16.2.20

Vinho

Percebi que tava fodido quando fui ver o pornô da calada da noite pós-trabalhocursoensaio e, em vez de ir direto para as categorias de costume, me vi procurando uma atriz parecida com você.

Ou talvez não tenha sido exatamente aí, mas quando você começou a me ocorrer em momentos aleatórios do dia.

Um cliente que negocia investimentos em imóveis, uma música chiclete ecoando dos bares, um filme de drama anunciado, a virada da chave no carro.

E seu cheiro grudado no carro, mesmo fazendo meses que a gente não se via. (Mesmo você nunca tendo entrado ali, também.)

E me peguei em um provador de loja de shopping, onde mal costumo entrar, pensando se você ia gostar do tom vinho daquela camisa.

Me encarei no espelho, do alto da minha soberba de quem já viu e viveu de tudo, e ri comigo mesmo constatando o quanto essas paixões repentinas nos fazem ingênuos e aprendizes.
E a sensação é tão boa e ao mesmo tempo tão áspera. 

Porque paixões, mesmo as mais bem vividas, são sempre sombrias e ilusórias.

É sua condição de existir.

Fico pensando no que faremos quando a realidade nos laçar a ponto de nos impedir de fantasiar, enquanto olho da janela a paisagem fria.

Faz 2 graus e penso na insanidade que foi ter dirigido 823km BR adentro só pra ver você.

E penso na insanidade maior ainda que seria não ter feito isso. Nada disso.

Fecho a cortina.

Suas coxas emboladas na camisa vinho me ensinaram a não ter pressa.

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