gostosa de sedução e descoberta. A provocação trocada pra ver quem cede primeiro.

Te peço pra desenhar qualquer coisa nas minhas costas. É sempre mais sedutor juntar sexo e nossos talentos. Você sorri soberbo levantando a cabeça e apertando os olhos verdes. Verdes. A cor que só 2% da população tem. E é dessa mesma cor a caneta Bic já gasta que te ofereço.

Você espalma as mãos pesadas e quentes pelas minhas costas, subindo devagar, sem tirar minha blusa, por baixo dela, sentindo a pele. E aproxima seu corpo de mim. Me deixando antecipar o quanto você também quer. Não, você não encosta. Só deixa espaço suficiente pra eu sentir sua temperatura.

E roça a barba na lateral da minha nuca, na dose certa pra eu não saber se foi proposital, perguntando se tenho alguma preferência. É, arrepiei, sim. Nem adianta implicar com esse ar de superioridade - falso - que minhas bochechas ficaram vermelhas. Foi meio timidez e meio tesão ao mesmo tempo. Queimando você.

Sua voz perfeitamente colocada, seu cinismo, seus traços, seu signo. O mesmo que o meu.

O momento "fudeu"


Quando você tem uma vontade louca de agarrar ele pela barra da calça, sem importar onde vocês estão, você ainda está em um nível seguro.

Foda é quando você se pega lembrando do dia que vocês estavam em um grupo de amigos, e a primeira pessoa pra quem ele olhou quando riu de alguma coisa que disseram foi você.

Quando você sente o corpo esquentar só com o "boa noite" grave e encorpado que ele te dá quando vocês se cruzam, você não tem com o que se preocupar.

Foda é quando você perde o sono pensando naquela madrugada que vocês viraram conversando sobre assuntos que você nem sabia que existiam, que te fizeram ficar vermelha em vários momentos.

Quando você se sente vitoriosa porque desconcertou ele, fez ele perder o fio da meada, te dar uma secada indevida, balela!