23.3.20

Pegadas

Às vezes cansa fingir que a gente não sente. Que o perfume igual não comprime o peito, que a tatuagem do teu nome que vejo em um desconhecido não faz tremer o corpo. Que fico indiferente a uma música que fala de você. Todas elas falam de você.

Não me pergunta se eu "posso passar aí".

É claro que eu faria isso. Eu faria isso agora (e talvez por isso eu esteja aqui, compulsivamente escrevendo). Mil quilômetros nunca me impediriam de ver você. De deixar você me invadir. Distâncias físicas são o menor dos impedimentos nessas searas, aliás.

Eu iria agora, no meio da pandemia, a pé, com a roupa do corpo, esquecendo as torneiras abertas, luzes acesas, só a chave no bolso. Não são palavras pra causar impacto, eu faria, simplesmente. Você sabe. É justamente por isso que eu não posso nem vou fazer.

Já basta me render nessas casualidades em que minto para mim mesma que nossos hiatos te mataram. Claro que não.

Você não é o único cara de pau grande no mundo. E química boa passa. Amor, não.

Parece leviano falar de amor assim, logo para nós, que já vivemos e vimos o amor com várias faces. Amor é construção, é o que fica na amizade e na parceria da intimidade. Da exposição. Dos calos e dos abraços inesperados.

Eu sei. Você também sabe.

Como um rompante, uma ideia, teu cheiro, tuas mãos... podem ser amor?