20.2.20

29

Eu esqueci você.

A prova?

Este ano, pela primeira vez em seis, eu não me lembrei do seu aniversário.

Este ano não tem passagens canceladas com frustração e revolta.
Não tem versos escritos de rompante nem noites vividas pela metade.
Não tem flores que nunca serão entregues enchendo a minha sala.
Muito menos teu chocolate preferido no armário do meu escritório.

Não tem camisa social nova, perfume, Diablo esperando no bar.
Eu nem mandei engraxar aquele sapato ridículo que te faz se sentir importante quando uso contigo.
E quando tiro, principalmente.

Hoje não tem Led Zeppelin tocando insistente nem reorganização da sessão da minha estante de romances proibidos pela igreja.
Eu não fumei teu cigarro, eu não bebi teu licor depois do almoço.

16.2.20

Vinho

Percebi que tava fodido quando fui ver o pornô da calada da noite pós-trabalhocursoensaio e, em vez de ir direto para as categorias de costume, me vi procurando uma atriz parecida com você.

Ou talvez não tenha sido exatamente aí, mas quando você começou a me ocorrer em momentos aleatórios do dia.

Um cliente que negocia investimentos em imóveis, uma música chiclete ecoando dos bares, um filme de drama anunciado, a virada da chave no carro.

E seu cheiro grudado no carro, mesmo fazendo meses que a gente não se via. (Mesmo você nunca tendo entrado ali, também.)

E me peguei em um provador de loja de shopping, onde mal costumo entrar, pensando se você ia gostar do tom vinho daquela camisa.

Me encarei no espelho, do alto da minha soberba de quem já viu e viveu de tudo, e ri comigo mesmo constatando o quanto essas paixões repentinas nos fazem ingênuos e aprendizes.