24.4.20

Deixa eu ser o confronto

Eu falo que você vai se arrepender não como o óbvio recalque da dor de cotovelo, embora eu conheça muito bem meus porres ao som de Leandro e Leonardo doendo você.

É porque é ainda mais óbvio, pra qualquer um ver, o quanto nós deveríamos estar juntos. É, agora mesmo, com quarentena, e que se foda.

Aplacando nossas crises (você é o psicólogo aqui, afinal), surtando totalmente, esquecendo, lembrando, sendo insuficientes.

Porque é assim que o mundo real funciona. E isso nos chegou bem cedo, basta ver nossas "conversas caídas" de sempre.

Cheiro doce que gruda

19/12, e esse frio cinza de São Paulo.

Encosto na varanda com uma caneca de café, desses aromatizados com uma fruta exótica colhida dos recônditos de qualquer lugar longe. Sempre é de muito longe.

O cheiro adocicado que sobe do café não é dele, é seu.

Seu, do dia em que nos sentamos molhados de chuva embaixo de uma marquise no Eixo, e o cheiro do café do vizinho era a única coisa que esquentava.

20.4.20

Mise en abyme

Vazios são os olhos que fáceis refletem
Toda feia angústia que a eles se apresenta
Vomitam sem absorver igual figura
Pavimentando essas dores na armadura

Olhos de fora, de narciso clamam o charme
Se afogam e se inebriam na mentira muda
Que se alegram nas alheias disparidades
Esquecendo que só levaram o que já tinham

17.4.20

Interrogação

Coisas que a gente não sabe
Daquelas que a gente vive, claro
E nelas se enreda
Por opção, como sempre é

Inescrutável o acesso

Supomos, com as parcas informações que nos chegam
Completamos com o que parece ser óbvio
Baseados em teorias inelutáveis
Sedimentadas por esse extrato da acurácia científica:
Impressões

Confiamos

Essa credibilidade dada
É ao que recebemos do outro como certificado
Ou só à pretensão de que sabemos tudo?
De que lemos, entendemos, decodificamos?

De que podemos confiar no que chamam
Instinto
Intuição
Informação