30.12.20

Próximo

Sim, eu sinto. E por sentir demais me ausento, limpando os cacos de nós dois, desde você concordar sobre a nossa química ser fora do normal até o obrigado pela visita vindo de quem expulsa todo mundo de casa, do corpo, da vida.

Você suplantou qualquer outra coisa possível que veio antes de você, entende?

Embora os pés atrás te impedissem de mergulhar.

Eu não tive muita escolha. Seu cheiro, seu beijo, a força no toque. Você me enredou em você.

26.12.20

Voz penetrante (e outras coisas)

Noite adentro de conversas ambíguas. Nada ébrio, me falta a escusa típica. É só um flerte, um passatempo nada condenável, ou nem isso, nada disso, me digo. Quem, assistindo a esses assuntos tão inocentes, diria o contrário?

Raspando a superfície da superficialidade. Ali, ainda, mas naquela pele fina da quase revelação. Não, claro que não me entreguei demais. Ainda consigo me safar com um "não era bem isso, veja bem".

Te visualizo com os olhos inquiridores e o sorriso sacana de canto de boca. 

Eu, deitado no sofá, TV ligada em um arremedo de gourmetização dos clássicos programas de auditório. A trilha sonora nacional dos dias de ócio.

Você. Só de calcinha, de renda, claro, algo entre vermelho, vinho ou roxo, deitada de bruços, perto da janela, porque precisa da poesia da vista da cidade e da vida e dessas coisas todas, e porque tem um quê de exibicionismo pra algum vizinho desavisado que já perdeu o tino fácil contigo.

23.12.20

Sim, esse texto é sobre você

Sim, esse texto é sobre você.

Toca Roxette. Mas eu não preciso da melodia mascando minha mente feito chiclete pra eu arrepiar dos pés à cabeça com a sensação de você.

É isso. Há muito tempo você já não é mais só pensamento, é sensação que fez raiz dentro de mim.

Todas as músicas agora falam de mim. De nós. Da porra do seu bairro.

Debochando da ilusão de que poucos meses diluem sentimento. De que o bunker de guerra que construí te expurgou de mim, quando tudo o que fez foi me aprisionar mais nos meandros do teu jeito.

Dá pra não sentir falta?

7.12.20

A minha estrada corre pro seu mar

Calar é fácil. Difícil é arredar os pensamentos e deixá-los em seus devidos cantos.

Ofuscar é fácil. Difícil é te ver e chegar perto.

Dissimular é fácil. Difícil é te olhar nos olhos, quando tudo se embola e faz a gente se conectar no nosso sorriso trocado de cúmplices.

Reprimir é fácil. Difícil é sentir pele com pele, como se fôssemos uma extensão um do outro. E lembrar que a realidade impõe mais barreiras que pontes.

Recuar é fácil. Difícil é estar nos seus braços e sair como se a eles eu não pertencesse, e como se seu toque não continuasse reverberando pelo meu corpo.

Negar é fácil. Difícil é não deixar as portas abertas, se elas mesmas se recusaram a se fechar para você.

2.12.20

Dilema

Hoje faz exatamente um mês desde aquele dia em que eu quis desesperadamente beijar sua boca, só de ver seu jeito de andar.

É, eu não te disse, mas foi por isso. E já te imagino lendo isso e fazendo alguma piada ruim com quiropraxia e calistenia (que talvez tenham ajudado, não nego).

Seu jeito de andar me passa algumas coisas. Uma certa apreciação das coisas como elas são, no contraste com um espírito escrutinador e resoluto.

25.11.20

A falta

É claro que eu também tenho sentimentos por você. Respondo em voz alta, sozinho no meu quarto, já pela milésima quanta vez escutando tua voz naquela mensagem.

Olho a parede, o armário, a rua pela janela do andar baixo, ouço de algum lugar a música que toca falando comigo: Mas correr atrás já é demais. Evito o meu reflexo no vidro.

Nunca foi falta de sentimento, pelo contrário, foi excesso. Sabe quando você molha os pés no mar e sente que a correnteza vai te puxar se você não sair logo?

Eu também fiquei paralisado de ver tudo acontecendo tão fácil e tão rápido entre a gente. Sim, eu também senti pavor, como você mesma comentou sobre você.

Entenda, minha querida, todo mundo tem as suas dores, mas eu não posso me dar ao luxo de dar um passo em falso.

Porque eu não teria onde me agarrar se a queda fosse ainda maior do que já tem sido; se esse chão, instável, sumisse por completo e eu tivesse que encarar o abismo sem nenhuma corda de reserva.

Não é que eu não queira, que eu lhe tenha virado as costas, ido embora, desistido, como você escolheu pensar. Seria bem mais fácil se eu realmente tivesse feito isso; mas eu não fiz, nem conseguiria fazer agora.

23.11.20

Bagunça minha vida, revira minha cama

Quarta-feira, na fila do mercado, passa alguém atrás de mim com o cheiro dos seus cabelos, e chego a sentir eles enroscados entre os meus dedos e você reclamando que eu te deixo toda desarrumada.

E me vem seu jeito de entrar na minha e de falar "passa vontade não" em resposta às minhas cantadas infames. E o quanto eu gosto de tudo isso em você.

O jeito de menear a cabeça revelando a linha tênue entre desprendimento e timidez quando te chamo de mijona e quando cheiro seu suvaco do nada. E você séria querendo me convencer do alto nível de rusticidade da sua academia.

Você evasiva fingindo que não tá levando nada a sério, mas sem parar de analisar cada detalhe. Fazendo piada em parte porque é sua defesa natural, em parte porque é um teste comigo, mas ainda assim, comigo, estando entregue.

Etéreo

Hoje eu pensei em dizer que te amo.

Mas claro que não seria um "eu te amo" vulgar, desses que substituem o fático bom dia na frieza dos smartphones.

Muito menos mais um eu te amo enviesado como indireta, que nem sei se você vai ver.

Um eu te amo com grandes atos, declarações públicas rasgando o peito, muito menos. Nunca foi assim que se disse o amor.

21.11.20

Feeling

Nós dois fomos uma comédia romântica bem clichê desde o começo.

Eu só fui perguntar se você podia tirar o carro que tava travando a minha saída, e seu jeito espontâneo, dizendo que tem uma camisa igual a minha e que eu morar com a minha mãe é inaceitável, acabou comigo.

E só pensava onde caralhos eu tava me metendo, mas não me culpe por isso. Te ver cantando "Lua de Cristal", invadindo o palco daquela banda, em um inferninho de quinta, não ajudou muito.

E, repare a ironia, foi exatamente ali que eu soube que tava fodido.

19.11.20

Pontas soltas

Ouvia Lenine. Paciência, é claro.

Paciência era tudo o que não tinha escrevendo aquele texto. Despejou tudo que sentia, tudo sobre ela, tudo sobre eles, não dando margem nenhuma para interpretações, só faltava encaminhar junto o nome todo do sujeito e uma foto. 

Como achou que postar o texto no blog público e em todas as suas redes sociais de influencer era pouco, enviou para ele. Perturbada pela enxurrada de sentimentos, a mensagem que acompanhava o texto era simples: "Me desculpe se for inadequado, mas eu precisava".

E daí? Se ela precisa ou não, o problema é dela, não dele. Como alguém pode pedir desculpa pelo que não se arrepende? Se pretendia lógica, direta, objetiva, se gabava disso. Mas era um emaranhado de fios. Agora, também das pontas soltas que eles haviam deixado.

Culpava os sentimentos pelo desequilíbrio. E talvez mesmo culpa deles fosse.

Viu que ele ficou online no WhatsApp e gelou, os dois certinhos ficaram azuis no ato, a garganta mais seca que três livros do Graciliano juntos.

"Um pouco mais de paciência", clamava Lenine já, pela quantidade de vezes que esfolara a mesma música, como se aquilo pudesse alterar qualquer coisa dentro dela.

Não, não podia. Nada podia. Então adotou o clássico pensamento de "o que é um peido pra quem já tá cagado", o melhor arrimo de quem quer enfiar o pé na jaca, seguido de "só se vive uma vez" e todos os similares.

Foi até a casa dele, saiu de rompante. Disse para si mesma que "parecia que algo a empurrava", como se houvesse qualquer força alheia lhe dando sinal. Mentira, a força mística que chacoalha desse jeito é interna e mais simples: a pura vontade.

Deu o nome na portaria e já começou a se sentir inadequada, mais, quando o porteiro pediu "sobrenome ou referência". Tudo bem que tinha um nome comum, mas, sério? Falou um "deixa pra lá" se virando, segurando a marejada que o olho deu entre tristeza, mágoa e raiva - de si mesma -, quando ouviu o porteiro assentir e dizer que ela podia subir.

10.11.20

Oroboro

Acabei com o quinto maço de cigarro só hoje.

Eu tô o próprio Bukowski, bebendo até endireitar a diplopia, fumando até não ter mais o que improvisar como cinzeiro e escrevendo compulsivamente.

Desisti dos copos, que há muito transbordam as guimbas, e repouso a garrafa prendendo os papéis que de bom grado acolhem os meus garranchos fugindo das linhas.

Não são só essas três coisas, é claro, ou elas nem teriam propósito de existir. 

Tem a anterior a todas elas, minha fonte e minha causa: você.

E é esse pensamento em você, invasivo como a pontada contínua da enxaqueca, que me prende nesse ciclo de evitação: te bebo, te fumo, te escrevo; te engulo, te trago, te teço; te mastigo, te sugo, te metonimo.

Eu te forjo em grafite e celulose.

E forjo que me descem pela garganta tuas torrentes, forjo que me adentram os pulmões teus odores de zênite, forjo que alteram a química do meu corpo todos os teus malabarismos, a ponto de se materializarem no papel.

E ali, tão tangível o etéreo, a impossibilidade de você me retalha o espírito. Então eu dou mais um gole, e batalham os pulmões contra a tentativa de analgesia.

9.11.20

Pular no precipício é mais fácil do que aguardar o toque

O golpe de sorte e a vista pra rua principal, e essa arma apontada pra mim.

Desestabilizada como você me deixou, eu mesma puxei rápido o gatilho, com medo de que você acabasse fazendo.

Como meu pensamento, tão insistente, não te sacode, não te estapeia, não te suga direto pro meio das minhas pernas?

Vejo a fumaça se desfazendo e entendo. Também meu pensamento se dissolve um segundo antes de te tocar e no meu peito jaz pesado, como os resíduos pegajosos do alcatrão.

Canto você a plenos pulmões. A sua língua, que deveria estar se embolando na minha. Os seus sons, que deveriam estar me arrepiando ao pé do ouvido.

8.11.20

Portas abertas

Ouço aquela música, a nossa música. Não tão longe, no centro da cidade, você faz o mesmo.

Você relê todas as nossas mensagens, buscando brechas pra se convencer do não, coisa que duvido que tenha conseguido fazer.

Eu vasculho cada detalhe das nossas memórias, buscando motivos pra acreditar no sim.

Você realmente duvida de que nós dois somos o presente perfeito do destino? Porque eu não.

30.10.20

Romance

Chegando em casa, fim de noite, quase madrugada, me recosto na bancada sorvendo a noite temperada, a soberania dos pontos de luz da cidade e dos pequenos universos em cada um deles, e me ocorre essa nossa compulsória sujeição ao amor.

Essa coisa mágica que a gente se pergunta como pode ter acontecido em dois meses ou um pouco mais, como disse o Tiziano, se não aconteceu em três anos. Como você pode ter ficado dormente só porque viu ele entrar naquela sala em que você estava. Como o assunto pode ser tão fácil, o toque tão certeiro, o encontro tão intenso.

Sufoco o instinto de te procurar mascarando em outro alfabeto que sou louca por você com a transferência mais óbvia. Como o hambúrguer do dia anterior na geladeira. McDonald's, é claro, ápice desse sistema, marcando o contraste com a música ao fundo, que reflete o fundo dos meus pensamentos, aqueles que tenho fingido ignorar.

Eu já tinha começado a entender algumas palavras, a significar os sons e os movimentos arredios da tua língua, os teus sons, que passaram a preencher a casa e a mim.

28.10.20

A nós

16h32 de um sábado, meio de mês de primavera, céu de inverno.

Olho da janela as nuvens cinza pendendo sobre a cidade fria. Música italiana, porque é preciso ter um quê de impossibilidade de tradução refletindo a irrepresentabilidade das nuvens dentro de mim.

Da caneca, sobe a fumaça do seu chá embaçando meus óculos. A opacidade da visão desanuvia meus pensamentos.

Indomáveis, vão sugerindo formas. Mãos hesitantes alternam-se com mãos de propriedade. Lábios presos de falsas grades alternam-se com as pupilas dilatadas de entrega. E a busca e os murmúrios inconscientes da madrugada. Formas de cumulonimbus, as nuvens de tempestade.

Quadrilha

"Ainda vamos sair hoje?"

Vi a notificação no celular. Tocava algum pagode lado B, daqueles que provavelmente só eu e o produtor conhecemos, os próprios intérpretes mal se lembram de ter gravado.

Olhei a mensagem de novo. O pagode deu lugar a uma ladainha outra:

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.

Sem vírgula, claro, esse trem descarrilado é impossível de conter.

Eu tinha caído naquele limbo dos quasi encontros. Quando você perde o controle e aí já sabe que é só ladeira abaixo. Vocês se falam empolgados, ele deixa um chocolatinho na sua portaria só porque é terça-feira, mas você já sabe que você perdeu. Você cedeu, afinal.

Escaparate

Eu vou fingir
Que o seu cheiro não resistiu às estações grudado nos meus poros
Que as minhas paredes absorveram sepulcrais todos os graves de barítono
Que seu suor não pesa mais o ar desse apartamento

Eu vou fingir
Que ouvir S sibilado todos os dias me fez parar de pensar no seu
Que despersonalizei a revirada de rosto, de olhos, de meio sorriso
Que onze categorias abarcam todas as pessoas do mundo, mas que o teu signo deixou de ser só teu

18.10.20

Raphaela

Ah, Raphaela, sua filha da puta.

Só esta alcunha me resta no reboliço de cabelos aparados, gestos comedidos e coxas de quem se sabe.

E os olhos de esquina que nunca saíram de mim. 

De esquinas, reticentes mesmo, daqueles que podem seguir pra qualquer um dos lados ou pra lado nenhum, e que tudo o que deixam são pontos cegos do seu sumiço no horizonte.

Espera

(ela se deita na cama, coloca essa música pra tocar)

Lembro que falei de você antes de dormir. Falei, hahaha, isso dá muito a impressão de que escolhi e desde aquele dia não tenho escolhido muitas coisas salvo fugir de você. Eu não sei do que eu fujo. Se é do jeito que me olha de cima e parece me ver toda; se é do toque e do cheiro da tua pele, que ficam em mim até o dia seguinte; se é do som da tua voz que reverbera e não deixa nenhuma palavra ficar, só o eco do meu próprio desejo... não sei. O que eu sei é que me dá medo estar perto assim. Clichê demais, eu sei. Pareço uma porra duma princesinha ridícula do século XXI pedindo pra ser salva dum monstro que nem existe - ou, pior, é ela mesma. 

Mas não é isso. Não quero salvação, não quero além. Quero o terreno. Que esse toque estranho que me faz não saber mais o que é meu corpo e o que é o teu. Quero esse jogo um pouco ridículo, um pouco divertido que é me insinuar e fugir e te ver vir atrás. Quero a tua promessa do impossível, do eterno e de tudo o que a gente chamou de religião - e é isso o teu corpo no meu, afinal. 

1.10.20

Arrendamento

Não me venhas com as mãos e o arquejo
Que, de bandeja, incansavelmente te negaras
Não, não me tragas as obsequiosas ofertas
Daquilo que tu mesmo a ti te recusastes*

Não ouses suspender reservas e freios e tocar meu corpo
Como se a ti pertencesse tal qual bem inalienável
O mesmo, cego ao penhor, do qual rasgara a escritura
E virastes as costas à caneta te aguardando assinatura

Não, não me molhes boca, não queira me molhar os lábios
A ti fecho a abertura da natureza, o intrínseco não selamento
Estes apátridas caminhos não te servem ao nomadismo
Desabitados, não te servem à residência, tampouco 

24.9.20

Suas mãos, sua pele, sua temperatura

A luz do sol incide sobre meu rosto já desperto. Insone, aliás. Na vigília frenética que me tem imposto a colisão das nossas memórias e dos meus desejos.

Suas mãos. Sua pele. Sua temperatura. Minhas mãos na calcinha, meu grito sufocado no travesseiro.

Se pensamento fosse sólido, o meu já teria te marcado a ferro nessas paredes. Nos móveis, no chão, no teto. Em tudo que eu toco.

Mas ele é etéreo, e esse peso intocável só atinge os materiais mais sensíveis. Tinge minha pele de vermelho, enreda nossas ideias, te faz esporrar no box. E, como um falsete perfeitamente executado, treme minhas janelas e estilhaça seus copos.

A ladainha perene reverbera pelos meus poros. Suas mãos. Sua pele. Sua temperatura. Suas mãos. Sua pele. Sua temperatura. Suas mãos. Sua pele. Sua temperatura. Suas mãos, seus dedos, seu toque, CARALHO.

17.9.20

O mundo é um puteiro

Me desculpe, Cartola, amo toda a sua obra, mas o mundo não é um moinho.

As coisas vão e voltam, sim, você estava certo, mas faltou um desenho.

Não na sua obra, ela é perfeita, faltou na minha vida.

Nesse moinho são os mesmos personagens, são as mesmas posições, são os mesmos desfechos.

E esse moinho se tornou um puteiro, daqueles de beira de estrada que você respira sífilis e boceja candidíase.

As vezes você é o dono do puteiro - pra quem tem sorte, o que não é o meu caso - e consegue ganhar algum dinheiro sem ter que se matar, mas logo aparece um cliente bêbado e armado, e você tem que começar de novo do zero porque tentou defender uma puta.

12.9.20

Ausência

Hoje acordei e pensei em escrever a verdade pra você. Mas não aquele você que finjo existir nos meus medos de me ver sozinha em plena noite de sábado ou domingo, sem ter um abraço pro qual recorrer – ainda que o seu nunca esteja lá.

Não aquele você que traz comida pra nossa casa, ato que tento endeusar como se fosse algo além de manter a existência – ainda que a seu lado seja só subsistência. Não aquele você cuja rotina é tão funcional quanto é patética e repetitiva, com aquele sexo que me faz gemer de boca fechada – ainda que sejam gemidos falsos e que eu quisesse dar gritos como uma puta que não posso ser contigo.

Não, não esse você.

С тобой в опасность, без тебя в тень

Se me entorpecessem desavisada os sons amorfos e os olhos de tempestade, e se me entorpecessem porque é nosso mero dever hedonista, eu me sentaria no banquete das efusões e das lamúrias e te escreveria com essas farpas.

Mas não te metrificaria. Esboçaria a sina, tampouco. Eu excomungo todos. Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov, Soljenítsin. Não dou permissão às palavras para te impor as suas fronteiras.

Se me tomassem os picos de adrenalina e o clima de altitude em uma noite clandestina, eu rimaria as luzes e te assistiria como protagonista da minha cena.

7.9.20

Perfume barato de vagabunda

- Sua secretária ainda se lembra de mim, acredita?! - disse com casualidade irrompendo pelo meu consultório, meia fina e salto alto.

Sentou-se no divã cruzando as pernas, exatamente do mesmo jeito de sempre, cruzando e descruzando, forjando uma camaradagem como se não me visse há poucos minutos.

Dois anos e dez meses. Estava com vinte agora. Havia entre nós o abismo de uma vida, no entanto. Minha idade ainda era mais que o dobro da dela.

Ah, que merda. Foi o que finalmente depois daqueles segundos que carregam eras, governos e revoluções saiu da minha boca, pouco intencional. Ela se divertiu vendo que me perturbava da mesma maneira. Mais, muito mais. Dessa vez eu não tinha me preparado para vê-la, diferente das outras. A surpresa me secou a garganta.

- Eu estava passando aqui perto e resolvi te fazer uma visita! - Decotes e mãos, muitas mãos.

31.8.20

Falsas retas

Certas noites, dessas em que me sento pra apreciar o fogo lambendo tudo em volta, a música incidental, o incenso e a vista desimpedida são você.

A sétima menor do mixolídio, o cheiro zen que teria impedido a guerra de Troia e a extravagância dos prédios de mais de trinta andares.

O álcool é inflamável, soa o grave do narrador na minha mente, continuo derramando da borda enquanto giro a taça, intocável pela ilusão confortável da materialidade.

Abrindo caminho nas labaredas, sinuoso, pontiagudo, rastejando você me vem. Suplicante, quase.

E me envolve e me toma mais rápido que a jiboia do pequeno príncipe.

Tutto è buono quando è eccessivo: Análise preliminar de Salò

As ditaduras promovem o crescimento. As ditaduras acarretam desenvolvimento. As ditaduras, ainda que de modo indireto, fazem pipocar a arte. As ditaduras são planas, refletidas e gélidas. E, no entanto, de toda sorte de sentimento noturno, são labaredas do caos.

No plano das aparências, Salò traduz os 120 dias do pai do sadismo para uma crítica ao fascismo, de Mussolini. Na adaptação de Pasolini, os 4 responsáveis pela "empreitada" deixam bem claro que nada se pode fazer contra as forças que nos dominam: a lei, a religião, o poder verticalizado, a estratificação. E, no entanto, os 4 são faces diversas de uma mesma moralização que brinca, no playground da vida, com o mal.

4.8.20

Névoa

Merda
Não bati o dedinho na quina
Nem o cotovelo na beirada da mesa

Foi você
Subindo no box na forma de shampoo
A toalha molhada pendurada no varal
No lugar certo
Cotidiano errado

Lacera
Porque corta mais
Quando saudade tem gosto e tem cheiro
Tem rosto e tem beco
E a camisa suada esquecida no fundo do cesto

2.7.20

A(nta)gonia

Ele imperava as trevas. Mas não do tipo que se espera. Sob seu cetro, vertia a obscuridade em lei. Ela imperava dona dos desejos deliberados, que já rasgaram as máscaras.

Ele aprendeu a compor a realidade criando fórmulas, fazendo as vezes de alquimista. Ela, fazendo as vezes de moira, tinha aprendido a resgatar detalhes apodrecidos e lhes dar voo.

Ele ignorava, desprezava era o certo, a validade das alheias verdades. Ela era incapaz de conceber as noites limítrofes entre êxtase e desespero que o levaram até ali. Ele a rotulava: obtusa. Ela lhe apontava o dedo: tolo.

25.6.20

O caminho inumerável

Me pergunto se você se deitaria no meu peito me pedindo explicações sobre os segredos das estrelas.

Cheiro de grama, meia estação, as sutilezas que aprendi a apreciar sozinho e você rendendo sua soberba nos meus braços.

Eu encontraria eco em você? Eu seria eco das suas brechas incompreendidas?

Me pergunto se nessas noites que me recosto na extravagância de um vinho raro, sorvendo inquisições e mistérios, você se embolaria nos pelos das minhas pernas para eu te fazer minha no tapete da sala.

E em cada gole, décadas e milhas de projeções, constato que burlei a ordem do universo e as leis dos homens para fazer exatamente isso.

5.6.20

Me fode

Me olha
Desenhando nos meus mapas
Os seus caminhos
Me devora com olhos torpes
E sorvendo tua presa
Se deságua

Me sorri
Mas me sorri sedento
Me sorri sacana
E no meu gosto
Se embriaga
Tatuando na minha pele
Lábios, língua e dentes

Me toca
E nesse toque
Eriça também os teus pelos
Que nossa eletricidade
É trocada

Me aperta
Me mostra o jeito que você faz
Me segura, me prende como posse
Torna indiscerníveis
Unhas, dedos e mãos
E deixa tuas marcas

23.5.20

No tudo ou nada, o desfecho era óbvio

Eu nunca acreditei em nós dois. E você sempre soube disso, não tenho por que fazer rodeios.

Nós já tínhamos deixado acontecer muito além do que minha sanidade resistiria, então não tive muita escolha quando você quis pagar pra ver, me colocou contra a parede e era tudo ou nada, mergulha ou vai embora, assim desse jeito.

Sem nem colocar os pés na água antes pra dar aquela testadinha, a mínima segurança de saber onde estamos pisando.

24.4.20

Deixa eu ser o confronto

Eu falo que você vai se arrepender não como o óbvio recalque da dor de cotovelo, embora eu conheça muito bem meus porres ao som de Leandro e Leonardo doendo você.

É porque é ainda mais óbvio, pra qualquer um ver, o quanto nós deveríamos estar juntos. É, agora mesmo, com quarentena, e que se foda.

Aplacando nossas crises (você é o psicólogo aqui, afinal), surtando totalmente, esquecendo, lembrando, sendo insuficientes.

Porque é assim que o mundo real funciona. E isso nos chegou bem cedo, basta ver nossas "conversas caídas" de sempre.

Cheiro doce que gruda

19/12, e esse frio cinza de São Paulo.

Encosto na varanda com uma caneca de café, desses aromatizados com uma fruta exótica colhida dos recônditos de qualquer lugar longe. Sempre é de muito longe.

O cheiro adocicado que sobe do café não é dele, é seu.

Seu, do dia em que nos sentamos molhados de chuva embaixo de uma marquise no Eixo, e o cheiro do café do vizinho era a única coisa que esquentava.

20.4.20

Mise en abyme

Vazios são os olhos que fáceis refletem
Toda feia angústia que a eles se apresenta
Vomitam sem absorver igual figura
Pavimentando essas dores na armadura

Olhos de fora, de narciso clamam o charme
Se afogam e se inebriam na mentira muda
Que se alegram nas alheias disparidades
Esquecendo que só levaram o que já tinham

17.4.20

Interrogação

Coisas que a gente não sabe
Daquelas que a gente vive, claro
E nelas se enreda
Por opção, como sempre é

Inescrutável o acesso

Supomos, com as parcas informações que nos chegam
Completamos com o que parece ser óbvio
Baseados em teorias inelutáveis
Sedimentadas por esse extrato da acurácia científica:
Impressões

Confiamos

Essa credibilidade dada
É ao que recebemos do outro como certificado
Ou só à pretensão de que sabemos tudo?
De que lemos, entendemos, decodificamos?

De que podemos confiar no que chamam
Instinto
Intuição
Informação

23.3.20

Pegadas

Às vezes cansa fingir que a gente não sente. Que o perfume igual não comprime o peito, que a tatuagem do teu nome que vejo em um desconhecido não faz tremer o corpo. Que fico indiferente a uma música que fala de você. Todas elas falam de você.

Não me pergunta se eu "posso passar aí".

É claro que eu faria isso. Eu faria isso agora (e talvez por isso eu esteja aqui, compulsivamente escrevendo). Mil quilômetros nunca me impediriam de ver você. De deixar você me invadir. Distâncias físicas são o menor dos impedimentos nessas searas, aliás.

Eu iria agora, no meio da pandemia, a pé, com a roupa do corpo, esquecendo as torneiras abertas, luzes acesas, só a chave no bolso. Não são palavras pra causar impacto, eu faria, simplesmente. Você sabe. É justamente por isso que eu não posso nem vou fazer.

Já basta me render nessas casualidades em que minto para mim mesma que nossos hiatos te mataram. Claro que não.

Você não é o único cara de pau grande no mundo. E química boa passa. Amor, não.

Parece leviano falar de amor assim, logo para nós, que já vivemos e vimos o amor com várias faces. Amor é construção, é o que fica na amizade e na parceria da intimidade. Da exposição. Dos calos e dos abraços inesperados.

Eu sei. Você também sabe.

Como um rompante, uma ideia, teu cheiro, tuas mãos... podem ser amor?

20.2.20

29

Eu esqueci você.

A prova?

Este ano, pela primeira vez em seis, eu não me lembrei do seu aniversário.

Este ano não tem passagens canceladas com frustração e revolta.
Não tem versos escritos de rompante nem noites vividas pela metade.
Não tem flores que nunca serão entregues enchendo a minha sala.
Muito menos teu chocolate preferido no armário do meu escritório.

Não tem camisa social nova, perfume, Diablo esperando no bar.
Eu nem mandei engraxar aquele sapato ridículo que te faz se sentir importante quando uso contigo.
E quando tiro, principalmente.

Hoje não tem Led Zeppelin tocando insistente nem reorganização da sessão da minha estante de romances proibidos pela igreja.
Eu não fumei teu cigarro, eu não bebi teu licor depois do almoço.

16.2.20

Vinho

Percebi que tava fodido quando fui ver o pornô da calada da noite pós-trabalhocursoensaio e, em vez de ir direto para as categorias de costume, me vi procurando uma atriz parecida com você.

Ou talvez não tenha sido exatamente aí, mas quando você começou a me ocorrer em momentos aleatórios do dia.

Um cliente que negocia investimentos em imóveis, uma música chiclete ecoando dos bares, um filme de drama anunciado, a virada da chave no carro.

E seu cheiro grudado no carro, mesmo fazendo meses que a gente não se via. (Mesmo você nunca tendo entrado ali, também.)

E me peguei em um provador de loja de shopping, onde mal costumo entrar, pensando se você ia gostar do tom vinho daquela camisa.

Me encarei no espelho, do alto da minha soberba de quem já viu e viveu de tudo, e ri comigo mesmo constatando o quanto essas paixões repentinas nos fazem ingênuos e aprendizes.